segunda-feira, outubro 02, 2006

Sobre Diferenças

Esta campanha política trouxe à tona novidades em termos de participação política. Não vou aqui elogiar a grande participação do eleitorado enquanto o voto for obrigatório no Brasil. Agora senti sim uma maior participação política principalmente através da internet.
Na verdade já tinha observado o fato no plebiscito do ano passado. Foi através de uma intensa movimentação de e-mails e a primeira utilização do orkut em uma eleição, que formou-se aos poucos uma rede que conseguiu fazer chegar nos rincões do Brasil a propaganda bem sucedida pelo não desarmamento. Sem juízo de valor aqui.
Nestas eleições vi muitas discussões no orkut. Algumas produtivas (poucas) e outras quase que caindo para a troca de insultos, a maioria. Acho isto profundamente triste. As pessoas não deviam se afastar uma das outras por convicções políticas. Ou deveriam?
Até que ponto nossas convicções mostram quem somos de verdade? Podemos definir as pessoas pelas suas escolhas, seja ideológica, política ou mesmo religiosa? Pode-se deixar de ser amigo de uma pessoa por causa de uma profunda diferença ideológica?
Estou vendo nossa sociedade se dividindo a cada dia, e isto é preocupante. Esta eleição está mostrando isto. Ontém no orkut vi uma verdadeira cruzada anti-nordeste na comunidade do Alckmin, como também vi a fúria dos petistas contra São Paulo.
Este tipo de polarização só tinha visto antes no Rio Grande do Sul. E não é de hoje. Lendo a obra de Érico Veríssimo é possível acompanhar como diferenças ideológicas levam ao ódio e a guerra. O curioso é que quanto maior o ódio, mais perde-se o sentido da ideologia que se está "defendendo". Em O Tempo e o Vento percebe-se claramente que muitos que estavam envolvidos no conflito não sabiam quais eram as idéias em disputa, apenas eram colorados ou chimangos.
Mais recente, no regime autoritário (64-85) ocorreu coisa semelhante. Por depoimentos de Gabeira, Jabour e outros percebe-se claramente que pouco sabiam sobre a ideologia comunista. Apenas sabiam que estavam do lado certo, enquanto os "golilas" eram o mal absoluto. Por outro lado, estes mesmos gorilas, não sabiam por que o comunismo era intolerável, apenas sabiam que era, e isto lhes bastava.
Agora temos os "Lulas" e "anti-Lulas". Muito poucos sabem porque se encontram em determinado lado. Assumem suas posições como se fossem times de futebol e a defendem com ou sem argumento.
Só que política não é esporte. A disputa não termina com o título, ela continua e interfere em nossas vidas.
Não considero que opiniões políticas-ideológicas diferentes deva afastar pessoas. Acima de tudo deve ter o respeito mútuo, e o entendimento que somos diferentes e pensamos diferentes. E principalmente que podemos estar errados.
Dizem que política, religião e futebol não se discute.
Pobre humanidade que não consegue discutir política, religião e futebol!

4 comentários:

Alexandra disse...

Muito interessante. Quanto chegar em casa contribuirei com uma resposta...

Alexandra disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Alexandra disse...

Por que não podemos concordar em discordar?
- Porque isso requere capacidade de pensamento crítico, que é algo que não vem da inteligência como alguns pensam, mas algo que se aprende e que não somos ensinados. Ao Estado não interessa uma população de pensadores críticos. Alguns dizem que seria ingovernável. Eu não sei até que ponto isso é verdade. O que eu sei é que realmente nenhum sistema educacional básico ensina o cidadão a pensar de forma crítica. As escolas ensinam o conformismo e a “verdade” de acordo com aquela sociedade. E isso não tem nada a ver com sistema de ensino pobre, etc. Ocorre o mesmo no tal “primeiro mundo”. Eu dou aulas na melhor universidade do Canada e uma das melhores da América do Norte. O Canadá é tido como um país com um dos melhores ensinos públicos do mundo. Muito poucos estudantes chegam a universidade capazes de pensar por si próprios. 90% querem acreditar no que o professor acredita. Por isso os professores (ao menos os de história) tentam mostrar os dois (ou cinco) lados de uma questão sem dizer qual eles acreditam. Porque se disserem a discussão acaba e a maioria se conformará com aquela versão.

Até que ponto convicções políticas e religiosas definem quem somos?
- talvez não definam quem somos mas definam a maneira como vemos o mundo a nossa volta. Um ataque direto a nossa percepção do universo poderia ser intrerpretado como um ataque pessoal e, pior, um ataque ao nosso universo.

Por que não podemos discutir política, religião e futebol?
- Porque, ao contrário do que se prega, o homem não é um animal puramente racional. Se o fosse não estaríamos no buraco onde nos encontramos. O homem é também um animal emocional. Cada um tem sua propria forma de balancear razão e emoção. A emoção não se explica, não tem razão e se suas convicções são baseadas mais na emoção do que na razão (como geralmente é a nossa escolha de clube de futebol), não há como defender essa convicção através de uma discussão racional. Eu consigo discutir religião e política na boa, sem me alterar. Por que? Porque minhas convicções políticas e religiosas são baseadas em um entendimento racional e, portanto, se você conseguir me convencer que a sua posição é melhor do que a minha do ponto de vista racional, eu estarei disposta a mudar de convicção. Portanto não me sinto atacada quando alguém ataca as minhas convicções.
- Mas talvez o problema seja a tendência humana em perceber o mundo em polaridades: preto e branco, norte e sul, certo e errado, quando a maioria das coisas está entre os dois polos. Muito poucas coisas podem ser definidas em certo e errado. Existem muitos tons de cinzento entre o branco e preto. O problema é que a maioria das pessoas só se sentem seguras nos extremos. Queremos respostas simples e diretas. Gostamos de generalizar. Por isso livros como Hitler’s Willing Executioners (que defende a tese simplista que o Holocausto ocorreu porque o povo alemão odiava os judeus e não via a hora de se livras deles) vendem milhões de cópias enquanto livros muito melhores não vendem quase nada...

Suas perguntas são muito interessantes e vou ter que pensar mais um pouco para continuar essa discussão. Me interessa porque isso é exatamente a questão central das minhas pesquisas: como as pessoas se polarizam tão facilmente? como podem vizinhos, amigos e familiares um dia se voltarem um contra os outros por causa de convicções politicas e religiosas? Como pode uma pessoa normal se juntar a um grupo e sair matando seus vizinhos por causa disso? Eu entendo a violência do criminoso, do sádico, do serial killer. Mas eu não entendo a violência social. E é isso que eu quero entender.

No fundo somos todos iguais. Preto, branco, cristão, budista, muçulmano, rico, pobre, homem e mulher. Todos queremos uma vida digna: trabalho, comida na mesa, um teto sobre a cabeça, segurança para ir e vir e um futuro para nossos filhos. Se não temos isso, bate o desespero e a vida perde significado. É por isso que só existe sociedade estável, sem violência, onde a grande maioria da população tem acesso a esse kit básico.

Alexandra disse...

Hmm, depois de reler isso tudo me pareceu meio sem sentido...