quarta-feira, outubro 03, 2007

Sobre o Islã

Sobre o Islã, A Afinidade entre muçulmanos, judeus e cristãos e as origens do terrorismo
Ali Kamel, 2007

Ali Kamel é jornalista e sociólogo e se dispões a discutir o Islã de uma forma diferente do usual: ao invés de ressaltar suas diferenças com a tradição judaico-cristã, ressalta as semelhanças. E por que uma religião tão semelhante e de princípios pacíficos originou o terrorismo que culminou numa ameaça real ao mundo ocidental?

No prólogo, esclarece que pretende atingir dois objetivos. O primeiro, ressaltar que as três religiões monoteístas são mais semelhantes do que diferentes. O segundo, mostrar que nenhuma delas é base para o horror do terrorismo. Chama atenção para a complexidade do tema e procura contribuir com subsídios "para que perguntas possam ser feitas de forma mais embasada".

O livro é dividido em 5 partes.

De Adão a Maomé

Nesta primeira parte conta a história dos principais fatos históricos das três religiões, baseados unicamente nos Antigo e Novo Testamento e no Alcorão, sem se importar em procurar a verdade para as divergências. Ao longo da leitura dos textos sagrados fica claro a raiz comum entre elas e os momentos que se separaram. Alguns mitos são refutados. O Alcorão, por exemplo, chama judeus e cristãos de "o povo do livro", e que também seriam salvos no julgamento final. O livro dos muçulmanos trata Jesus com extremo respeito pois reconhece nele a natureza miraculosa, apenas refuta sua divindade.

Maomé teria surgido como o profeta definitivo, não para negar a Bíblia, mas para esclarecê-la e corrigí-la em pontos que teria se desviado da mensagem de Deus. Quando os muçulmanos ocuparam a península Ibérica foram extremamente tolerantes com cristãos e judeus, permitindo a liberdade de culto.

Sunitas e Xiitas

A partir de Maomé os muçulmanos se dividiram em várias correntes, sendo os sunitas e os xiitas as maiores. A origem desta divisão seria a sucessão de Maomé. Basicamente os xiitas defendem que apenas os descendentes diretos do profeta poderiam sucedê-lo, enquanto que os sunitas acreditam que revelação acabou com Maomé restando apenas viver como manda o Alcorão e esperar o final dos tempos. Neste ponto os xiitas defendem que existe ensinamentos ocultos no Alcorão que apenas o imã tem acesso.

Explica, a seguir, como se formou as nacionalidades árabes de hoje. Embora tenha seguido uma divisão artificial da colonização européia, a extrema juventude de sua população já assimilou estas nacionalidades criadas.

O Islã não é violento

Kamel defende que existe uma "confusão entre a mensagem da religião e a sua história concreta, conturbada como de resto é a de todas as religiões". O islã prega a paz, a caridade e o amor a Deus, o que é seguido pela grande maioria dos milhões de muçulmanos. O Alcorão proíbe a conversão forçada, a aceitação do Deus único deve ser totalmente voluntária.

Trata também do papel da mulher, especialmente da questão do apedrejamento. Um caso que a exceção, claramente, é visto como regra. Apesar de algumas passagens do Alcorão fazerem referência à prática, ao mesmo torna a pena impraticável por exigências severas para comprovação do adultério. A simples negativa da mulher já afasta a possibilidade de sua aplicação.

Sobre o uso do véu a questão é mais sobre a obrigatoriedade. É curioso que nos locais onde o uso é obrigatório, a reação é contra. Nos locais onde é facultativo ,muitas mulheres a usam como prova de sua fé. No islã existem famílias com maior ou menor grau de conservadorismo, como em qualquer religião.

As Origens do Terror Islâmico

Aqui vem uma das mais interessantes passagens do livro. Fala sobre a consideração de que os terroristas defenderiam uma interpretação literal do Alcorão.

Não, os terroristas islâmicos não são literalistas: o que fazem é interpretar radicalmente as Escrituras, assim como todos os radicais. (...) O que os distingue é a crença não somente de que eles encontraram a verdade como também é dever deles impô-la a todos nós.


Segundo Kamel, chamá-los de fundamentalistas é um erro, pois os enobrece, fazendo que se acredite que têm como propósito apenas seguir a religião. O mais correto seria o termo totalitarismo, e portanto seriam terroristas totalitaristas.

O que os define não é a religiosidade ou o fanatismo, mas a intenção de nos impor uma verdade que não é nossa, de nos submeter a regras que nos desumanizam, de nos privar daquilo que nos define como homens: a nossa consciência e a nossa liberdade. Devem ser chamados pelo nome certo: os totalitários do Islã.


Algumas Perguntas sobre a Guerra do Iraque

Aqui a polêmica é total. Na contramão de toda imprensa brasileira Kamel analisa a decisão de invadir e ocupar o Iraque sobre o ponto de vista dos Estados Unidos e conclui: Bush não tinha outra opção. E mais, qualquer outro presidente teria feito o mesmo, provavelmente antes.

Mas deixo estas perguntas para um outro post.

Conclusão

Apesar do autor não colocar um capítulo de conclusão geral para o livro, fica a mensagem que tentou passar: o islã é uma religião pacífica e assim é visto pela maioria dos seus seguidores. O terrorismo dos totalitários do islã não baseia-se numa interpretação literal do Alcorão e sim na distorção de sua mensagem.

2 comentários:

Alexandra disse...

No meu curso de francês para imigrantes em Montreal, eu tinha uma amiga do Yemen, um país onde as mulheres não só cobrem a cabeça, mas o rosto também. Só que no Canada ela deixou de usar o véu e passou a se vestir de modo ocidental. Conversando com ela um dia ela me disse que muitas de suas amigas Yemenitas falam dela por causa disso, ela diz que não se acha uma má muçulmana pois, segundo ela, o corão diz que a mulher tem que se cobrir para não chamar atenção sobre si. Pois bem, na sociedade ocidental nenhuma mulher usa véu, portanto se ela usasse ela estaria chamando atenção.

Nesse mesmo curso conheci um casal de Iranianos. Foi o casal mais simpático e pacífico que já conheci. De meia idade com 3 filhas adolescentes, tanto o marido quanto a mulher eram super tranquilos, se ajudavam bastante, ele fazia chá pra ela e notava-se que a respeitava muito. Nem um pouco diferente de uma boa família mineira, tranquila e gente boa.

Aliás, esse curso abriu minha mente para outros povos e culturas. Um a um todos os meus estereótipos foram caindo e eu aprendi que no fundo, somos todos iguais: todos rimos, choramos, nos preocupamos em encontrar um emprego decente, em colocar comina na mesa e garantir um futuro para os filhos.

A religião, idioma, nacionalidade, cultura, tudo isso é apenas um verniz...

Camila disse...

Este comentário é um pouco atrasado se levar em consideração que seu post é de 2007, mas seu resumo do livro está me sendo absolutamente útil, obrigada!