quarta-feira, janeiro 16, 2008

Quem é o obscurantista?

O Globo fez uma matéria hoje sobre o cancelamento da visita do Papa Bento XVI à Universidade La Sapienza, a mais prestigiada de Roma. Tudo começou com um abaixo-assinado de 67 professores que transformou-se em um protesto de estudante. Eles acusam o papa de ser um "teólogo retrógrado" que coloca a religião antes da ciência. Referem-se, especificamente, a uma citação de Ratzinger, em 1990, de um filósofo que defendeu a racionalidade do processo contra Galileu.

Isto não é a postura de um cientista de verdade, e sim do seguidor de uma nova religião, cujo Deus seria Galileu, ou qualquer outro grande cientista. Mas é claro que Ratzinger coloca a religião antes da ciência, eles queriam o que? Que um chefe religioso agisse contra sua própria fé? Na última encíclica, o papa "dialogou" com diversos filósofos do passado, inclusive Marx. É um homem de extraordinária erudição, capaz de discutir assuntos da razão com qualquer um, inclusive com um monte de cientistas que acha que seu mundo diminuto dos átomos seja a expressão da verdade universal. Talvez esteja aí a raiz da intolerância.

Um cientista de verdade, na tradição inaugurada por Aristóteles, escutaria o papa. Analisaria cada argumento apresentado, a através de um processo dialético estabeleceria premissas mais prováveis, fruto do confronto das duas idéias. O que estes professores querem é silenciar a voz dissonante, evitar qualquer conflito de pensamento. A ciência é a verdade e pronto.

Só que existe uma grande confusão aí. A lógica científica, o método, é uma coisa. Outra completamente diferente são as conclusões de uma pesquisa. Do estudo de cágados se chegar a uma lei sobre a evolução de toda a vida na terra é uma extrapolação, que pode estar certa, mas pode estar errada também. Aristóteles também mostrou que os processos lógicos dependiam de premissas tidas como verdadeiras, a grande questão era como se chegar a estas premissas? O estagirita não via outro caminho que não fosse a dialética, o confronto de idéias opostas em busca de um consenso sobre a mais provável.

Estes professores estão apegados a suas verdades, não querem discuti-las. Seria curioso um debate entre um homem como Ratzinger com estes cientistas. O papa é dono de uma cultura universal, fala com facilidade sobre as mais importantes correntes de pensamento surgidas na humanidade desde os mais remotos tempos. Teriam estes cientistas cultura suficiente para debater suas idéias com ele? Duvido, eles acreditam que a cultura e o estudo do passado é inútil, a menos que se relacione com seu objeto de pesquisa, um objeto cada vez mais diminuto e particular.

Sobre os estudantes nem perco meu tempo. Existe uma crença que o estudante, principalmente o universitário, seja um rebelde, uma espécie de vanguarda que busca romper com a tradição e dar início a pensamentos novos. Bobagem. Eles não possuem maturidade suficiente, nem cultura, para julgar com propriedade. O que fazem é se agarrar a uma corrente já existente e se fechar sobre ela, basta uma boa alma para conduzi-la. Não existe rebanho mais fácil de se tocar do que uma manada de universitários.

Acusam o papa de ser obscurantista. O papa é o chefe de uma Igreja. Suas palavras são dirigidas para seus fiéis, procura mostrar-lhes o caminho da salvação, um norte moral. Cada vez mais aparecem pessoas querendo tolher sua liberdade de expressão. Se não acreditam no que diz, por que não o ignoram? Por que a necessidade de calá-lo? Quem é o obscurantista?

Nenhum comentário: