sexta-feira, junho 08, 2007

Artigo: Álvaro Vargas Llosa

O escritor peruano e analista político Álvaro Vargas Llosa já foi anarquista mas hoje se orgulha por ser considerado como um verdadeiro liberal. É co-autor do livro "Manual do Perfeito Idiota Latino Americano".

Após a decisão do governo venezuelano de não renovar a licença de transmissão por causa de uma suposta violação dos padrões éticos, a rede de tevê mais antiga da Venezuela saiu do ar. Conseqüentemente, a Rádio Caracas Television (RCTV), a combativa emissora que foi demais para Hugo Chávez suportar, tornou-se a mais recente causa pública famosa da América Latina.

Não é fácil para quem não está familiarizado com a história da região entender a grande agitação sobre a decisão de Chávez em fechar a RCTV. Tenho visto muitas reportagens nos Estados Unidos e em outros países que revelam uma certa descrença com o status de herói que está sendo concedido à emissora e a seu diretor-presidente, Marcel Granier. Esses textos parecem sugerir que, afinal, se trata de uma questão burocrática e, por mais arbitrária que a decisão de Chávez possa parecer, a RCTV foi além dos limites do jornalismo independente e se tornou um instrumento contra as autoridades.

Deixando de lado o argumento óbvio de que o julgamento sobre o conteúdo jornalístico da emissora deve ficar a cargo dos telespectadores e que a história de Chávez o torna um guardião inadequado de qualquer moral do país, há uma razão mais profunda para que o caso da RCTV mereça a atenção mundial. Ela tem a ver com o papel que, na ausência de equilíbrio entre os Poderes, na firme marcha rumo ao totalitarismo, essa emissora foi forçada a desempenhar.

Levada pelas circunstâncias, a RCTV se transformou nos últimos anos em algo como uma Assembléia Nacional substituta, uma Suprema Corte substituta e um tribunal eleitoral substituto. “Não somos políticos”, disse-me Granier há poucos dias, “mas numa situação como esta são se consegue evitar ser considerado como parte da luta política pelos que não têm representação efetiva nem salvaguardas democráticas e pelos responsáveis de eliminá-las; só por fornecer informação a uma sociedade faminta por informação fomos colocado nessa posição”.

Isso está de acordo com a tradição da América Latina e em alguns outros lugares, onde a repetição de tiranias freqüentemente forçou as instituições civis a substituírem os partidos políticos ou os líderes oposicionistas.

Durante os anos 60 e 70, o Brasil se tornou a capital mundial das telenovelas. Por causa da censura à mídia, os brasileiros começaram a ver suas novelas como uma reflexão mais precisa da vida real do que as informações que recebiam dos jornais.

Em algumas nações, as redes de mídia assumiram papéis políticos. Durante a ditadura Somoza, o jornal nicaragüense La Prensa se tornou um símbolo tão poderoso que seu proprietário, Pedro Joaquín Chamorro, foi morto por capangas do governo. Após a queda de Somoza, a viúva de Chamorro, uma dona-de-casa, foi catapultada por forças acima de seu controle para a arena civil; ela se tornou o problema para a ditadura sandinista e por fim ganhou as eleições presidenciais. Granier e sua rede de TV são profundamente merecedores da solidariedade que estão tendo de milhões de venezuelanos e de governos, organismos internacionais e líderes mundiais que estão denunciando o ato monstruoso contra a instituição de 54 anos que empregava 3 mil trabalhadores.

A RCTV, a nau capitânia da corporação 1BC , é o último capítulo numa longa tradição de virtude cívica transformada em necessidade política numa época de extremo perigo à liberdade nacional. A decisão da Suprema Corte da Venezuela – a instituição que deveria revogar a ordem de Chávez – de confiscar os equipamentos de transmissão da RCTV, adicionando mais afronta à injúria, exemplifica as circunstâncias que tornaram Granier e seus jornalistas uma referência para os que estão desesperados para encontrar algo ou alguém que represente a justiça na Venezuela.

A RCTV teve o líder perfeito nessas circunstâncias extremas: um homem sereno que nunca se acovardou diante de forças terríveis – nem quando Chávez promulgou a Lei de Responsabilidade Social e modificou o Código Penal alguns anos atrás, para amordaçar a mídia radiofônica e televisiva, nem quando os Círculos Bolivarianos organizados pelo governo atacaram seus empregados, nem quando seu caixão foi exibido nas ruas como uma ameaça de morte.

Chávez está certo em ter medo de um homem desses. Granier triplicou os investimentos de sua empresa na Venezuela quando tudo lhe dizia que ele iria se arrepender da decisão e, com jornalismo crítico e entretenimento, conseguiu obter 44% da audiência nacional.

Com sua coragem característica, Granier disse: “Vamos voltar ao trabalho na segunda-feira, mesmo que estejamos fora do ar e as pessoas não possam ver o que estamos fazendo.” Na Chavezlândia, tal homem é realmente intolerável.

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