terça-feira, março 27, 2007

O Grande Jogo

Com o sub-título de Política, Cultura e Idéias em Tempos de Barbárie, este livro de Demétrio Magnoli de 2006 apresenta um panorama mundial e nacional da atualidade. O autor é cientista social e doutor em Geografia Humana pela USP.

O livro é uma coletânea de artigos e pensamentos que foram revisados e organizados em capítulos, de acordo com determinados temas.

No primeiro capítulo trata da organização mundial após a guerra fria, especialmente na Europa. A ONU e a União Européia são discutidas. A nova política americana sob comando dos conservadores radicais do Partido Republicano de intervenção onde seus interesses estivessem em jogo é dissecada e como se desmoronou o sonho de um mundo "civilizado".

Nos capítulos seguintes é apresentado a questão do Oriente Médio. É interessante a abordagem que faz do potencial simplificador da política internacional americana. Alerta que a guerra contra o terrorismo é um combate contra inimigos difusos e voláteis. É uma meta inatingível e condena os Estados Unidos, por antecipação, à derrota certa. Chama atenção também para o perigo do desenvolvimento nuclear iraniano.

Faz a distinção do mundo árabe e do mundo muçulmano que seriam conjuntos geopolíticos e culturais parcialmente superpostos, porém distintos. O fundamentalismo seria um contraponto ao panarabismo, doutrina que defende a unificação árabe num único estado. Uma passagem interessante é sobre a morte de Vieira de Mello que mesmo criticando a vulnerabilidade da missão se recusava a permitir que seu pessoal se escondesse atrás das tropas americanas; queria que o povo iraquiano diferenciasse a ONU dos Estados Unidos. Com a sua morte findou-se a crença no "governo mundial" baseado num "contrato social" entre as nações. Cada funcionário da ONU em Bagdá passou a ser protegido por veículos e soldados americanos.

Trata também da defesa da esquerda aos ditadores e crimes praticados pelos regimes comunistas pelo mundo. Lembra que em 11 de abril de 2003 o regime de Fidel Castro condenou à morte três líderes do sequestro de uma balsa com a qual tentavam chegar à Florida. Lembra da frase já cérebre de Saramago: "Cuba não ganhou nenhuma heróica batalha fuzilando aqueles três homens, mas, sim, perdeu minha confiança, arrasou minhas esperanças e frustou minhas ilusões". José Genuíno, então presidente do PT, comparou a sentença à cadeira elétrica americana. Esqueceu de dizer que só são condenados à morte nos Estados Unidos assassinos, nunca um sequestrador de balsa.

Mas o mais devastador do livro é a análise da política externa do Brasil no governo Lula. O fracasso de todos os objetivos que o novo presidente tinha traçado em 2003 estão ali expostos. Todas as derrotas diplomáticas e trapalhadas com Chaves-Morales são tratadas e, principalmente, a política do Brasil-potência.

Por fim, no último capítulo trata dois temas igualmente difíceis. O racismo e as cotas raciais, que é contra, e a violência que assola as grandes cidades brasileiras. Na sua ótica o poder público permitiu que se formasse territórios estrangeiros nas grandes favelas brasileiras e que a o estado deve retomar o território perdido, instalando um conjunto de equipamentos públicos básicos (hospitais, postos de saúde, escolas e, sobretudo, delegacias de polícia). Com a retaguarda do Exército.

Um livro fácil de ler e bastante abrangente, desmistificando alguns mitos, reafirmando outros, mas com o indiscutível mérito de tratar com inteligência dos temas a que se propôs. Você pode discordar de suas posições, mas seus argumentos são bem construídos e muito bem escritos.

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