sábado, dezembro 29, 2007

Reportagem na Veja sobre a Fé

Só agora fui ler a edição de Veja que saiu nas vésperas do natal e tinha por destaque a fé. Na capa, o título: "A Fé no terceiro milênio"; o sub-título: "A resistência da religiosidade em um mundo marcado pela descrença". Baseado na capa, que trazia a imagem de Maria com o menino Jesus, imaginei uma daquelas típicas matérias sobre a fé, celebrando a época de natal.

Enganei-me. A matéria se divide em três, todas de autoria de André Petry, colunista da revista. Na semana anterior fizera uma dura matéria contra a Igreja Católica pelo episódio do Bispo em greve de fome. Apesar de compartilhar com ele da mesma crítica, não concordei com os termos. Mas isto é outra estória.

Na primeira reportagem, não sei bem o por que, é feito uma comparação da rejeição do eleitor brasileiro a um candidato negro, mulher, homossexual ou ateu. Confesso que não entendi a relação, Petry refere-se a eles como minorias, tentando mostrar que existe um preconceito maior contra o ateu do que contra os outros. Não entendo porque não ocorreu ao jornalista se perguntar se o brasileiro entendia bem o que era ser ateu. Parece-me que não, e existe uma razão bem objetiva para este meu julgamento: elegeu e re-elegeu um ateu para a presidência duas vezes em primeiro turno e disputando contra ninguém menos que o atual presidente!

Depois, para argumentar que a moralidade não tem a ver com a condição de ateu, cita Hitler e Stalin. Dizendo que o primeiro se dizia religioso e Stalin, ateu. Não entendi também a associação de Hitler com a religiosidade, o que, em vida, nunca demonstrou. Existem vários exemplos de religiosos que cometeram e cometem atrocidades, por que não citar um deles? Por que procurar uma relação tênue que seja com um dos maiores monstros da modernidade? Parece que Petry precisava de um exemplo de peso.

A segunda parte da reportagem trata do confronto da ciência contra a fé. Aí acho que o autor foi ainda mais infeliz. Primeiro por que tratou da ciência como razão, são duas coisas distintas. A ciência que tratou no texto é aquela que se refere as experiências científicas, realizadas segundo um método aceito universalmente. O que Petry fez foi cientificismo, a crença de que nada está fora do campo da ciência, e o que não pode ser experimentada por seus instrumentos não é real. Deus não existe por não poder ser provado cientificamente.

Falar que a ciência tem um limite de atuação é considerado uma heresia por pessoas como Hawkins, Dawkins e talvez até Petry. Cita o exemplo de um biólogo descrito por Dawkins em sua pregação religiosa contra a religião "Deus, um Delírio", que ao constatar a incompatibilidade das escrituras com a teoria da evolução, abandonou a biologia e ficou com a fé, mas de forma triste.

Mais adiante coloca um lead que aponta que Igreja não gostou da idéia do átomo quando surgiu. Disse que a raiz do embate era histórica, que datava das primeiras idéias de Demócrito, descritas 5000 anos antes da era cristã! A Igreja Católica foi construída na crença da separação da alma do corpo, nada que a incompatibilize com a teoria atômica por esta tratar exclusivamente da matéria.

Petry também coloca a Teoria da Evolução como uma certeza científica, o que nunca foi.

Enfim, trata da religião segundo os critérios próprios da ciência, embora não faça o inverso. Pessoalmente acho que a religião considera muito mais as idéias da ciência experimental do que o contrário. Quem seria o intolerante então?

Outro ponto curioso, os ateus fundamentalistas (sim, eles existem) afirmam que nada prova a existência de Deus, por isso acreditar nele seria um ato anti-racional. Não vejo nenhuma prova, por outro lado, que Deus não exista. Por que esta certeza? O cientista ateu argumenta que a ciência exige a dúvida, e por isso é incompatível com a religião. Mas ele próprio não tem dúvida nenhuma em afirmar a inexistência de Deus.

Na última parte uma entrevista com o ateu do momento, o filósofo Sam Harris. Ele mesmo apresenta esta contradição, afirma que não há boas razões para acreditar em Deus e conclui que as pessoas mentem para si mesmas quando acreditam. Diz que a fé pode até ser benigna a nível pessoal, mas é prejudicial coletivamente. Nesta volto ao argumento de Reinaldo Azevedo: só conhecemos no mundo moderno um único exemplo de sociedade sem religião: o comunismo. O resultado, cada vez mais esquecido, são 20 milhões de cadáveres só na União Soviética. Mas o grande assassino da história foi a inquisição!

O impressionante é que estas reportagens tratam do embate da ciência contra religião, mas só retratam a Igreja Católica. Juro que não sabia que os católicos respondiam pela fé no mundo!

A ciência é absolutamente incapaz de tratar das questões metafísicas, mas os cientificistas consideram que por si só ela explique o mundo. Aristóteles, o precursor do próprio método científico, deixou em seus escritos que o conhecimento era construído por ligações lógicas precisas, mas a partir de premissas estabelecidas. A grande questão que colocou foi como escolher as premissas? Para o estagirita não havia como fazê-lo com absoluta certeza, mas segundo concepções mais prováveis, o que se buscava através da dialética. A ciência tira a dialética da jogada, considera tudo pelas suas ligações lógico-matemáticas. As premissas são estabelecidas absolutamente, como se fosse um consenso universal.

Não conseguem, assim, ter certeza sobre uma ameba. Mas pretendem ter a verdade sobre Deus.

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