quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Questão de fé

Em outubro de 2004 eu era o engenheiro membro de uma comissão responsável por uma obra do Exército, portanto pública. O recurso tinha acabado de sair e estávamos lançando a licitação para a construção de 3 edifícios de 3 andares e uma casa. A abertura dos envelopes seria em meados de novembro, e computado os recursos chegaríamos facilmente ao empenho nos primeiros dias de dezembro. Em reunião afirmei o óbvio: tínhamos que nos preparar porque ao final do exercício financeiro a obra provavelmente nem teria começado. O chefe comissão disse que era para terminar em dezembro. Com o apoio do responsável pela comissão de licitações argumentei que era impossível sequer começar, quanto mais terminar. Nunca esqueci as palavras do chefe:

__ Na minha vida aprendi uma coisa e espero que você aprenda também: temos que ter fé!

Naquele momento soube que não havia mais argumentos possíveis, contra a fé não se discute. Mas aprendi uma lição: quando em uma discussão de natureza técnica, ou financeira, alguém levanta o argumento da fé e porque você venceu o debate, embora não leve o prêmio.

Foi divulgado pelo IBGE finalmente o PIB do ano passado. 2,9%. Pela segunda vez superamos apenas o Haiti (que está em guerra civil) na América Latina. Não vou ser tão duro, existem dois resultados absolutamente inverossímeis que ninguém acredita (14% de Cuba e 10,5% da Venezuela). Vá lá, o venezuelano é até possível por causa do petróleo, embora os institutos daquele país já não sejam mais confiáveis, mas o cubano...

Pois a média do primeiro governo de Lula foi de 2,6%. O do primeiro governo de FHC foi de 2,57%. A diferença é que o crescimento mundial nos últimos 4 anos é o maior desde o fim da II Guerra. E estamos perdendo a onda, se já não a perdemos. E qual é a reação do governo:

O IBGE vai mudar a metodologia para cálculo do PIB! Não é uma canalhice? A culpa, vejam só, é do IBGE! Não dá nem para comentar um absurdo destes. E o presidente? Vejam o que ele afirmou hoje sobre o Brasil:

“vive um momento de solidez que pode significar um atrativo enorme para as pessoas de outros países que acreditem que o Brasil é um porto seguro para os seus investimentos.”


O que no governo FHC era fracasso econômico agora é momento de solidez. Até aí ainda estava no petismo normal. Mas o pior ainda estava por vir:

O ministro Paulo Bernardo (Planejamento) disse ter conversado, pelo telefone, com Lula. Achou-o otimista. E instou os jornalistas a seguirem o exemplo do chefe. "Vocês são jornalistas de pouca fé", disse o ministro.


E estamos reduzidos a isto. Uma questão de fé!

Um comentário:

Alexandra disse...

e eu ainda tenho que ficar escutando imigrante brasileiro aqui ou no Canada reclamando que tudo era muito melhor no Brasil...