domingo, setembro 02, 2007

Cartas a um jovem escritor

Título original: Cartas a un joven novelista
Mario Vargas Llosa, 1997

"Esta é uma certeza que tenho entre minhas muitas dúvidas quanto à vocação literária: o escritor sente intimamente que escrever é a melhor coisa que jamais lhe aconteceu, e pode acontecer, pois escrever significa para ele a melhor maneira possível de viver, independente dos resultados sociais, políticos ou financeiros que possa alcançar com o que escreve."

Esta obra do peruano Mario Vargas Llosa é a exata expressão de seu título: um conjunto de cartas do autor a um fictício (ou não) jovem escritor. É a visão de Llosa sobre a literatura e o trabalho de produzí-la, utilizando exemplos de por vezes grandes e por vezes obscuras obras produzidas por diversos autores ao longo do tempo.

Inicia o livro desmistificando a figura do escritor. Sim, existe uma coisa chamada talento, mas o primordial para se formar um grande escritor é a dedicação ao ofício, que traduz como mais do que servidão, a escravidão. O talento não nasce de maneira precoce, como ocorre algumas vezes na música ou na poesia, mas é fruto de "uma longa seqüência, de anos de disciplina e perseverança".

Em outra carta afirma que toda história está na experiência do próprio autor. Todo romance tem como semente a vivência de quem o forjou. A partir desta semente o escritor cria um mundo que muitas vezes é "tão rico e múltiplo que às vezes fica quase impossível (ou simplesmente impossível) reconhecer aí aquele material bibliográfico gerador".

Os problemas que o autor de uma obra literária enfrenta pode ser dividida em quatro grandes grupos:
  1. o narrador
  2. o espaço
  3. o tempo
  4. o nível de realidade
A riqueza de uma obra por vezes está na transição que é feita nestes 4 fatores ao longo da estória. São as guinadas que respondem pelo salto qualitativo nos romances. Achei particularmente interessante as guinadas no nível de realidade em que o realismo e a fantasia por vezes se mesclam e constantemente o leitor é levado a saltar de um plano para outro. Um plano real muitas vezes se revela uma fantasia mudando toda a perspectiva do romance. Lembrei do último livro que li, O Mundo de Sofia, em que se descobre no meio do livro que a estória da menina Sofia é uma fantasia de um Major norueguês da ONU.

O mesmo romance também mostra outra técnica mostrada por Llosa: a caixa chinesa. Ou simplesmente a estória dentro da estória, exemplificada por Llosa com "As mil e uma noites".

Por fim fala sobre o "dado escondido", onde o autor de uma obra esconde determinada informação do leitor para que este tire suas próprias conclusão. O exemplo que me ocorreu nesta foi de nosso clássico "Dom Casmurro" onde a verdade sobre a traição ou não de Capitu é escondida por Machado com evidente ganho para sua obra.

Em resumo é uma obra destinada principalmente para os que possuem o desejo de se tornarem escritores; e também, em menor grau, para os que se deliciam com a literatura. Depois de ler estas cartas de Llosa a leitura de um romance fica ainda mais rica.

2 comentários:

Alexandra disse...

O Stephen King também escreveu um livro sobre a oficio da escrita... é muito bom tambem!

Vou procurar esse do Llosa... estava mesmo a procura de um livro em espanhol para manter meu espanhol ;)

Marcos Guerson Jr disse...

Outro bom em espanhol é o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano. Foi escrito a 6 mãos, um dos autores é o filho de Llosa.