quinta-feira, janeiro 10, 2008

O Imbecil Coletivo

O Imbecil Coletivo - Atualidades Inculturais Brasileiras
Olavo de Carvalho(1996)

Sim, do mesmo modo que a Alemanha havia encontrado a sua máxima vocação literária na prosa filosófica, a Inglaterra na poesia lírica, a Itália no verso épico, a Espanha na narrativa picaresca, a Rússia no romance, a França no jornalismo de idéias, o Brasil encontrara a expressão perfeita da sua personalidade intelectual no jornalismo da falta de idéias.


Olavo de Carvalho é um filósofo brasileiro, estudioso de Aristóteles, que escreve regularmente em sites e jornais. Seus detratores o chamaram de filósofo "auto-entitulado", por não ter um diploma de filosofia, como se fosse preciso um para filosofar. É uma rara expressão dos valores conservadores e cristãos, motivo suficiente para ser visto como um câncer a ser retirado da vida intelectual brasileira.

"Imbecil Coletivo" é o terceiro livro de uma série, iniciada por "A nova era e a revolução cultural" e prosseguida com "O jardim das aflições". Segundo o próprio autor, "cada um deles pode ser compreendido sem os outros dois. Mas difícil é, por um só deles, captar a fundo o pensamento geral que orienta a trilogia inteira".

Dentro da trilogia, este livro descreve, através de exemplos, "a extensão e a gravidade de um estado de coisas _ atual e brasileiro", junto com os outros dois procura situar a cultura brasileira na história das idéias do ocidente.

É uma reunião de notas, retiradas do noticiário cultural brasileiro, entre 1992 e 1996, ligadas por um tema único: "a alienação da nossa elite intelectual, arrebatada por modas e paixões que a impedem de enxergar as coisas mais óbvias".

E com grande maestria, e argumentos sólidos, Olavo coloca a nú a intelectualidade brasileira, mostrando suas contradições e a falta de reflexão das próprias idéias que processam. Mostra também como a redução da vida intelectual ao jornalismo serve para limitá-la profundamente e empobrecê-la. O jornalismo tornou-se a régua para adequar o pensamento brasileiro, e os resultados são tenebrosos.

Através desta obra, Olavo mostra seu próprio pensamento, e antecipa muitas discussões que estão sendo travadas nos dias atuais, 10 anos depois.

A leniência e, principalmente, a responsabilidade dos intelectuais no aumento da violência no Rio de Janeiro, através da glamourização do banditismo, é discutida anos antes de "Tropa de Elite" gerar debates parecidos através dos jornais.

De Capitães da Areia até a novela Guerra sem Fim, passando pelas obras de Amando Fontes, Marques Rebelo, João Antônio, Lêdo Ivo, pelo teatro de Nelson Rodrigues e Chico Buarque, pelos filmes de Roberto Farias, Nelson Pereira dos Santos, Carlos Diegues, Rogério Sganzerla e não-sei-mais-quantos, a palavra-de-ordem é uma só, repetida em coro de geração em geração: ladrões e assassinos são essencialmente bons ou pelo menos neutros, a polícia e as classes superiores a que ela serve são essencialmente más.


O entranhamento do intelectual no estado brasileiro, e sua conseqüente subserviência também é retratado. Em busca da segurança dos cargos públicos, como funcionário públicos, eles param de pensar e tratam de repetir banalidades pelos canais da imprensa escrita.

A principal causa deste estado de coisas para Olavo é o efeito nocivo das idéias marxistas, principalmente pela adesão da classe intelectual às idéias de Antônio Gramsci. Qualquer exame de idéias é feito por eles de forma a priori, antes de ler os argumentos. É o que alertava o próprio Partido Comunista Brasileiro, na época em que se podia pensar:

Trata-se do hábito de raciocinar dentre de esquemas fixos. Este "método" de raciocínio se limita a apanhar os fatos e enquadrá-los dentro do esquema pré-determinado. Exemplo é o esquema "revolucionário x reacionário". Segundo este esquema, tudo o que temos a fazer é classifica as pessoas, os atos e os fatos em "revolucionários" ou "reacionários" (...) Como poderemos compreender a realidade, mantendo esta atitude? (1962)


Hoje, o esquema se divide em "progressista x reacionário", tendo em vista que a revolução socialista agora segue a pregação de Antônio Gramsci em que a revolução deve ser feita por vias democráticas, com conquista do aparelho cultural e do estado, sem explicitar os objetivos. Foi assim, aderindo a este "método", que um Caio Prado Jr, comunista de inegáveis qualidades, se transformou em um Emir Sáder. O próprio pensamento marxista se empobreceu.

Um livro para ser lido com calma, são quase 600 páginas, de muita riqueza argumentativa e no próprio uso da linguagem. Olavo mostra tudo que nossos intelectuais parecem não ter, cultura, uso correto do idioma, capacidade de refletir. Por isso o livro incomodou muita gente. E foi nos protestos contra a obra que Olavo demonstrou sua própria tese, nenhum de seus argumentos foi contrastado ou combatido, o coro foi na direção da classificação de sua pessoa em reacionário, e o uso de termos que ele próprio adiantou, a título irônico de sugestão, na contra-capa do livro.

Realmente, algo vai muito mal no pensamento intelectual brasileiro.

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