segunda-feira, novembro 05, 2007

Gustavo Corção: A Vontade

Vivemos numa época de ímpetos. A Vontade, divinizada, afirma sua preponderância, para desencadear ou encadear; o delírio fascista ou o torpor marxista são expressões pouco diferentes do mesmo império da vontade. À realidade substituiu-se o dinamismo; à inteligência substiuiu-se o gesto e o grito; e na mesma linha desse dinamismo estão os amadores de imprecações e os amadores de mordaças (...)

O autor deste pensamento é Gustavo Corção. Ele é muito pouco conhecido pelas gerações novas, eu mesmo só fui ouvir falar dele este ano. Era um pensador brasileiro, cientista, que depois de muitos anos enfurnado em laboratórios, entendeu que a vida era mais do que a ciência. Tinha perdido a sua fé católica recuperou-a, e na contra-mão do pensamento de sua época fez uma firme defesa dos valores religiosos e da lógica. Talvez por isso tenha sido colocado de lado pelos nossos intelectuais; era considerado um reacionário.

Seus livros só podem ser encontrados em sebos, estou com um na fila para ler. O pensamento que destaquei neste post retirei de um livro de português; achei-o interessantíssimo. Primeiro pelo uso da língua portuguesa: impecável; depois pelo pensamento claro de Corção.

Se já era realidade em sua época que existia uma ditadura da vontade, hoje a situação é bem mais grave. É só ver os livros de auto-ajuda, os congressos de motivação, as teorias esportivas. Tudo gira em torno da vontade, o que muitas vezes esmaga, como destacou o pensador, a realidade e a inteligência.

O homem moderno considera que tudo é uma questão de vontade, e da força com que se coloca em função dessa vontade. A reflexão, o ato de pensar, o uso da inteligência, ficam de lado, até mesmo o talento. Fico abismado a cada vitória de um time de futebol, os técnicos e jogadores saem do campo exaltando a vontade do time. A competência, a criatividade, um ato isolado de extrema categoria ficam esquecidos, o que vale é o espírito de competição.

O sábio é cada vez mais visto como um ser excêntrico, que não se relaciona com o real. O que causa admiração é o empreendedor, o que luta por suas convicções, sejam elas moralmente aceitáveis ou não. Elogia-se sempre o espírito de luta, a garra, a dedicação. É só olhar para o lado, é o que mais se vê.

O resultado? Este mundo em que vontades se chocam o tempo todo, individualmente ou coletivamente. É um convite ao espetáculo de violência e intolerância que é mostrado pela mídia todos os dias. Não por acaso, Corção refere-se ao marxismo e ao fascismo como expressões máximas da vontade; o fato de só conseguirem existir em ditaduras já diz tudo.

Hoje existe até um preconceito de muitos com a inteligência, visto como uma injustiça para os que não a possuem. A solução, como sempre, não é educar os que ficam para trás, mas atrasar os que estão na frente, como se fosse possível. É o nivelamento pela mediocridade.

E, infelizmente, cada vez mais intelectuais se deixam empobrecer pela barbárie ao invés de mostrar a luz; a ponto da palavra "intelectual" virar um pejorativo, e a burrice um símbolo de virtude.

Gustavo Corção captou bem os novos tempos. Pena que é seus textos são privilégio para bem poucos. Uma expressão da vontade dos que lhe odiavam, pois ela não convive com o contraditório; quer sempre a unanimidade.

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