domingo, janeiro 21, 2007

Livro: Raízes do Brasil

Terminei ontem de ler um dos livros mais importantes para explicar a formação da identidade brasileira. Trata-se de Raízes do Brasil de autoria de Sérgio Buarque de Holanda. Junto com as obras Casa Grande e Senzala e Formação do Brasil Contemporâneo forma a espinha dorsal para a compreensão de nossa nacionalidade.

O autor vai na Ibéria para mostrar os traços que herdamos de nossos colonizadores, principalmente o culto ao personalismo, que provoca a frouxidão das instituições e a falta de coesão social. Neste contexto surge um dos temas principais da obra: a repulsa pelo trabalho regular e as atividades utilitárias.


Segundo o autor os grupos sociais são formados pela dualidade entre o “aventureiro” e o “trabalhador”, sendo que no Brasil este foi bem mais atuante. Como característica básica existe um foco no resultado final com o desprezo pelos processos intermediários, gerando nossa dificuldade em trabalhar nossos métodos e a forma depreendida em que se procura resolver os problemas.


Apresenta a marca da vida rural em nossa sociedade, e seu declínio com o fortalecimento gradual das cidades, provocando um rearranjo na estrutura de nossa sociedade.


Compara o urbanismo espanhol com o português, e como a forma de edificar as cidades mostra o espírito do colonizador. Enquanto que os espanhóis construíram cidades regulares, cuidadosamente posicionadas os portugueses seguiram o relevo, originando cidades altamente irregulares. Observa-se então a maior determinação espanhola em vencer a natureza e estabelecer-se em seus termos.


Disseca então o que seria a grande contribuição brasileira para o mundo: o homem cordial. Consiste no predomínio de comportamentos de aparência afetiva em detrimento ao ritualismo da polidez. Daí surge um dos principais problemas que enfrentamos: a falta de impessoalidade no trato da coisa pública, a confusão do público com o privado. O cargo ocupado passa a se associar aos direitos que gera para a pessoa que o ocupa, e não para os deveres como servidor.


Na política esta forma de ser resultou num falso liberalismo, fundamentado no desejo de negar uma autoridade incômoda, e principalmente na ausência de um real espírito democrático. Uma aristocracia rural importou os conceitos democráticos e acomodou-os de acordo com os seus interesses, procurando manter seus direitos e privilégios.


Por fim o autor apresenta o que seria a nossa revolução: a passagem do rural para o urbano. Neste processo, lento e contínuo, nossas raízes ibéricas se perdem, sendo substituídas pelo novo tipo de vida. Nossa organização administrativa ideal, que deveria funcional automaticamente pela impessoalidade da lei é destruída continuamente pelo personalismo.


"A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos e privilégios, os mesmo privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas."

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