domingo, julho 29, 2007

Terminou o Pan

Quem me conhece sabe que sou um fã de esportes. Nas Olimpíadas de Sidney, por exemplo, fiquei madrugadas inteiras assistindo o desempenho dos atletas brasileiros. Meu dia era marcado pelos horários das competições.

Mas este Pan foi diferente, o que pode ser constatado pelo número reduzido de posts deste blog.

Qual foi a diferença?

Até ano passado eu era totalmente indiferente à situação do país. Era um entusiasta do pão e circo. Era um daqueles que julgam melhor não pensar para não se decepcionar. Uma alienado tentando ser feliz em sua ignorância. E até certo ponto era.

Mas desde o momento que assisti embasbacado aquele famoso depoimento de Roberto Jefferson no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados tomei a pílula azul (ou vermelha, não lembro) e saí de Matrix.

Iniciei um processo irreversível de desalienação. Entendi que é justamente minha postura anterior que faz com que a elite política consiga fazer os verdadeiros absurdos que assistimos todos os dias no noticiário.

Por isso não conseguir ficar alheio ao fato de que o orçamento de R$ 400 milhões se transformou em R$ 3 bilhões. De dinheiro público. A conversa que o Pan arrumaria a infraestrutura da cidade do Rio de Janeiro foi pura conversa. Sim, fizemos algumas praças de esportes, mas a que custo? 3 bilhões de reais?

Somos uma país em que mais da metade da população não tem acesso à água potável, 90% das estradas não são pavimentadas, algumas cidades possuem índice de mortes violentas maiores do que Bagdá em guerra. Este investimento em praças esportivas de nível olímpico parece-me um luxo indefensável. E incompatível com a situação do país, e da cidade do Rio de Janeiro.

Torci pelos atletas brasileiros, assisti várias competições. No entanto não tive vontade de pagar um ingresso e assistir uma competição.

Tentei me animar pelo menos para fazer um acompanhamento pelo blog. Tomei a decisão de registrar cada medalha de ouro. Infelizmente poucas horas após o primeiro post, em que fiz um mosaico com nossos vencedores, vi pela televisão uma avião em chamas com 180 passageiros dentro.

O Pan pareceu-me ainda mais fútil.

A grande maioria dos atletas brasileiros que competiram merecem nossos aplausos, são vencedores. As histórias da trajetória de cada um rumo às medalhas são dignas de serem registradas e servirem de exemplo.

Mas agora que acabou, existem estórias que devem ser contadas, e investigadas.

Nossos políticos e dirigentes esportivos sonham com uma Copa do Mundo e um Jogos Olímpicos. Sonho com ambos bem longe daqui. Se para organizar este evento, que sejamos francos é de terceira categoria, 400 milhões se transformaram em 3 bilhões... o que será de uma Copa do Mundo? Com Ricardo Teixeira à frente!

Não meus amigos. O Brasil tem muito mais com que se preocupar, e muito o que fazer. Existem prioridades inquestionáveis longe de serem atacadas.

O esporte ainda não é uma prioridade, e nem deve ser.

Ah, mas o esporte tira a criança do crime, das drogas, dá esperança.

A educação também, e com muito mais força. E estamos dando diploma de segundo grau para analfabetos genuínos, e diplomas universitários para analfabetos funcionais. Estamos vendendo a imagem de que o estudo não leva a lugar nenhum (e este que existe no Brasil realmente não leva), mas que lutar boxe leva. Ou correr descalço em uma pista de terra batida.

A prática de esportes dentro de uma política educacional séria é importante, mais até do que gastar dinheiro em atletas de alto desempenho para ganhar medalhas olímpicas. Não se compara, entretanto, com uma política de educação verdadeira, voltada para todo o ciclo escolar.

Por estes motivos não me animei como antes para este Pan.

Não aceito mais pão e circo.

Um comentário:

Alexandra disse...

bom, foi como uma amiga comentou em seu blog:
"Eu acho que os locutores oficiais lá no Maracanã deveriam gritar para os cubanos que ainda ficaram no Brasil: "FUJAM CUBANITOS, FUJAM!!!!".