sábado, agosto 18, 2007

Linchameto moral

Parte da mídia nacional está em franca campanha para linchar o movimento Cansei e caracterizá-lo como ilegítimo. Só nesta república de bananas mesmo.

Do que tenho lido, chama a atenção a ironia constante de Josias de Souza, a cobertura vergonhosa de Laura Capriglione e a chamada do evento de ontem pela Uol.

Começamos pelo último:

Óculos Gucci no rosto e um cartaz "Cansei do Lula, cansei de ver o Brasil apodrecer e não fazer nada" na mão. A empresária Jaqueline (não quis dar o sobrenome) era a síntese dos manifestantes no ato promovido pelo movimento "Cansei", encabeçado pela sede paulista da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e sindicatos patronais.

Dentre 5000 mil pessoas o tal de Rodrigo Bertolotto elegeu essa Jaqueline como "síntese" do movimento. Posso imaginar o petista transvestido de repórter procurando no meio da multidão um óculos Gucci para satanizar através dessa pessoa o movimento todo. Aliás o termo empresário é bem amplo, no Brasil até camelô se caracteriza como empresário. O mais provável é que nem exista esta Jaqueline, a que não quis dar o sobrenome. Mas o mais importante é que mesmo que exista, mesmo que estivesse de óculos Gucci, por que ela estaria impedida de se manifestar? Onde na constituição está escrito que protesto só é permitido com atestado de pobreza e mesmo assim organizado pela UNE, CUT, MST e outros braços do PT?

Outro dia, entre outras, Josias de Souza postou esta nota:

O “Cansei”, aquele movimento de combate ao “deixa-pra-laísmo” que infelicita a vida nacional, ainda não arrebatou multidões. Mas atraiu um grupo singular. Tem elenco para dois ou três vídeo clips. E já consegue encher uma van.

Quem lê a coluna de Josias de Souza conhece a persistência com que ironiza o movimento e tenta caracterizá-lo como um efado dos endinheirados paulistas. E agora de um grupo pequeno de artistas, o suficiente para encher uma van. Afinal, artista que se preze só pode ser a favor da esquerda não é?

Mas delinqüente mesmo é Laura Capriglione. Faz tempo que já deveria ter deixado de assinar notícias e ter passado para o colunismo político. Uma notícia retrata o que aconteceu, de forma objetiva, procurando ser fiel aos fatos. A coluna apresenta a interpretação do colunista e suas digreções sobre o cotidiano nacional.

Laura não quer ser lida como colunista, quer se lida como notícia o que dá veracidade ao que escreve. A direção da Folha de SP comete um imenso deserviço ao matê-la onde está. Na invasão da USP este ano foi autora da tese de que os estudantes promoviam um movimento apolítico, uma espécie de maio de 68 francês com algumas décadas de atraso. Quando professores se manifestaram taxou-os como reacionários.

Sobre a manifestação de ontem escreveu:

‘Os artistas aqui na frente, por favor. Hebe querida, vem. João Dória...Wandeca, eterna Ternurinha; Agnaldo Rayol, a voz inesquecível...’, dizia o mestre de cerimônias, o advogado João Baptista de Oliveira, conselheiro da OAB, entidade que encabeça o movimento.” Estava lá também o Padre Antonio Maria. Como caracterizá-lo? Ora, é o “que casou Daniella Cicarelli e Ronaldo”. Hebe Camargo estava? Estava. A apresentadora “chegou a bordo de um Mercedes Benz F-65 preto, com motorista, e saltou na porta da OAB. ‘Eu sempre participei de movimentos. Tenho fotos minhas de 40 anos atrás, na rua. Eu sou do povo!’, disse ela, escoltada por seguranças”. Hebe estava acompanhada de uma amiga. Leiam: “Segurando por trás nos dois ombros de Hebe Camargo, a empresária Ana Luiza Massari, que se diz indignada, explica o que faz ali pendurada: ‘Eu não sou ninguém, sou só amiga dela. Na verdade, sou dona de uma clínica estética’, diz ela.” Entenderam?

O texto é pura delinqüência política, uma satanização do movimento. Vejam a ênfase que a jornalista coloca no carro de Hebe, na existência de um motorista e de seguranças. Não existe movimento promovido pelo PT ao longo da estória em que a origem do manifestante tenha ganhado linhas nos jornais. Mas é que eram todos pobres! Pior que tem gente que acredita nisso.

Nenhum deles aponta a maior verdade do movimento. Sim, existem empresários, existem artistas, existem endinheirados. Mas a maioria dos que participam são da classe média. Aquela que trabalha um ano para ganhar 7 meses de salário e financia o aumento do gasto público, as verbas indecorosas de propaganda e do gabinete presidencial, os programas de compra de votos, que pagam os salários destes mesmos jornalistas que o demonizam.

Tem gente que tem verdadeiro nojo dessa gente. Que acha que o devem se conformar em ser extorquidos pelo governo e ficar calados. A esquerda nunca conviveu bem com o contraditório, mesmo que em minoria, gosta mesmo de unanimidade.

Por isso o movimento incomoda, porque quebra a idéia de unanimidade do governo de Lula II. Dez pessoas com nariz de palhaço em uma inauguração de porta de serviço já é o suficiente para tirar o presidente do sério.

Aí está a força da minoria.

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