quinta-feira, novembro 01, 2007

O Primo Basílio

Eça de Queirós(1878)

Depois falou muito de Paris; contou-lhe a moderna crônica
amorosa, anedotas, paixões chia. Tudo se passava com duquesas,
princesas, de um modo dramático e sensibilizador, às vezes jovial,
sempre cheio de delidas. E, de todas as mulheres de que falava, dizia
recostando-se: Era uma mulher distintíssima; tinha naturalmente o seu
amante...
O adultério aparecia assim um dever aristocrático. De resto a
virtude parecia ser, pelo que ele contava, o defeito de um espírito
pequeno, ou a ocupação reles de um temperamento burguês...


Enfim li o grande romance de Eça de Queirós, dentro de meu projeto de ler os 19 livros escolhidos pela revista Época. Republico a lista no post a seguir.

É uma obra maravilhosa. A descrição e crítica social que Eça faz da pequena burguesia de Lisboa no século XIX é sublime. O uso da língua então... coisa de quem sabe, e muito. Utiliza os personagens para mostrar os tipos que circulavam na sociedade.

Mas é sobretudo uma obra que expõe a falta de vontade moral e ética que envolve estes personagens.

Luísa sabe que sua traição é injustificada, e pior, sabe que ama o marido. Deixa-se levar por Basílio, pela ociosidade, pela ausência de Jorge, pela luxúria e a emoção de viver uma aventura. No íntimo, sabe que o primo está a se divertir com ela; muitas vezes esboça uma atitude mais firme, mas invariavelmente um pequeno gesto é suficiente para abrandá-la. Ela sabe qual é o norte moral, mas falta-lhe disciplina para superar as tentações.

E esta é uma das mensagens de Eça. A vida moral exige disciplina, exige sacrifícios, nem todos são virtuosos por natureza, a maioria de nós precisa fazer um esforço para levar uma vida de acordo com a própria consciência.

O próprio Basílio, o personagem mais amoral da história, tem leves rompantes da moralidade, mas afasta-os como se tivesse medo que prosperassem e fosse obrigado a segui-los. O seu comportamento na última narrativa do livro é um retrato duro de uma pessoa que não tem absolutamente nenhum apreço pelo ser humano.

Juliana é outra personagem significativa. Reflete a dureza que sofre do mundo a ponto de se formar um círculo vicioso. Quanto mais o mundo lhe é desagradável, mas se torna desagradável com o mundo. A inveja a corrói, destruindo suas chances de um dia conseguir a felicidade. As atitudes da patroa lhe causam raiva, mas quando consegue se colocar no lugar desta, comporta-se da mesma maneira.

Eça mostra também o dever e a moral. É seu personagem Sebastião, que não julga, não inveja, que acredita nas pessoas. Ele é um contra-ponto aos personagens que desfilam de forma irônica e realista pelas páginas do livro.

Um livro maravilhoso, que marcou o realismo português e uma das obras primas do idioma. Para ler e refletir sobre nossas escolhas morais e a influência dessas escolhas nas pessoas que nos cercam, como, por fim, entendeu Luísa.

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