domingo, setembro 09, 2007

Admirável Mundo Novo

Brave New World, 1932
Aldous Huxley

__ Porque o nosso mundo não é o mesmo de Otelo. Não se pode fazer um calhambeque sem aço, e não se pode fazer uma tragédia sem instabilidade social. O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma. Que o senhor atira pela janela em nome da liberdade, Sr. Selvagem. Da liberdade! __ Riu. __ Espera que os Deltas saibam o que é liberdade! E agora quer eles compreendam Otelo! Meu Caro Jovem!

Admirável Mundo Novo é uma fábula sobre um futuro não muito distante onde a humanidade teria alcançado a sociedade perfeita. Não existe violência, todos possuem seu trabalham e gostam dele, todos são felizes. Não existe a inveja, ódio, solidão, abandono. Enfim um mundo perfeito.

Parece o sucesso da humanidade, mas fica longe disso. É um mundo perturbador. Sim, tudo isso existe na sociedade imaginada por Huxley. Mas ao mesmo tempo é um mundo sem liberdade, dividido em castas imóveis, sem pais e mães, sem esposas e filhos, sem religião, sem contemplação, sem filosofia, sem reflexão, sem história.

No início da obra Huxley faz uma descrição do Centro de Incubação e Condicionamento de Londres Central. Através de uma visita guiada de um grupo de estudantes somos apresentado a um verdadeiro horror genético e psicológico.

Os bebês não nascem mais de mães, são incubados. A semelhança do processo com uma linha de produção __ não por acaso Ford é o novo "Deus" deste mundo __ é angustiante. A sociedade é dividida em castas, enquanto que os Alfas e Betas (os destinados à inteligência) passam por um processo, os Gamas, Deltas e Ípsilons são separados em submetidos a um processo que um único embrião, chamado de ovo, dá origem a um conjunto de gêmeos idênticos que podem chegar a mais de 90. Diante da pergunta de uns alunos sobre a vantagem do processo o diretor responde:

"__ O processo Bokanovsky é um dos principais instrumentos de estabilidade social (...) Noventa e seis gêmeos idênticos fazendo funcionar noventa e seis máquinas idênticas!"

No próprio processo de incubação os destinados às castas mais baixas são submetidas a processos que causam o desenvolvimento abaixo do normal. " Quanto mais baixa é a casta (...) menos oxigênio se dá. " E nessa linha de produção genética vão se preparando os novos indivíduos.

A segunda parte da visita é destinada ao aprendizado, ou melhor, ao condicionamento. Através de mensagens constantes transmitidas durante o sono, as crianças são condicionadas a aceitar seu destino em sua casta, nunca invejar os que são superiores e entender o que é necessário para serem felizes; a consumirem os produtos e aceitarem a completa liberdade sexual; a nunca ficarem sozinhos e entenderem que um comprimido de soma __ uma droga perfeita sem efeitos colaterais __ é fundamental para a felicidade.

Dois cientistas deste centro visitam, em uma semana de férias, uma zona selvagem, denominação dada a alguns locais onde a "civilização" não foi implantada. Um dos cientistas, Bernad Marx apresenta alguns sintomas de individualidade, o que o coloca em desconforto com este mundo. Na zona selvagem tomam contato com os indígenas e descobrem uma "beta" que ficou perdida em uma visita duas décadas atrás, gerando um filho John.

É o primeiro choque de mundos que o autor apresenta. O horror de Linda com uma civilização que cultuava a monogamia, a religião, e onde os filhos nasciam de mães foi-lhe incompreensível. A própria relação com o próprio filho lhe era estranha e considerada por ela uma profanação. John foi educado lendo livros de Shakespeare e desperta a atenção de Bernad que consegue levá-lo para Londres para ser "estudado".

E assim ocorre o segundo choque, com a estória da relação de John com este "admirável mundo novo". Tratado como um selvagem, tentam lhe mostrar como a civilização é maravilhosa, conseguindo apenas despertar o horror ao jovem, que culmina na forma pouco cerimoniosa e desumana como é tratado a morte de sua mãe. Revoltado é levado por fim para ter uma conversa com o administrador.

Este diálogo vale o livro. Perplexo John descobre que administrador conhece tanto Shakespeare quanto a religião, filosofia e a história. E o administrador explica tudo que existe por trás desta nova realidade, e porque estas coisas são escondidas. Em certo ponto afirma:

"Mas esse é o preço que temos que pagar pela estabilidade. É preciso escolher entre a felicidade e aquilo que antigamente se chamava de grande arte. Nós sacrificamos a grande arte (...) a felicidade real sempre parece bastante sórdica em comparação com as supercompensações do sofrimento. (...) O fato de estar satisfeito nada tem de fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada de pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa."

Admirável Mundo Novo é para ser lido e despertar uma grande reflexão sobre a sociedade. Existem ideologias que pregam uma sociedade justa, onde todos são felizes. Seria esta sociedade realmente justa? Seria esta felicidade autêntica? Em que consiste a felicidade?

A grande razão de minha perturbação com este mundo narrado por Huxley é o triunfo do cientificismo e do materialismo. As pessoas são definidas pela sua produção, como no materialismo científico marxista. Aí está a grande questão. Quem acredita que o ser humano é muito mais do que a forma como produz riqueza, não pode deixar de se incomodar com esta sociedade perfeita. O homem de Admirável Mundo Novo é limitado a apenas um aspecto de sua existência; é um escravo condicionado a aceitar sua escravidão e ser feliz com ela.

Um livro genial e inesquecível. Nota 10.

Um comentário:

Lau disse...

estou fazendo um trabalho a respeito desse livro e o achei mais interessante sob a sua perspectiva
bjussssssssss

laudiane

www.lauconfessions.com