sábado, outubro 13, 2007

Tropa de Elite

Tropa de Elite (2007)
Direção: José Padilha

Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro


Finalmente assisti o filme de José Padilha, que tanta discussão tem levantado pela blogosfera brasileira. E percebo porque sua platéia se dividiu nos que abriram artilharia contra a obra e os que comemoraram cada traficante morto no filme.

A estória do filme já foi mais que batida e reproduzida pela mídia. A Veja que chega amanhã tem o filme eu seu centro, a aqui no Brasil quase todo mundo já o viu antes mesmo da estréia nos cinemas, em um fenômeno de pirataria jamais visto.

Ao assistir o filme, pude ver o que tanto revoltou a turma do politicamente correto: é um retrato sem concessões da violência no Rio de Janeiro. Todos os envolvidos no filme são retratados sem relativismos, não existe bandido bom, aquele que julgam defender a comunidade contra a violência do estado. Há policiais corruptos, que protegem o tráfico, mas há policiais honestos. O filme incomoda ao mostrar as responsabilidades de cada um nessa cadeia que se tornou o tráfico de drogas.

O maior mérito do filme é pela primeira vez no Brasil mostrar a criminalidade sob o ponto de vista de um policial honesto. Não, ele não é perfeito. Ele tortura, executa. Mas não compactua com traficante, e com clareza, mostra o que acha de policiais corruptos, dos usuários de drogas, dos traficantes. Como pode uma pessoa honesta fazer o que faz? Há muitas respostas, uma das principais é que ele sabe que o sistema está doente. Sabe que ao prender um traficante ele estará de volta as ruas em poucos dias. Sabe que ele poderá acusá-lo de tortura e rapidamente haverá a mídia e ONGs colocando-o contra a parede. Sabe que aquele traficante será uma ameaça a ele próprio.

O Capitão Nascimento sabe que está em guerra. A polícia convencional não tem meios, treinamento e capacidade para enfrentar esta guerra. São todos corruptos? Não. Ele mesmo reconhece; um policial faz a opção na polícia: ou entra no esquema, ou se omite, ou bate de frente. E os que batem de frente ficam no dilema do Capitão Fábio, que tentou entrar para o BOPE para não ser morto pela própria polícia.

Agora o que mas causou a revolta dos críticos do filme foi seu posicionamento sobre os usuários de drogas. A hipocrisia mostrada no filme é assustadora. O mesmo jovem que estuda direito e trabalha em uma ONG que ajuda crianças de uma favela, sobe o morro para cheirar cocaína e desce com maconha para traficar. E no final ainda participa de uma passeata pela paz. O policial Matias, um dos honestos do filme, acha que pode ser um policial de verdade e ao mesmo tempo conviver com essas pessoas. Aprende de uma maneira dura que não pode fazer concessões. Um policial honesto é policial em todas as horas. Não pode enfrentar o tráfico com seu uniforme e depois fazer trabalho escolar no meio de uma roda em que se passa um baseado sem cerimônia.

Existem pequenas cenas no filme com muita representatividade. Uma é o quando Matias mostra que o pequeno Romerito não consegue enxergar direito. A engajada Maria, que acreditava saber e amar as crianças ajudada pela ONG em que trabalhava, tinha sido lacônica em seu julgamento: o menino não gostava de estudar como qualquer criança. Matias mostrou que eles na verdade nunca tinham prestado atenção no menino.

Outra cena é quando o Capitão Nascimento fala no celular com sua esposa que está fazendo o ultra som enquanto, no alto do morro, prepara-se para entrar em combate. Um policial que no meio dessa guerra tenta de todas as formas ter uma vida, ter direito a sua própria humanidade. Em determinado momento afirma que a vida que leva cobra o seu preço; no fim é abandonado pela esposa com o filho recém nascido.

Sobre a tortura e execuções, tão combatidas, resta uma mensagem incômoda: ela funciona. E por isso existe até hoje em todos os cantos do mundo. Se a referendo? Quem sou eu para julgar? Não estou lá, nos becos de uma favela sabendo que poderei ser morto a qualquer momento. É fácil, em tese, tratá-la como bárbarie, e é. Mas aquele policial no alto de um morro, sendo alvejado, não está em mundo bárbaro? Gostaria de que o sistema funcionasse, que o traficante preso cumprisse sua pena integral em uma penitenciária, que as penas fossem mais duras. A realidade aqui no Brasil é bem diferente, na pior das hipóteses estará solto em 5 ou 6 anos, pronto para matar de novo. O que você faria no lugar do Capitão Nascimento?

É claro que não é a única saída, o próprio filme mostra isso. Quando estava torturando para obter o paradeiro do Baiano um de seus companheiros do BOPE, tão ou mais honesto do que ele, o questiona. Nascimento mostra que sabe que o que está fazendo é injustificável e diz para o colega descer com sua equipe. A partir daquele ponto seguiria apenas os que pensavam como ele, o que estariam na missão de vingança.

E este é o último ponto que trato: a vingança de Nascimento. Li um crítico escrever que aquilo era um "americanismo" do filme, o banditismo de um policial. Acho que não havia outra opção ali. Se o tráfico entender que a morte gratuita, como foi a de Neto, ficará sem reação a vida de todos eles estará sacramentada. Basta uma lista de endereços para iniciar uma execução e intimidação desses policiais. O medo que Baiano mostrou ao ver a caveira do BOPE no braço de sua vitima diz tudo sobre a "eficiência" da vingança. O recado estava dado: executar um policial do BOPE era assinar a própria sentença de morte.

Por tratar de todas estas questões, e sem concessões, Tropa de Elite incomoda tanto. E também por isso é tão bom. Já nasceu clássico e é o melhor filme nacional que já vi até hoje. Nota 10.

Um comentário:

Alexandra disse...

boa reportagem:

http://rosebud-nyc.blogspot.com/2007/10/deu-hoje-na-folha-de-sp.html

concordo plenamente...