segunda-feira, novembro 12, 2007

A Casa Verde

O peruano Mario Vargas Llosa nasceu em Arequipa, em 1936. É um dos maiores autores modernos da língua espanhola e publicou A Casa Verde em 1966, fazendo um retrato da sua terra natal.

Para entender a beleza e importância da obra de Llosa é preciso compreender que Peru não é um país coeso. É dividido pela Cordilheira dos Andes e possui várias paisagens naturais distintas, destacando-se a selva amazônica em sua parte oriental e o deserto na ocidental. A cordilheira divide e mantém separadas estas paisagens.

E é sua fascinação por estas duas áreas, e as culturas que lá se desenvolveram, que retratou nesse livro. É um obra que mostra a dicotomia entre um Peru urbano, com os problemas do subdesenvolvimento da região, e a selva, que encontra-se em outra época histórica, uma espécie de idade média.

Llosa recorre a vários estilos narrativos diferentes para mostrar sua visão, alguns absolutamente inovadores. O que mais me impressionou foi a capacidade de narrar fatos e diálogos, em um único parágrafo ao longo de várias páginas, com discursos diretos e dar elementos ao leitor para entender quem estava falando e com quem. E mais, quem estava pensando o que.

Não é um texto para qualquer um. Necessita atenção, conhecimento da língua, entendimento. Algumas narrativas são mais áridas, o que o autor compensa com a constante alternância de estilo e, também, variações no tempo e no espaço.

Em uma mesma narrativa, Llosa apresenta personagens dialogando em épocas e lugares totalmente diferentes, por vezes desconhecidos. Alguns personagens estão nas duas narrativas que se fundem, outros não. E é possível entender e imaginar os dois acontecimentos, mostrando a genialidade do autor.

Os personagens são fascinantes. Llosa estava influenciado pelo existencialismo de Sartre, e o mundo era um constante suplício para o homem. Não há solução para eles, apenas sobrevivem às situações que ocorrem, procurando no meio da falta de perspectiva uma razão para continuar vivendo.

Fúshia é um anti-herói como nunca se viu, sem escrúpulos e ao mesmo tempo muito humano, é uma contradição permanente. Nada sai como planejou em seu sonho de ficar rico e sua ambição o leva para um lento e doloroso fim.

Lituma é mostrado como um nobre na selva, em sua função de sargento da guarda civil. De volta a Piura parece que encarna uma personalidade totalmente distinta, o que também acaba por levar sua vida, que parecia se encaminhar para uma melhor sorte, para um desfecho melancólico.

Bonifácia é outro personagem que faz a ligação da cidade com a selva. Passa de noviça para esposa e por fim para prostituta. Niéves é um prático de bom coração e ao mesmo tempo um bandido.

Contradição é pouco para o mundo de Llosa. O que dizer do dono de um prostíbulo que se apaixona por uma jovem que não possui olhos e nem pode falar? Ou de madres que tomam índias a força para educá-las dentro da fé cristã e acabam sendo fornecedoras de empregadas domésticas?

É um panorama cru da sociedade peruana, suas instituições, seu povo. Um povo que consegue ser alegre no meio da tristeza e do abandono. Um retrato magnífico de uma civilização marcada por amplas dicotomias e diferenças. Um livro para ser lido e relido, com calma e, sobretudo, com paixão.

Um comentário:

Alexandra disse...

Vou ver se encontro em espanhol... quero me manter em contato com o idioma! Outro livro que muitas pessoas me recomendaram é os Cem anos de solidão do Gabriel Garcia Marquez... Ainda não li...