sábado, junho 30, 2007

Apologia de Sócrates/O Banquete

Apologia de Sócrates

Ainda estou maravilhado com este texto de Platão. É um dos mais bonitos que já li na vida e mostra muito do que estamos vivendo hoje. Calúnias, falsidade de um discurso, pré-julgamento, vida espiritual, atitude diante da morte, são temas atuais e lindamente explorados neste curtíssimo livro.

Trata-se da defesa apresentada por Sócrates no processo que o condenou à morte em 399 a.c., movido por Meleto, acompanhado por Anito e Lícon. Basicamente se defende da acusação de corromper a juventude e acreditar em novas divindades. O processo ateniense não previa promotores ou advogados, mas o acusador apresentava seus argumentos e cabia ao acusado interrogá-lo e se defender. Os atenienses presentes julgavam quem tinha a razão.

A primeira parte do livro é a defesa propriamente dita do filósofo. Seus acusadores haviam alertado os cidadãos atenienses que Sócrates poderia enganá-los com sua habilidade de orador.

Inicia seu discurso afirmando que não se apresentaria de nenhum modo "hábil no falar", não usaria um discurso repleto de expressões bonitas e vazias, mas coisas ditas de maneira simples e espontânea, pois "do orador, o mérito é dizer a verdade". Olhando para nossos dias, fico pensando em como mentiras podem ser ditas com tão belas palavras e lembro que a mentira tem várias faces.

Sócrates afirma que se defenderia de dois tipo de acusadores, os antigos e os do processo. E que a primeira defesa seria a mais difícil.

Fala das calúnias, que ao longo dos anos foi se espalhando por Atenas. É mais difícil se defender delas pois não pode se confrontar com os acusadores, e cabe-lhe apenas defender por si mesmo, "sem que ninguém responda". Essas calúnias seriam responsáveis já pela pré-disposição da assembléia em condená-lo.

Ao explicar da onde havia surgido o ódio contra ele, Sócrates explica o verdadeiro sentido da sabedoria. Conta que seu amigo Xenofonte, indo a Delfos, interrogou o oráculo sobre a sabedoria, e este afirmou que ninguém era mais sábio que o filósofo.

Decidido a refutar o oráculo, decidiu procurar homens que fossem mais sábios do que ele, pois não se considerava nem mais nem menos sábio do que ninguém.

Inicialmente procurou um dos conhecidos detentores de sabedoria, um importante político. Examinando-o percebeu que ele parecia ser "um verdadeiro sábio para muitos e principalmente para si mesmo, mas não era sábio". Procurou demonstrá-lo o que causou o ódio do político, e de muitos outros; refletindo Sócrates considerou que era mais sábio do que aquele homem visto que, como ele, não sabe "nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la". Já o filósofo não acredita saber o que não sabe. É o famoso só sei que nada sei.

Da mesma forma procurou os artistas e artífices e constatou o mesmo. Os primeiros, representado pelos poetas, "embora digam muitas e belas coisas, não sabem nada daquilo que dizem". E pelo talento que possuíam julgavam-se sábios em outras coisas, nas quais não eram. Os artífices possuíam muitos conhecimentos específicos e o mesmo defeito, "pelo fato de exercitar bem a própria arte, cada um pretendia ser sapientíssimo também nas outras coisas de maior importância, e esse erro obscurecia o seu saber".

A verdadeira mensagem do oráculo é que a sabedoria humana é de pouco ou nenhum preço e que são sábios "aqueles que, como Sócrates, tenham reconhecido que em realidade sua sabedoria não tem nenhum mérito".

Sócrates revela que a missão que recebeu dos deuses era procurar e investigar os que eram considerados sábios; e quando não, demonstrar que não eram. A verdadeira sabedoria estaria em reconhecer nossos limites, em saber que não se sabe da grande maioria das coisas.

Daí surgiria a acusação de que corrompia os jovens, pois na verdade não sabiam o que fazia ou ensinava. Por não o compreenderem repetiam a acusação destinada aos filósofos: de não acreditar nos deuses. Não pude deixar de pensar na inquisição e também no totalitarismo. O primeiro acusava os homens de não acreditar em Deus, e o segundo de serem contra o estado. Eram incapazes de refutar suas idéias e por isso usavam da calúnia. Sócrates adverte que livrar-se de uma calúnia era extremamente difícil e que era caluniado "por dizer a verdade".

Em seguida passa a defesa das novas acusações. Interrogando Meleto, leva-o a várias contradições demonstrando que as acusações eram pretextos pra levá-lo ao tribunal e condená-lo. "E é isso o que vai me vencer, se eu for condenado... e não Meleto, ou Anito, mas a calúnia e a insídia do povo".

Refuta que deveria ter deixado sua ocupação pelo risco de morrer por ela de forma magnífica:
Não estás falando bem, meu caro, se acreditas que um homem, de qualquer utilidade, por melhor que seja, deve fazer caso dos riscos de viver ou de morrer, e, ao contrário, só deve considerar o seguinte: ao executar qualquer tarefa, deve avaliar apenas se está procedendo de maneira justa ou injusta, se está agindo como homem virtuoso ou desonesto.
Afirma que temer a morte é uma coisa que "parece ter sabedoria, não tendo". Pois ninguém sabe o que significa a morte mas todos a temem, "como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males".

Sobre a acusação de corromper os jovens, afirma que o que ensinou foi a dar pouco valor às coisas da matéria e mais ao espírito, de onde sai o pensamento que considera mais bonito de todo o livro:
Por toda parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente, e nem tão ardentemente, com o corpo e com as riquezas, como devem preocupar-se com a alma, para que ela seja o melhor possível, e vou dizendo que a virtude não nasce da riqueza, mas da virtude vêm, aos homens, as riquezas e todos os outros bens, tanto públicos como privados.
Outra parte interessante é quando afirma que ao condená-lo à morte não causariam mal maior do que a si mesmos pois "não pode acontecer que um homem melhor sofra dano de um pior". Mal maior era procurar matar injustamente um homem.

Era costume na época que o acusado levasse a família ao processo para comover os jurados. Sócrates afirma que assim não o faria, pois desejava defender-se apenas por força de seus argumentos. Os que promovem tal drama nada mais estão fazendo do que demonstrar a própria culpa. Esta me lembrou de nosso presidente do Senado.

Sócrates termina sua defesa afirmando que não iria suplicar sua absolvição, mas esclarecê-los e persuadí-los a tal. Sua defesa estava na verdade.

Na segunda parte, já condenado, o filósofo se vê diante da pena de morte. A ele cabe oferecer uma pena alternativa, uma que o impeça de filosofar. Afirma que passar a vida discorrendo sobre a virtude e examinando a si mesmo e aos outros tratava-se do maior bem de um homem. "Uma vida sem esse exame não é digna de um ser humano".

Não deixaria de seguir sua missão para fugir da morte pois "bem mais difícil era fugir da maldade, que corre mais veloz do que a morte". Teria sido pego pela mais lenta, enquanto seus acusadores pela mais veloz: a maldade. "Assim, eu me vejo condenado à morte por vós: vós, condenados de verdade, criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentre da minha pena, vós dentro de vossa".

Na terceira e última parte, Sócrates apresenta sua despedida e novamente fala da morte. Fala que a morte significaria ou o sono eterno, a não existência, ou a mudança de existência, a "migração deste lugar para outro". Mas que a esperança estava nesta última pois acreditava na seguinte verdade:
não é possível haver algum mal para um homem de bem, nem durante sua vida, nem depois de morto; que os deuses não se desinteressam do que a ele concerne; e que, por isso mesmo, o que hoje aconteceu, no que se refere a mim, não é devido ao acaso, mas é a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser libertado das coisas desse mundo.
Sua última frase é uma das mais belas e supera qualquer conclusão que eu poderia fazer sobre esta obra magistral:
Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vós para viverdes. Mas, quem vai para a melhor sorte, isso é segredo, exceto para Deus.




ps: Sobre O Banquete falo em outro post.

10 comentários:

Anônimo disse...

esse texto é ótimo, valeu.....

Artel disse...

olá
onde você postou sobre o banquete?
adorei o post, perfeito! bj

Márcia Lima disse...

Cara vc é incrivél me ajudou a chegar ao verdadeiro conhecimento em relação a filosofia,com sua visão em relação as teorias de sócrates.

Viviane C Martins disse...

Sócrates foi um dos grandes filósofos da hist´ria.Gostei muito desse comentário a respeito do livro.

Marcos Guerson Jr disse...

Obrigado Viviane!

Abracos!

Anônimo disse...

isso é praticamente o resumo né? por favor responda isso para mim.. mto obrigado!

Anônimo disse...

aonde é que você postou sobre O BANQUETE?
obrigada

Marcos Guerson Jr disse...

O posto sobre O Banquete pode ser encontrado no link abaixo.

http://cantodojota.blogspot.com/2007/07/o-banquete.html

Anônimo disse...

muito bem apropriado seus comentários a respeito da "Apoloiga de Sócrates/ O Banquete" obrigado.

Anônimo disse...

O texto eh otimo... Estava fazenoo um trabalho e ajudou nmt...
Vlw!