terça-feira, outubro 16, 2007

Sobre o Islã - II

Na última parte de Sobre o Islã, Ali Kamel faz uma análise da Guerra do Iraque, focando as razões que levaram Bush a invadir o país de Sadam Hussein. Vai de encontro ao que a imprensa nacional publicou sobre o assunto e chega a conclusão que os Estados Unidos, baseado nas informações que dispunham, não tinham outra opção e qualquer outro presidente faria a mesma coisa.

Ali Kamel recorre a perguntas e respostas para expor seu raciocínio.

Toda guerra é má e toda paz é boa?

Não, pois "há vezes em que a paz só faz deixar crescer o inimigo, que se tornará uma ameaça cada vez maior". Existe um grande exemplo histórico, a complacência de ingleses e franceses com a Alemanha de Hitler. Em 1938 Neville Chamberlain retornou de Munique onde tinha aceitado a anexação de territórios tchecos pelos nazistas. Fez que Hitler assinasse um papel dizendo que aquela seria a última reivindicação alemã; foi recebido com festa na Inglaterra e disse que o acordo representava o desejo de duas nações que desejavam nunca mais entrar em guerra. O movimento pacifista da época apenas deu tempo para o fortalecimento de Hitler.

Kamel argumenta que quando os fanáticos do Islã possuem um Estado por trás de si, a capacidade de causar estragos e destruição é muito maior. Osama bin Laden não conseguiria o World Trade Center sem o Afeganistão, e o Iraque poderia ser seu substituto.

A guerra foi uma decisão unilateral dos Estados Unidos?

Sim, acabou sendo. Mas antes, pela primeira vez na história, um presidente americano tentou de tudo para obter solidariedade internacional, e fracassou. Durante o século XX, os Estados Unidos entraram em 3 conflitos mundiais para salvar a Europa de totalitarismos: nas duas guerras mundiais e na guerra fria. "Atacado em seu território, com as Torres Gêmeas no chão e o Pentágono, centro de seu poderio militar, em ruínas, os Estados Unidos pediram apoio da Europa para derrotar o inimigo que certamente é comum, mas a Europa disse não".

É necessário desfazer um equívoco, criticam os americanos por irem a guerra apesar do veto da ONU. Não houve veto nenhum, o que houve foi a recusa de uma autorização, o que é bem diferente. Apenas uma vez na história os Estados Unidos foi autorizado pela ONU para usar a força: na Guerra da Coréia. E só aconteceu porque a União Soviética estava em "greve" no Conselho de Segurança para reivindicar a substituição da China Nacionalista pela Popular. Os soviéticos também nunca se importaram em pedir autorização nenhuma para usar a força.

Bush e Blair mentiram sobre armas de destruição em massa?

É certo que nenhuma arma foi encontrada no Iraque, mas essa crença fazia sentido na época da invasão. Kamel considera ingenuidade achar que dois chefes de estado de governos democráticos se arriscariam a mentir "sabendo que a mentira tinha data certa para ser descoberta: um dia depois da tomada de Bagdá". Invadiram o Iraque com base em informes dos respectivos serviços secretos, que tais armas ou existiam ou tinham grande chance de existir.

Em 1998, os inspetores da ONU foram expulsos do Iraque e, por quatro anos, o mundo ficara sem informação sobre o que o Iraque estava produzindo. Os próprios democratas partilhavam da mesma visão do governo, tanto que autorizaram a guerra no Congresso.

Havia algum laço entre o Iraque e a Al-Qaeda?

É uma questão difícil de responder. É o tipo de coisa que dificilmente é documentada. A pergunta correta, segundo Kamel, seria se na época da invasão haveria suspeita suficiente que o Iraque, na ausência do Afeganistão, pudesse passar a abrigar terroristas da Al Qaeda. A leitura de documentos secretos hoje levados ao conhecimento do público indicam que sim.

As liberdades civis nos Estados Unidos foram feridas?

O que os analistas parecem não entender é que os Estados Unidos estão em guerra. O fato de não ser contra uma nação politicamente organizada não invalida este fato. E em todas as guerras, todas as nações, adotaram medidas internas que restringiam liberdades. A Inglaterra assim o fez na II Guerra com o "Defense Regulation", e o próprio Estados Unidos, em 1942, com a autorização para comandantes militares designarem áreas do território nacional para onde qualquer pessoa pudesse ser banida. 120 mil pessoas, de origem japonesa, foram confinadas no Oregon, Washington e Arizona. O mesmo aconteceu no Canadá.

As restrições à liberdade nos Estados Unidos e a ordem para a polícia britânica atirar para matar são atos de defesa de nações em guerra. "A lição que a comunidade muçulmana radicada em países do Ocidente tem a tirar é uma só. Ela deve se alinhar com os países que acolheram, colaborando de maneira explícita e engajada na caça aos terroristas."

O petróleo foi a causa verdadeira?

Em 2003, ano da invasão do Iraque, os Estados Unidos dispunham de uma reserva de 22 bilhões de barris e produziam 7,4 milhões por dia. Nesse ritmo, suas reservas estariam extintas em 8 anos, um ano depois do fim do segundo mandato Bush. E explicação ficava simples: prestes a ficar sem petróleo, não havia outra alternativa para os americanos senão ir buscá-lo no Iraque. "Tudo muito simples se o mundo fosse simples. Mas ele não é."

Em 2006 os Estados Unidos deveriam estar com uma reserva de 13,8 bilhões de barris, no entanto permanecem em 21,4 bilhões, pouco abaixo de 2003. A explicação está em fatores como novas descobertas, novas tecnologias, aumento de produtividade, restauração de poços antigos, surgimento de fontes alternativas de energia, mudança de perfil do consumo e o próprio preço do petróleo que quando sobe torna econômico a exploração de poços que até então eram antieconômicos. É o caso do Alasca.

O Iraque estava sobre sanção da ONU e só respondia por 2% do abastecimento mundial. Seria mais lógico supor, que interessado no petróleo iraquiano, os Estados Unidos agissem para sustar esta sanção para que chegasse a 6%. Mesmo assim não seria de imediato. Estima-se que com a infra-estrutura de transporte restaurada, o país poderia chegar a 4% em 3 anos, e 6% em dez anos. E para isso seriam necessários investimentos pesados.

Levanto em conta o que os americanos gastaram apenas na primeira fase do conflito, e somar o que os americanos ainda gastarão para colocar em pé a indústria petrolífera iraquiana, obter petróleo por meio de uma guerra é de longe a aventura mais antieconômica da história da humanidade.

Por que o Iraque está como está?

"O governo Bush foi, sobretudo, de uma inépcia no pós-invasão poucas vezes vista na história americana." O problema foi uma idéia totalmente equivocada, a de que o controle interno e pacificação caberia aos próprios iraquianos. Mas que iraquianos? O Exército foi colocado na rua, assim como toda administração do país. Para piorar, outra tese desastrosa, para supervisionar a segunda fase os americanos deveriam usar o menor contingente possível. Era a receita para o caos.

No melhor momento pós-invasão, havia no Iraque 150 mil homens. A PM de São Paulo possui 140 mil, e não dá conta do PCC. Os terroristas se fortaleceram e a violência explodiu. Para quem duvida que a guerra é contra o mundo deve-se lembrar do ataque à missão da ONU (que fora contra a guerra) e pior, conta a Cruz Vermelha que estava no Iraque desde 1983, ajudando o país a superar todas as mazelas de Saddam (Guerra contra o Irã, Guerra do Golfo, embargo da ONU).

Concluindo

Respondendo essas perguntas Kamel mostra que, pelo menos, não é tão simples dizer se os americanos deveriam ou não invadir o Iraque, baseado nas informações que possuíam em 2003. Para mim fica um grande questionamento: a guerra dos terroristas é contra os Estados Unidos apenas? Ou é contra todo o mundo ocidental? Os atentados na Europa, e as diversas tentativas recentes, até mesmo na Alemanha que sempre se opôs à guerra no Iraque, mostram que há muita coisa que se pensar sobre o assunto antes de incorporar a primeira manifestação pela paz que encontrar pela frente.

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