sábado, abril 14, 2007

Sobre o aborto

Nos últimos meses tenho refletido muito sobre a questão do aborto. Tenho tentado chegar a minha própria conclusão sobre o tema, o que não foi fácil.

Infelizmente o debate no Brasil sobre o aborto é muito ralo e preconceituoso. De certa forma a legalização é vista como modernidade diante de uma proibição reacionária. A questão foi politizada ideologicamente, o que mais atrapalha do que ajuda. Hoje é vista como um valor de esquerda, a proibição como de direita.

Acho isso uma tremenda bobagem. É uma questão de valor individual e do que cada um estabelece como ético e moral. E é neste sentido que tratarei o assunto.

Li, com atenção, os argumentos de ambos os lados. Devo reconhecer que são muito bons.

Os à favor defendem que é um direito da mulher, que é uma solução melhor do que trazer ao mundo uma criança indesejada ou em um lar desestruturado. Afirmam também, com propriedade, que a lei não impede a prática. Existem médicos e clínicas clandestinas sempre prontos a fazer o procedimento, normalmente em condições precárias e com riscos à mulher.

Os contra defendem que a prática é um assassinato, que o feto já possui vida. Afirmam que a própria ciência é incapaz de determinar o momento que a vida se caracteriza. Muitos baseiam-se em sua orientação religiosa, o que é combatido pelos adversários com o argumento de que a religião é obscurentista.

Sem muito pensar, minha opinião sempre foi de que a prática deveria ser legalizada pela incapacidade de se cumprir a Lei. Para evitar que se fizessem abortos em clínicas de terceira linha, sem acompanhamento ou condições ideais de higiene. Mas como disse, sem muito pensar.

Para tomar um partido resolvi me basear na minha moral. A questão é responder a seguinte pergunta: aceito moralmente que se evite um filho pelo aborto? Mas a simples resposta à esta indagação não é o suficiente, existe uma outra: é uma questão relacionada a liberdade individual ou à sociedade? Sim, pois mesmo chegando a conclusão que o aborto seja moralmente condenável não quer dizer que se tenha o direito de impô-la a outrem.

Pois vamos a primeira pergunta: o aborto é imoral? Sempre defendi que a religião não pode ser usada como argumento de discussão. É a velha máxima de que não se discute religião. Concordo em parte. Hoje considero que a fé é fundamental em nossas vidas e nosso conceito de moral está profundamente ligada a ela. Não consigo dissociar minha fé das questões morais, pois elas sempre andaram juntas.

Nunca disse aqui neste blog pois achei que não tinha necessidade. Pois agora há. Sou cristão. Sou espírita. E o que tem a ver minha religião com o aborto? Infelizmente ou felizmente, tudo.

Acreditamos que a alma está ligada ao corpo desde a concepção em um processo de re-encarnação. Esta alma se prepara por um bom tempo para este momento. E o processo não é aleatório. O espírito escolhe como, quando e principalmente, quem serão seus pais. E os pais consentem com esta escolha antes mesmo deles próprios virem ao mundo.

Portanto, seja de que forma for a concepção, ela foi escolhida ou consentida pela mãe. Ao rejeitar o filho que está a caminho ela está fazendo um grande mal a si mesma. E será para ela motivo de grande sofrimento, seja aqui nesta vida ou após.

Desta forma respondo a primeira pergunta com um sim, é moralmente condenável o aborto. Está se tirando a vida futura de uma alma e mostrando uma fraqueza da mãe.

Agora vem a outra questão: a sociedade tem o dever de intervir nesta questão ou é da liberdade individual da mulher?

A partir do momento que considero que o feto já está ligado à alma não tenho outra alternativa senão reconhecer que existe um conflito entre dois seres humanos: a mãe e seu filho. E um deles não pode opinar ou se defender. Portanto é sim questão da sociedade e do estado.

Resta um argumento forte dos à favor. Proibindo ou não, legal ou não, o aborto vai continuar existindo. Confesso que este argumento sempre foi o decisivo na minha posição anterior. Refletindo um pouco mais chego a conclusão que o não cumprimento da lei não pode ser desculpa para seu fim.

É contra a Lei matar. No entanto nossas grandes cidades estão um mar de sangue. Seria a solução retirar do código a proibição de matar? Ou seria melhor reavaliar a fiscalização para que fosse cumprida? Duas variáveis influem diretamente na criminalidade: o tamanho da pena e a certeza da punição. Sem isso qualquer lei é falha.

Não sei dizer se o feto já pode ser considerado vida, mas acredito que já possua alma. Por isso não posso concordar que seja um direito da mãe eliminá-lo. Os ativistas pró-aborto utilizam sempre como exemplo a figura da mulher sexualmente abusada ou cuja vida está em risco pela gravidez. Mas não acredito que sejam estes os casos mais comuns.

O quadro que imagino como padrão é a da mãe surpreendida pela gravidez decorrente de sua própria irresponsabilidade. E na minha vida cruzei com muitos casos destes. Felizmente os casos mais próximos não terminaram em aborto, e hoje estas crianças antes não planejadas, ou mesmo indesejadas, são partes fundamentais nas vidas de suas mães.

Concluindo, acho o aborto moralmente errado, e uma decisão que acarretará em arrependimento futuro para a mãe, aqui neste mundo ou no que vier após. Acho que o estado deve defender o direito da futura criança, e trabalhar para impedir o procedimento. Reconheço o direito dos que são à favor de se manifestar e lutar por sua posição. Espero que respeitem o meu de não concordar.

6 comentários:

Alexandra disse...

Caro irmão,

Respeito sua opinião, concordo com a explicação espirita e moral, não faria um aborto mas sou a favor da legalização do aborto. Não acho que a maioria dos casos de aborto seja o de mães irresponsáveis. Muitas mulheres recorrem ao aborto como último caso, depois de muito sofrimento e muitas passam suas vidas tentando lidar com a escolha que fizeram. Acho que essa também pode ser uma lição que elas têm que passar nessa vida, se vc for ver pelo ponto de vida espírita.

Se o Estado é contra o aborto, então sugiro que invista em segurança pública para que mulheres não sejam estupradas, em educação sexual para meninas de 14 anos não se vejam deparadas com esse tipo de situação, educação e desenvolvimento economico para que as pessoas pobres, já com 10 filhos nas costas, não tenham que tomar uma decisão como essa pq simplesmente não podem imaginar mais uma boca para sustentar e não podem parar de trabalhar para ter mais um filho, e por aí vai.

O aborto é legal no Canada mas a proporção de abortos é muito menor do que no Brasil.

O assunto poder ser controverso e muitos podem não concordar, mas como mulher eu acho sim que enquanto o bebe está dentro do corpo da mãe, ele pertence a ela para o melhor e para o pior.... Bom, tenho que correr, depois falo mais...

Marcos Guerson Jr disse...

Como disse, eu já pensei assim antes.

Não acho que a maioria dos casos seja de estupro. Quando disse mães irresponsáveis não fiz em tom de crítica ou de menosprezo, muito pelo contrário. Incluo aí tanto as que praticam uma vida sexual sem medir conseqüências como as que praticam sem terem tido acesso a um mínimo de informação. Talvez o termo tenha sido mal colocado, mas não consegui achar outro.

Concordo com tudo que o estado possa fazer para proteger as mulheres da violência sexual e sobretudo para educação. Mas tem que ser campanhas que não incentivem à prática sexual como estão fazendo aqui no Brasil. Informar e chamar atenção aos riscos é uma coisa, convidar para o ato sexual é outra completamente diferente.

Por fim discordo totalmente da colocação de que enquanto o bebê estiver na barriga da mãe ele pertence a ela. É uma vida ali dentro, e deve ser protegida. O direito à vida é fundamental e não pode ser limitado pelo direito de outra pessoa. Mesmo a mãe.

Marcos Guerson Jr disse...

Encontrei agora na Revista Espírita:

http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/aborto/aborto-direito-ou-crime.html

Alexandra disse...

Eu não acho que a legalização do aborto o incentive. Muito pelo contrário. Nesse caso o estado pode colocar em jogo um sistema em que a mulher passaria por um processo de aconselhamento e ajuda para que não tome um passo desse em um momento de desespero.

A questão é que antes de lutarmos contra o aborto, temos que lutar contra a violência contra as mulhers e a igualdade entre os gêneros. Eu tive um professor na faculdade de direito que era super contra o aborto, etc. Aí ele foi trabalhar no nordeste e se deparou com o caso de um mulher pobre, com 8 filhos para criar, cujo marido apareceu um dia, usufruiu dos seus direitos de marido e sumiu no mundo. Ela sustentava sozinha os 8 filhos e simplesmente não podia ter mais um. Ela não podia nem ao menos deixar de trabalhar para parir a criança já que todas as outras crianças eram pequenas e dependiam dela. Para garantir a sobrevivência da família dela, ela fez um aborto. O professor concluiu que quem era ele para falar pra ela que o que ela fez era crime?

A situação é muito complicada, não é uma questão simples de direito e dever, moral e ética, vida do bebê x vida da mãe.

Como eu disse, eu não faria, mas não me vejo no direito de julgar outras pessoas ou forca-las à clandestinidade. Pois desde que o mundo é mundo a mulher se depara com essa posição difícil. Eu já me deparei com esse momento. Teve um momento quando tinha meus 17 anos que imaginei estar grávida. Na minha cabeça não havia a menor possibilidade de eu gerar essa criança. Eu me vi sem ter a quem recorrer e meu instinto era de ferir a mim mesma. Eu dava murros na minha barriga. Por isso não posso julgar ninguem.

Hoje não faria. Mas defendo a legalização.

Alexandra disse...

Tivemos uma discussão interessante recentemente sobre isso no blog da Denise, com direito a contexto historico e tudo o mais:
http://tinyurl.com/2nc924

Marcos Guerson Jr disse...

Quanto ao exemplo do Nordeste percebe-se a total falência do estado como promotor da educação. O problema dessa pobre mulher é a ignorância em que convenientemente grande parte do nordeste é mantida. Mas mesmo nesse exemplo de falência do estado em evitar a situação não creio que a solução seja a interrupção da vida. É evidente que ela não possui condições de criar mais um filho. Ele deve ser entregue à adoção, de preferência por parentes.

Agora veja o seu próprio caso, você teve acesso à educação, o que a coloca num caso bem diferente do primeiro. Naquele momento estava colocando a culpa num inocente, que não pode pagar por nossas escolhas.

E acho que é esta a grande questão. Ao fazermos nossas escolhas, seja fruto da ignorância ou da imaturidade, temos que arcar com as conseqüências. O homem planta o que pode, e colhe o que plantou.

Volto a dizer, não dá para dissociar a questão do aborto do que se entende por moral. Não é questão de julgar. Não posso e não devo julgar ninguém, para isso existe um poder constituído para tal. E um outro, muito mais poderoso, além deste mundo. E neste o aborto é um crime contra a vida e quem o pratica, seja a mulher, os pais que consentem, o médico, todos terão de responder, em maior ou menor grau.

Aquela pobre nordestina cometeu um crime. Existe um série de atenuantes? Existe. Sua ignorância, o meio em que vive. Mas não a exime da responsabilidade de seu ato.

Ano passado saiu uma reportagem muito comentada no Rio de Janeiro. Os filhos e abortos dos bailes funks. Nos bailes do subúrbio do Rio jovens fazem uma espécie de "trenzinho" em determinadas músicas, em que acontecem rápidos atos sexuais. Não acho justo que uma jovem se entregue a uma vida sexual desta natureza e diante de uma gravidez indesejada utilize o aborto como solução.

Por fim não concordo com a questão de que a liberação do aborto não incentivaria a prática. Pelo menos não no Brasil. Talvez no Canadá, mas mesmo assim ainda duvido.

Nesta questão, e em todas as outras, sou sempre a favor da vida. É o principal direito que possuímos.