quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Oleanna

Oleanna (1994)

dirigido por David Mamet
elenco: William H. Macy e Debra Eisenstadt

É um filme de dois personagens, um professor universitário e uma aluna que está indo mal no curso. Basicamente se divide em 3 diálogos. Um inicial em que o professor oferece ajuda para a aluna, o que é interpretada por ela como assédio sexual. Um segundo onde ele a confronta sobre a acusação e uma terceira onde já expulso da faculdade ele tenta pela última vez resolver a situação.

Este filme me incomodou um bocado. E isto é muito bom em se tratando de cinema. Ele é provocativo, na medida que nos damos conta onde pode nos levar a barreira da comunicação. É difícil definir que é o herói e quem é o vilão aqui, talvez não tenha. O fato é que algumas questões filosóficas e psicológicas interessantes são discutidas em um roteiro maravilhoso.

O professor é um intelectual brilhante. A aluna tem dificuldades de compreender as aulas de seu professor, para não dizer que não entende nada. Só isso já constitui uma barreira enorme. O professor quer se fazer entender, não aceita que sua mensagem não chegue a jovem, e para isso desfila longos discursos articulados para uma aluna que se limita a tentar pescar palavras que anota furiosamente num caderno.

Pois estas palavras, retiradas do contexto que foram ditas podem sim levar a uma interpretação como assédio e até estupro. Ele percebe que é muito difícil explicar o que elas realmente significaram, tanto que o conselho escolar as acolhe e o pune quando estava prestes a ser efetivado.

Sua vida desmorona, e seu mundo perfeito perde o sentido. No último diálogo já não é articulado, está consumido pela raiva. A aluna por seu lado tornou-se dona da situação. É ela quem dita o rítmo agora e quem faz os discursos. Ele é confrontado com uma realidade cruel: no processo de se tornar um professor perfeito perdera sua própria humanidade.

Ele não cometera o estupro que a aluna alega, mas sabe que cometeu uma violência intelectual ao massacrá-la com seus discursos perfeitos e brilhantes. Tenta desesperadamente conseguir uma forma de resolver a situação e no momento de sua maior fragilidade é surpreendido por uma frase banal que penetra em sua vida pessoal. Era o gatilho que faltava para uma explosão.

O filme me incomodou por perceber quão perto estamos as vezes de ser profundamente mal interpretados, e como é difícil corrigir a situação. Curiosamente, todas as vezes que o professor tentou, acabou por reforçar o mal entendido.

Quem gosta de filme com final bem definido, ou simplesmente com final passe longe, bem longe. O desfecho do filme são seus questionamentos e as reflexões que provoca. É um filme para ser pensado e para ficar refletindo por um bom tempo.

Achei um texto de um psicólogo na internet sobre o filme, é bem extenso. Em resumo, defende o autor que como filme não é nada demais, mas à luz da psicologia é fascinante. Não sei se concordo com ele, não sou psicólogo e gostei do filme. Acho que é mais do que psicologia, é filosofia. E aí está sua grande virtude. Nota 8,5.

Artigo sobre o filme


2 comentários:

Eu conduzo potencialidades disse...

Filme Oleanna

O filme trouxe uma inquietação sem tamanho, sou aluna de pós graduação (psicopedagogia). Já que me ocupo das questões relacionadas ao processo de ensino aprendizagem...a psicologia, psicanalise e a questão pedagógica são ferramentas que podem auxiliar no entendimento das questões que permeiam o filme, porém me sinto atraída em buscar recursos na filosofia para melhor 'entender' o enredo...como por exemplo a questão ética....dos valores ...o existencialismo ...o poder...
Quando vc diz sobre o cunho filosófico, que talvez seja o caminho...se refere a que especificamente...

Vânia Freires disse...

Ouvi falar do filme através de um psicólogo que fez uma palestra sobre assédio, na empresa onde trabalho. Procurei o filme em locadoras mas não encontrei. Algumas pessoas nem conhecem o filme. Existe um nome diferente em português? Como vocês conseguiram assistir?