domingo, dezembro 23, 2007

Luto

Na sexta-feira minha vó nos deixou, tinha 91 anos.

Nestas horas, é um grande consolo acreditar que a vida não termina. Esta é uma grande força das religiões cristãs, a crença na vida eterna. Não fosse pela fé na existência de Deus, a dor seria irreparável.

Minha vó foi uma pessoa de personalidade muito forte, que realmente viveu a vida. Esteve lúcida até o final, o que para ela tornava ainda mais difícil a velhice. Deve ser muito difícil para uma pessoa que sempre foi muito ativa, que nunca gostou de depender de ninguém, se ver em uma posição totalmente passiva, de dependência, como esteve nestes últimos meses.

Ela deixou para mim muitos exemplos, de correção, de fortaleza, de vontade. A estória de vida dela caberia perfeitamente em um livro. Não é fácil ter enfrentado toda a família para viver um grande amor como ela fez. Renunciou a muita coisa para seguir o caminho que escolheu, e este caminho foi a vida.

Criou 7 filhas, todas pessoas maravilhosas, ricas, cada uma com uma parte desta pessoa marcante, que sabia se impor em qualquer ambiente. Todas elas possuem esta herança, genética e emocional, que carregam por suas existências.

Durante uma parte muito importante de minha vida convivi bastante com ela. Era uma companhia fascinante, sabia contar estórias como ninguém, estava sempre pronta para defender suas opiniões. Quem a conheceu não a esquece.

Sou o primeiro neto, o que sempre foi uma ligação especial entre nós. Não há nada que não fizesse para me agradar, acho que para ela nunca deixei de ser alguém que precisava de seus cuidados, e ainda bem que nunca fiz nada para que pensasse de outra maneira.

Hoje ela vive em espírito, estará sempre olhando por nós; orientando nossos pensamentos. A memória que guardo dela é a de uma senhora forte, decidida, de valores morais bem definidos, de intensidade. Neste momento, fico pensando na transitoriedade da vida. Ontem estava entre nós, hoje nos deixou. Se não fosse a fé na palavra de Cristo, em seu exemplo, seria algo extremamente sem sentido. Não vejo lógica nenhuma em não acreditar na vida eterna, em não acreditar na divindade. Como essas pessoas conseguem superar esta passagem obrigatória de nossa vida?

Orei muito por ela nestes dias e, sobretudo, pensei muito nela. Pedi para que a acolhessem neste outro mundo que só conhecemos por sombras. Que ela se recuperasse das dores deste mundo e que nos guiasse pelo caminho que ainda temos pela frente. Nós, que a amamos em vida, precisamos dela ainda mais agora. Sei que nunca nos abandonará, e um dia estaremos todos juntos novamente.

Por isso, não digo adeus a minha vó, no máximo um até logo. A maior homenagem que podemos prestar a ela é passar adiante tudo que nos ensinou. Toda vez que contarmos uma de suas estórias; que mostrarmos a um de nossos filhos o caminho correto; que rezarmos por ela; estaremos mantendo-a viva neste mundo tão difícil e ao mesmo tempo tão extraordinário.

Que descanse em paz.

Um comentário:

Marcos Guerson disse...

Bastante profundo e significativo. Estavamos, sua mãe e eu, preocupados contigo porque sabemos dos laços profundos que o uniam a ela desde a infância.
Fico agora mais aliviado ao ler suas palavras.
Espero, sinceramente, que você suporte sem muitos traumas essa grande perda e se acostume com essa vida sem a presença física dela.