quinta-feira, novembro 22, 2007

Eutífron

Por Zeus, Eutífron, julgas saber com tanta precisão a opinião dos deuses a respeito do que é e não é piedoso, que não receies que, havendo as coisas sucedido como afirmas, possas cometer uma crueldade movendo esse processo contra teu pai?


Eutífron é um dos diálogos de Platão que retratam os últimos episódios de Sócrates. Nele, o filósofo encontra um adivinho, que dá nome ao diálogo, em seu caminho para o fórum para tomar ciência da acusação de Meleto que o levariam à morte. Fica sabendo que Eutífron estava movendo um processo contra o próprio pai, acusando-o de ter matado um servo, que por sua vez teria matado um homem.

Sócrates se espanta com a decisão do adivinho, e questiona-o sobre sua decisão. Cabe ressaltar aqui, que o pai de Eutífron não teria o matado dolosamente. O servo morreu por falta de cuidados enquanto estava acorrentado. O acusado teria se ausentado para descobrir o que deveria ser feito e por algum motivo se atrasara. O próprio Sócrates mostra que era um homem honesto, ao se referir a ele como o "homem probo".

Eutífron retruca que era uma questão de justiça, independente de quem seja o praticante do ato, dando início a um diálogo sobre o sentido de piedade.

É um embate em que Sócrates deseja uma resposta, mas nos seus termos. Não quer exemplos, ou uma parte do significado, mas quer que lhe explique a verdadeira essência da piedade.

Uma rápida busca pela internet mostra que existem várias interpretações para o diálogo, teses de mestrado e doutorado, enfim, muito estudo de gente muito mais capacitada do que eu. O que vai aqui é minha impressão pessoal, o que entendi do texto.

Inicialmente Eutífron afirma que a piedade é uma imposição da aplicação da justiça, "a piedade impõe o castigo do culpado, seja este pai, mão, ou outra pessoa qualquer; não agir assim é ímpio". A piedade seria o ato que estava praticando.

Essa resposta não satisfaz seu interlocutor, pois limita-se a declarar que está sendo praticado um ato piedoso ao acusar o próprio pai. Sócrates quer saber o "algo característico que faz com que todas as coisas ímpias sejam ímpias, e todas as coisas piedosos, piedosas".

Eutífron então responde que é piedoso tudo que é agradável aos deuses, e ímpio o que não é. O que leva a uma nova refutação de Sócrates através de um novo questionamento: se os deuses divergiam sobre os mais variados assuntos, então existiriam coisas que alguns consideravam agradáveis e outros não, ou seja, existiriam coisas que seriam piedosas e ao mesmo tempo não.

Não pude deixar de pensar no relativismo, na crença que não existem valores universais.

O adivinho apresenta uma revisão de sua definição, colocando como piedoso o que é aprovado por todos os deuses. Sócrates faz a grande pergunta do diálogo: "o que é piedoso tem a aprovação dos deuses pelo fato de ser piedoso, ou é piedoso por ter a aprovação dos deuses?"

Essa pergunta revela muito mais do que uma leitura inicial, na verdade é raiz para muitas coisas atuais, e o motivo do diálogo ser conhecido também como "da Religiosidade".

Eutífron coloca a piedade, e vale para muitas outras virtudes, como uma expressão da religião. Colocando nos dias atuais: é assim porque Deus assim o considera. Um ato é piedoso porque dessa forma é considerado por Deus, e não por ser piedoso em si.

Sócrates na verdade questiona o dogmatismo. Eutífron não consegue explicar a essência da piedade, e por não conseguir a coloca como uma expressão da divindade. O filósofo usa a lógica, a teoria da causa e efeito. Se alguma coisa é produzida é por que algo a produz, e não o contrário. Assim algo é amado por ser piedoso, e não piedoso por ser amado. Sócrates inverte o pensamento de Eutífron, tentando fazê-lo concluir que os deuses aprovam um ato pelo ato em si, por sua essência. O ato não é bom por ser amado, mas é amado justamente por ter sido bom."O que é amado pelos deuses é amado por isto mesmo, e não por ser amado é que ama".

A responsabilidade pelos atos estariam no próprio homem que o pratica, e assim seria considerado por Deus. Uma ato não é justo porque é expressão da vontade de Deus. Isso vai de encontro a todos os radicais que comentem os atos mais absurdos e o justificam como sendo estes agradáveis a Deus, e portanto, justificáveis.

O diálogo prossegue, Eutífron coloca a piedade como expressão da justiça. Sócrates novamente o questiona, seria a piedade parte da justiça ou a própria justiça? Haveriam atos justos que não seriam piedosos? Dessa forma o ato do adivinho, de acusar o próprio pai poderia ser justo, mas seria piedoso?

É um soco no legalismo. Muitos o confundem com legalidade. São coisas diferentes, o legalismo pressupõe que a norma legal seja perfeita, e portanto deva ser aplicada implacavelmente. É mais uma questão controversa, onde estaria o limite da legalidade e do legalismo? Uma pessoa que rouba um pedaço de pão deve responder da mesma forma que um que rouba milhões? Uma mãe que protege um filho, escondendo-o da lei por um crime que ele cometeu, deverá responder por este ato?

Em mais um esforço, Eutífron coloca a piedade como um ato de veneração aos deuses. Um novo questionamento: a piedade teria então alguma utilidade para os deuses, teriam eles eles alguma vantagem? Sócrates acrescenta ainda mais, questionando os sacrifícios e as oferendas. E se o homem os oferece é porque alguma utilidade tem para os deuses e, em troca, estes concederiam benefícios aos veneradores. O filósofo conclui: "a piedade não se resumiria numa técnica comercial que regulasse as trocas entre os deuses e os homens"?

Sócrates critica, muitos anos antes de surgir, a idéia da moral de utilidade. O homem agiria sempre para conseguir benefícios de Deus, e a piedade seria a expressão de sua veneração. Eutifron ainda argumenta que na verdade as oferendas e preces não teriam utilidade aos deuses, mas apenas lhe seriam agradáveis. O que leva Sócrates afirmar "que piedoso é aquilo que agrada aos deuses, e não o que é útil ou amado por eles". Eutífron acrescenta que o que lhes agrada também é o que mais amam, ou seja, "o piedoso é o que é amado pelos deuses".

Sócrates consegue que Eutífron volte para o mesmo ponto que havia refutado no início do diálogo, que a piedade seria uma expressão do que é amado pelos deuses. Dessa forma a idéia do adivinho seria instável, girando em círculos sobre o mesmo lugar.

Sócrates diz então: "se não distinguias com firmeza o que é piedoso do que não o é, não havia razão para acusar de homicídio seu velho pai". O filósofo o convida para continuar refletindo e buscando a resposta, até que tenha a firmeza necessária. Eutífron apresenta uma desculpa, falta de tempo, e se despede.

Nesse último ato, Platão mostra que as verdades devem ser buscadas em nós mesmos, em nosso íntimo, e que não é uma tarefa fácil; exige empenho, estudo, dedicação. Não conseguiremos nunca nos aproximar delas se fugirmos de nos indagar e tentar descobrir a sua essência. Devemos recusar o dogmatismo, o utilitarismo, o relativismo, e procurar nossas próprias respostas.

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