segunda-feira, julho 23, 2007

O Saber dos Antigos, Terapia para os dias atuais

Autor: Giovanni Reale (1999)

Fabuloso. Não tenho palavras para descrever este livro de Giovanni Reale. Uma visão do nosso mundo atual, dos nossos males e como nos afastamos de lições valiosas da sabedoria antiga, mais precisamente da filosofia grega.

Reale apresenta não apenas os males modernos, mas o que considera a raiz de todos estes males: o niilismo.

Procura demonstrar como a carência de ideais, a perda dos valores supremos e a ausência de Deus como lugar dos valores mais elevados, justamente o niilismo conforme descrito por Nietzsche, tornou-se a característica principal do século XX.

Segundo ele, o tratamento enérgico desses males implicaria sua erradicação, ou seja, a derrota do niilismo, por meio da recuperação de ideais e de valores supremos, a superação do ateísmo, isto é, daquele assassinato de Deus previsto por Nietzsche.

No prólogo, caracteriza o niilismo e justifica porque o considera como a raiz dos males do homem de hoje.

"A cultura contemporânea perdeu o sentido daqueles grandes valores que, na era antiga e medieval e também nos primeiros séculos da era moderna, constituíam pontos de referência essenciais, e em ampla medida irrenunciáveis, no pensamento e na vida".

Condena o relativismo dos valores atuais, que leva à pobreza destes mesmos valores. A convicção de que não exista uma verdade, uma constituição absoluta das coisas.

O niilismo leva a desvalorização e à negação dos seguintes princípios:
  • princípio primeiro, Deus
  • fim último
  • ser
  • bem
  • verdade

A "morte de Deus" tem um significado bem maior do que o de exprimir uma forma da ateísmo comum, significa que o mundo ultra-sensível (transcendental) não tem força real e com isso, a anulação total dos valores ligados a ele, a perda de todos os ideais.

"Em suma, a afirmação 'Deus está morto' é a fórmula emblemática do niilismo e significa que o mundo meta-sensível (o mundo metafísico) dos ideais e dos valores supremos, concebido como ser em si, como causa e como fim __ ou seja, como aquilo que dá sentido a todas as coisas materiais, em geral, e à vida dos homens, em particular __, perdeu toda consistência e toda importância."

Esta transferência dos valores da esfera do ser e da transcendência para o mundo físico, o da vontade de potência, e a conseqüente transvaloração radical dos valores supremos constituem a etapa conclusiva e completa no niilismo.

Reale resume em dez itens os males atuais:
  1. o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;
  2. o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;
  3. o praxismo, com sua exaltação da ação e o esquecimento do ideal da contemplação
  4. a proclamação do bem-estar material com sucedâneo da felicidade;
  5. a difusão da violência;
  6. a perda do sentido da forma;
  7. a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da "escala de amor" platônica (e do verdadeiro amor)
  8. a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;
  9. a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;
  10. a materialismo em todas as formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado.

A cada capítulo apresenta um destes males e uma terapia baseada nos ensinamentos dos antigos. É uma viagem às várias dimensões da vida humana, o quadro que estamos vendo a cada dia, e como os gregos tratavam estes temas. Lições valiosas para aqueles que quiserem escutá-las.

No epílogo apresenta duas mensagens de Platão aos homens de todas as épocas.

A primeira é a criação do conceito ocidental de "con-versão".

Esta palavra, hoje associada ao cristianismo, tem origem na filosofia grega e significa "um volver ou fazer girar 'toda a alma' para a luz da idéia do Bem, que é a origem de tudo".
A mensagem de Platão seria a seguinte:"converter-se consiste em voltar-se das puras aparências para a Verdade. Ou em desligar-se das coisas que prendem à dimensão do sensível e voltar-se para o supra-sensível".

A segunda mensagem do grande filósofo está em "Fedro"; para o autor, a obra-prima de Platão.

É justamente a oração proferida por Sócrates que reprentaria todas as coisas que precisamos em nossa existência:

"Querido Pã e outros deuses que estais neste lugar, concedei-me a beleza interior e fazei que meu exterior se harmonize com tudo o que carrego dentro de mim. Que eu possa considerar rico o sábio e possa ter uma quantidade de ouro que só o temperante conseguiria tomar para si ou levar consigo."

Nesta sublime oração, o filósofo pede quatro coisas.

A beleza interior
Deve-se lembrar que os gregos atribuíam enorme importância à beleza. A grande conquista de Platão estaria na interiorização da beleza. "A beleza física representa apenas o grau mais exterior e mais baixo da própria beleza. A verdadeira beleza é a interior (...) a verdadeira beleza, a divina, não está no cormpo mas na alma, e é esta que é realmente preciosa".

A capacidade de subordinar o exterior ao interior
As coisas interiores seriam os valores da alma; as exteriores os bens materiais e o que ser relaciona a estes.

Não há o desprezo pelas coisas exteriores, "mas antes uma subordinação destas às interiores, uma precisa relação hierárquica".

Continua: "não procure aumentar o que você já tem, mas faça com que o que você tem esteja em harmonia com o que você é (...) se você aumentar aquilo que tem (os bens exteriores), deve simultaneamente aumentar aquilo que você é (os bens interiores)."

Reconhecer na sabedoria a verdadeira riqueza
Não é o ouro (e riquezas em geral) o verdadeiro bem, a sabedoria possui muito maior valor do que este. "A sabedoria é justamente a filosofia, a própria fonte de vida honesta e sábia"

Poder obter o máximo desta riqueza
Durante muito tempo este quarto pedido foi mal interpretado. Sócrates já havia definido a sabedoria como a riqueza, portanto é a ela que se refere com a metáfora do ouro. Temperante é aquele que tem autodomínio, moderação baseada na racionalidade.

Trata-se daquele que compreende que a sabedoria absoluta pertence à divindade, que sabe que ao homem só pode existir uma parte. Pede, portanto, que possua o máximo que puder carregar desta sabedoria e com isso aproximar-se o máximo possível de Deus. "O conhecimento de si mesmo atinge o mais alto grau de 'sabedoria' que o homem é capaz de alcançar. Quem tem a consciência de que não possui a plenitude da sabedoria divina, e portanto não tem a pretensão de ser um perfeito sábio, adquire mais do que todos..."

Conclui afirmando que a força dos antigos está na eternidade de sua mensagem.

"Enquanto que o homem de hoje pensa e trabalha para o aqui e agora, o homem antigo __ artista ou filósofo __ procura pensar e trabalhar 'para sempre', e por isso suas mensagens valem também para o homem de hoje, justamente porque valem 'para sempre'".

E terminar é começar O fim é de lá de onde partimos.
T S Eliot

4 comentários:

Anônimo disse...

Guerson, estás de parabéns. Descobri o teu blog por acaso e agora o acompanho semanalmente.

Abraços

Marcos Guerson Jr disse...

Agradeço pelas palavras. Pena não ter deixado o nome.

Cristiano Hemerly disse...

Guerson, meu nome é Cristiano Hemerly e achei o teu blog procurando no google o site do V Rio de Transportes. Sou aluno da UFES e tb estive apresentando trabalho nesse evento (categoria pôster).

Nere disse...

Ola!Guerson,meu nome é Nere,foi de grande importância tudo que li em seu blog, pois me ajudou bastante com o trabalho da faculdade,obrigada e um forte abraço.