quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Flamengo 2 x 1 Cienciano


O Flamengo por muito pouco não complicou um jogo fácil diante do fraco time do Cienciano ontem no Maracanã. Sofrendo um pouco de falta de objetividade, o gol de Souza, no fim da primeira etapa, era o prenúncio para um segundo tempo tranqüilo, em que o time peruano teria que se expor um pouco mais para buscar o empate. Em um lance fortuito, Bruno saiu mal e o jogo foi para o intervalo empatado.

No segundo tempo veio o nervosismo. Com o gol demorando a sair os jogadores passaram a errar cada vez mais. Joel colocou Obina e Marcinho para furar o bloqueio peruano. O juiz ajudou, anulou um gol legal dos visitantes. No fim entrou Jonatas, que em bonito lançamento colocou no peito de Obina e Marcinho fez o gol da vitória no último minuto. Mais uma vez o banco está fazendo a diferença.

A vitória era fundamental, agora o rubro-negro lidera com 4 pontos, um a mais do que os peruanos e joga a próxima partida no Uruguai diante do Nacional. Considerando que o Cienciano venceu lá, é para ganhar também. Depois a segunda parte da tabela, com dois jogos no Maracanã, é favorável. É bom não depender do jogo em Cuzco.

Que pesadelo

Do blog do Torero:

Que jogo, torcida brasileira, que jogo!

Somente os péssimos entre os péssimos estavam em campo! As duas mais vergonhosas seleções brasileiras de todos os tempos finalmente se encontraram para ver qual era a pior.

De um lado, o time de 1990, a seleção dos prêmios fora de hora e dos empresários na concentração, aquela que primou pelo futebol feio e pelo estilo Dunga.

Do outro, o time de 2006, a seleção das vaidades pessoais, com seus gordos atacantes e seu futebol sem personalidade.

Nas arquibancadas, além dos torcedores (que reclamaram do preço do ingresso, pois receberam apenas 100 dólares cada um para assistir ao jogo) estavam as seleções de 74 e 66, que foram convidadas para assistir à final nas tribunas de honra. Um castigo merecido.

O primeiro momento de emoção foi quando tocou o Hino Nacional. O segundo também. A surpresa foi que os jogadores quase não erraram na letra, pois assim que o Hino começou a ser tocado, eles correram para um monitor da Globo na beira do gramado, a fim de seguir a letra que passava nas legendas. Um karaokê canarinho.

Curiosamente, durante a execução do Hino, Roberto Carlos cobriu com a mão o logo da Nike em sua camisa (exigência de seu patrocinador, as meias Lupo).

A partida teve um atraso de quinze minutos porque Gornaldo pediu para mudar de time, pois o slogan da seleção de 90 era "Papa essa, Brasil!", e papar é com ele mesmo! Infelizmente, depois de consultadas as regras da Copa dos Pesadelos, não permitiram a mudança.

Como em todas as finais das Copas dos Pesadelos, o trio de arbitragem foi formado pelo matemático Armando Marques, pelo artilheiro José de Assis Aragão e pelo bicampeão Márcio Rezende de Freitas.

Antes do jogo começar, uma autêntica demonstração de fairplay: os dois técnicos apertaram as mãos e disseram em uníssono: "Que empate o melhor".

Mas chega de conversa e vamos ao jogo!

01': Na arquibancada, Leão reclama que a partida está muito ruim.

10': Cafu sobe para o ataque.

13': Robinho para Cicinho. Cicinho para Robinho. Robinho devolve no Cicinho. Cicinho retorna para Robinho. Robinho para Cicinho com efeito. Cicinho para Robinho com força. Partida emocionante de tênis de mesa no banco!

15': GOOOOOOOL! Branco cruza na pequena área, a bola bate em Montinho Artilheiro e encobre Dida. 1 a 0 para a seleção de 90. E olheiros do Real Madri pensam em contratar Montinho.

21': Dunga olha para as tribunas e lágrimas rolam de seus olhos quando ele vê seus ídolos dos tempos de carrinho de rolimã: Luiz Chevrolet e Ademir Karmann Guia.

23': Lúcio dribla um. Lúcio chapela o segundo. Lúcio dá uma canetinha no terceiro. Lúcio dá um lençol no quarto. Lúcio encobre o goleiro! Lúcio desliga o Playstation e volta para a partida.

25': Dunga chuta Ronaldo pensando que ele é a bola.

26': Dunga chuta Adriano pensando que ele é a bola.

27': O árbitro dá cartão amarelo para Dunga por ele ter chutado a bola. É que o juiz achou que se tratava de Ronaldo.

29': Falta (de classe) para o Brasil de 90. Branco solta a bomba, a bola vai direto na pança de Ronaldo que estava na barreira e volta com toda força. A bola atravessa todo o campo e entra no ângulo de Taffarel. GOOOOOOOL! 1 a 1.

32': Galvão Bueno termina de pronunciar a frase “Gol de Rrrrrrrrrrrronaldo!”

33': Muller prega em campo. Kaka reza.

34': Roberto Carlos sai de campo para atender o celular. É seu empresário dizendo que as meias Kendall querem cobrir a oferta da Lupo. Ele volta a campo de meia-calça por baixo do uniforme.

43' O árbitro encerra o primeiro tempo. "Pelo bem do espetáculo, dei acréscimo negativo!" A torcida aplaude a atitude do árbitro.

Os jogadores aproveitam o intervalo para tomar alguma coisa: Ronaldinho Gaúcho toma uma Pepsi, Cafu toma o remédio da pressão, Romário toma um preparado para a calvície e Roberto Carlos toma uma meia-de-seda.

46': O segundo tempo começa quente, com Müller provocando Ronaldo: "Eu perco gols, mas você não perde nem peso".

47'01”: Ronaldinho acerta a trave. 47'03”: Ronaldinho acerta a trave. 47'05”: Ronaldinho acerta a trave. 47´07”: Ronaldinho acerta a trave. 47’09” A trave quebra com tanta pancada e o jogo pára para que seja feita a substituição (da trave e de Ronaldinho).

50': Dunga tenta uma bela jogada, mas a bola enrosca em seu suspensório.

53': A seleção de 90 no ataque (de nervos). Dunga dá um carrinho em Ronaldo. Falta (de talento). Dunga sai lesionado. Ronaldo, rebocado.

54': Cafu toca na bola dentro da área, mas o juiz não marca o pênalti, por interpetar "bola-na-bengala" e não "bengala-na-bola".

57': Adriano plantado na área.

58': Um foguete de Rosenery atinge Dida na área. Júlio César protesta do banco de reservas: “Até tu, bruta?”.

59': Um casal de passarinho constrói seu ninho no ombro do Adriano.

62': Robinho dá pedaladas ergométricas em Alemão, ou seja, pedala, pedala e não sai do lugar.

66´: Kaká começa um papo religioso com Muller, e chegam à conclusão de que Silas com a 10 só pode mesmo ser coisa do Demo.

70': O jogo está tão monótono que Parreira decide pintar um quadro de Adriano e Ronaldo fazendo uma tabelinha.

72': Acaba a tinta de Parreira.

75': A torcida tenta deixar o Maracanã, mas é cercada pela polícia.

76': A torcida começa a fazer cordas com canudo de refrigerante para tentar escapar do estádio.

78': Ronaldo come a bola na partida. O gandula pega a bola reserva.

79': Zé Roberto cruza bola na área a meia-altura. Ronaldo se atira de baleia-jubarte, digo, de peixinho para tentar alcançar a bola, mas não consegue. Seu impacto no chão é tão impressionante que um setor da arquibancada desaba. Tremores de terra acontecem no Chile e no México, e um tsunami atinge a Nova Guiné.

80': Zé Roberto toca no ponto futuro para Ronaldo.

82': Ronaldo chega no ponto futuro, que agora já é passado.

83': Rosenery solta outro foguete. Ele dribla Lúcio, chapela Ronaldo, dá um autógrafo para Robinho, mas chuta para fora.

85': Cafu retorna daquela subida que deu aos 10´ da 1ª etapa.

88': Lance de conto de fadas! Dunga dribla os três porquinhos Adriano, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, depois dá um chapeuzinho vermelho em Roberto Carlos e chuta em direção ao gol de Dida, que estava meio adormecido. Quando a bola ia entrando, Branco de Neve salva em cima da linha e manda a bola para um reino muito, muito distante.

89': Lúcio dá uma bicuda que atravessa o campo. Seria uma defesa fácil para Taffarel, mas ele vê duas bolas vindo em sua direção e acaba abraçando Ronaldo enquanto a bola rola mansamente para dentro das redes. É GOOOOOOOOOOL! E da seleção de 2006! 2 a 1 para o time de Parreira.

90': O juiz apita fim de jogo. O time de Lazaroni ganha o título de pior seleção de todos os tempos. E Galvão Bueno encerra a transmissão gritando: “É treta!, é treta!”

terça-feira, fevereiro 26, 2008

A Retirada da Laguna

Visconde de Taunay

Lá ainda ocupávamos a fronteira do Paraguai, embora batidos pelo pungente pesar de a deixar. Tão recentemente a havíamos atravessado, certos de realizar importante diversão, talvez até indispensável à causa da pátria!
Nós nos sentíamos como corridos de vergonha, vendo nossas esperanças de glória tão cedo desvanecidas. Escapara-nos a presa e não queríamos ainda aceitar a absoluta necessidade de a abandonar.


Taunay participou da rápida, e breve, invasão do Paraguai pelo norte como segundo tenente das tropas comandada pelo Coronel Carlos Camisão. Foi uma operação que se deparou com a falta de logística para prosseguir e rapidamente foi obrigada a realizar uma retirada; aí começou o suplício da expedição.

O autor mostra um grande poder descritivo conseguindo formar na mente do leitor as paisagens que a coluna percorreu em sua longa marcha. Sem cavalos e perseguido por inimigo que os tinha, a coluna foi constantemente fustigada e enfrentou um cruel inimigo: o incêndio provocado pelos paraguaios.

Os chefes brasileiros são mostrados por Taunay em sua dimensão mais humana, suas dúvidas, seus acertos, seus erros. Não há heróis na acepção clássica da palavra, mas homens com qualidades e defeitos, que fizeram o possível para conseguir manter a ordem em uma situação em que até a água era escassa. Muitos possuíam profundo sentimento do dever e uma moralidade que a cada dia se perde mais. Apegavam-se à honra como força interior para se manter em frente.

Os últimos dias da expedição foram marcadas pela uma rápida e devastadora epidemia de cólera. Não havia amparo para aqueles pobres coitados; dois médicos, praticamente sem recursos, faziam o possível e o impossível para dar-lhes algum alento. A medicina deixava um pouco o campo técnico e assumia sua dimensão mais humana.

Existe uma angústia e uma sensação de profunda injustiça na morte do comandante e do guia da expedição, José Francisco Lopez. Este queria resgatar a esposa e filhos, capturados pelos paraguaios na invasão do Mato Grosso. Dentro do Paraguai conseguiu re-encontrar um filho, fugido do cativeiro. Sem conseguir avançar mais, assumiu o triste encargo de trazê-los de volta. Morreu ao entrar em sua amada fazenda e lá foi enterrado.

Uma vida dura em uma época dura. Mas eram homens que cultuavam virtudes morais sólidas que hoje parecem cada vez mais perdidas em um mundo onde o relativismo e o niilismo tomou conta. São lições do passado que ficam cada vez mais distante em uma humanidade que glorifica o novo e despreza sua própria herança cultural.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Flamengo 2 x 1 Botafogo


Bi-campeão da Taça Guanabara

O rubro-negro venceu de virada o Botafogo e conquistou o primeiro turno do campeonato carioca em um jogo para lá de emocionante. Wellington Paulista abriu o placar no primeiro tempo em um jogo bastante equilibrado, como um clássico decisivo sempre é. No segundo tempo, Joel lançou Obinta e Kléberson tornando o time mais ofensivo e encurralando o Botafogo que passou a jogar nos contra-ataques. Em uma bola cruzada na área, penalti em Fábio Luciano que Íbson bateu bem e empatou o jogo.

Não sei a partir daí o que deu na cabeça dos jogadores botafoguenses. O que me parece é que o time já estava esperando erros de arbitragem tamanha a neura coletiva que tomou conta de seus jogadores. O pior, é que realmente houve o penalti. Marcar uma penalidade em cruzamento de área é difícil pois os jogadores se agarram, mas o juiz já tinha dado mostras que estava de olho ao mandar voltar uma cobrança de escanteio minutos antes. Ademais, deixar um jogador sem camisa já fica difícil do árbitro ignorar.

O caso das expulsões também é emblemático. Nenhum jogador deveria ser expulso, no máximo um cartão amarelo para Souza e Castilho. Se o Botafogo reclama a expulsão de Zé Carlos, o Flamengo também poderia reclamar a de Souza, que em nenhum momento agrediu ninguém. Lúcio Flávio disse que nem reclamou e já levou o amarelo. Esqueceu de dizer que antes de reclamar puxou o juiz pelo braço em atitude francamente hostil.

Mesmo assim, o jogo estava indefinido. O maior erro de arbitragem foi a não marcação de uma falta estúpida, com respectivo cartão vermelho direto, do zagueiro botafoguense que por muito pouco não quebrou a perna de Christian. Depois, em lance infantil, Lúcio Flávio ganhou seu segundo amarelo e também foi expulso.

Com um jogador a menos, o Botafogo ainda teve uma excelente chance de definir a partida em troca de passes dentro da área. O problema é que seus atacantes, principalmente Jorge Henrique, entraram em uma de tentar cavar faltas e penaltis. Em um excelente contra ataque, Diego Tardeli fez o gol da virada. Não digo que matou a partida porque o alvinegro ainda teve duas excelentes chances de empatar e levar para os penaltis.

Foi um jogo em que qualquer um dos times poderia ter vencido e o Flamengo levou a melhor por dois motivos. As peças de reposição que possui e Cuca não; e a histeria coletiva que tomou conta do Botafogo. As cenas de vestiário após o jogo deveriam ser esquecidas da história do clube. Pareci que haviam perdido a final de uma copa do mundo. Menos gente! Era uma final de turno! A taça Guanabara é apenas um "enfeite especial" para a vaga antecipada para a final.

Esta estória de que tem coisas que só acontece com o Botafogo já foi longe demais. Acaba por diminui-lo. O clube não merece; ninguém evoluiu tanto nos últimos 4 anos quanto ele, que caiu quebrado para a segunda divisão e recuperou formidavelmente sua alto estima, contagiando sua torcida como há muito não se via. Estão no caminho certo, um grande título está maduro, é questão de tempo. O pior que pode acontecer para o clube é cair nessa armadilha e jogar estes anos fora.

Em tempo: achei ridículo e de profundo mal gosto os jogadores do Flamengo irem na onda da torcida com esta estória de dança do Créu. São coisas assim que transformam o futebol em uma guerra. Os jogadores e treinadores deveriam fazer de tudo para manter a disputa no campo esportivo.

domingo, fevereiro 24, 2008

Trinta Anos esta Noite

Trinta Anos esta Noite
O que vi e vivi
Paulo Francis

"Pouca gente era adulta, trinta anos atrás. Se convencionou que adulto é ter 21 anos, maioridade. Ou seja, adulto na época hoje teria média de cinqüenta anos. Claro que há, circulando forte e sacudida, gente dessa idade para cima. Mas é minoria no Brasil (...) Daí algumas idéias nebulosas sobre o regime militar e o governo Jango; em suma, desconhecimento foi o destino de duas gerações."

A lembrança que tenho de Paulo Francis era daquela figura folclórica do Jornal Nacional comentando os assuntos americanos, tão bem parodiada posteriormente por Chico Anísio. Através de referências de gente como Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo fiquei curioso sobre seu pensamento; assim cheguei a esta obra.

Francis revive não só os acontecimentos de 31 de março de 1964, mas principalmente o que viveu naqueles dias de fim do governo Jango e início do regime militar. Não se restringe a estes fatos, vai além. Tem horas que volta no tempo, horas que avança; assim forma um mosaico de seu próprio pensamento sobre a Revolução de 64 e outros assuntos, ligados a ele ou não.

Paulo é polêmico e mostra suas influências, seus gostos, suas idéias. Muitas vezes vai contra o senso comum. Ao invés de centrar no papel dos militares e os líderes da esquerda, colocou no foco as lideranças civis que apoiaram politicamente a derrubada de Jango e depois foram destruídas no processo, principalmente a figura de Carlos Lacerda.

É uma obra que mostra, mais do que história e estórias, a inteligência de um homem que se entregou às reflexões mais profundas e procurou entender o pensamento de sua época. A desenvoltura com que fala de Freud, Mozart, Sartre, Proust, Lacan, Heisemberg, mostra que não passou a vida como passageiro mas como um protagonista.

Aponta o que seria o grande problema do Brasil após o regime militar: a perda da liderança civil, seja pela inútil luta terrorista, ou pela passagem para a esfera privada de atuação. Sem ela, o Brasil foi entregue a homens de segunda grandeza, o que é "uma das causas da escumalha política hoje dominante."

Isto em 1994. Imagine se estivesse vivo nos dias atuais.

Quase entrei na faca

Por muito pouco não entrei na faca ontem, muito pouco mesmo. Fiz a tomografia do abdome pela manhã e, para minha completa surpresa, o laudo apontou para apendicite. Uma hora depois dava entrada na emergência do hospital com um quadro bastante atípico. Clinicamente estava bem, mas havia a leucocitose de um exame de sangue do dia anterior e a tomografia. O cirurgião me internou, iniciou o preparo para a cirurgia e pediu para fazer novo exame de sangue.
Assim estava eu, de uma hora para outra, deitado na enfermaria da emergência, novamente no soro, aguardando para subir para o terceiro andar, o da cirurgia. O pânico instalado na família, as ansiedades naturais de um acontecimento destes. Naquele momento estava sozinho. A minha esposa tinha subido para fazer a internação. Ao meu lado o outro paciente da emergência, um senhor com dores abdominais horrendas. Várias vezes falou que só queria morrer para a dor parar. A esposa, ao lado, pedia que não blasfemasse.
As pessoas reagem de forma diferente. Quando na quinta feira entrei com um quadro semelhante, no mesmo hospital, só pedia que Deus olhasse por mim, o que me era sempre reconfortante. A crença de que existe algo superior, zelando por nós, ajuda a enfrentar as piores crises.
Enfim, estava perdido nestas divagações quando o cirurgião voltou.
__ Esta sentindo dor?
__ Não.
__ Nenhuma?
__ Não.
Em seguida ele apalpou meu abdome em vários lugares, a resposta sempre a mesma. Nenhuma dor.
__ Vômito?
__ Não.
__ Mal estar?
__ Não.
Jogou um papel sobre minha barriga.
__ Dê uma olhada.
Era o resultado do laboratório para o novo exame de sangue. Os leucócitos estavam normais. Aliás, aproveito para explicar. Nem todo mundo sabe, mas o nível alto dos leucócitos mostra uma infecção no organismo. Um dos aprendizados destes três dias de hospital.
__ Esta sua tomografia só veio atrapalhar. Sem ela, eu nunca, em hipótese nenhuma, pensaria em te operar. Nem mesmo em pedi-la! Não vou te cortar sem necessidade, já que está aqui, vou mantê-lo em observação. A tarde repetimos o exame de sangue, fazemos outros, e reavalio a situação.
Eram 11 horas. Assim começou meu dia no hospital.

Levaram meu vizinho para fazer uma radiografia. A mãe e a filha permaneceram conversando na enfermaria. Fiquei observando os detalhes práticos que as mulheres, sempre elas, tomam neste momento. Trocar de roupa, organizar o almoço, filhos, etc. A esposa, uma senhora de aspecto muito distinto, parecia extremamente calma.
__ Seu pai é muito manhoso.
Ela assentiu.
Fiquei sabendo que ele estava com dores desde o dia anterior, mas como a maioria dos homens, eu inclusive, ignorou-a e foi trabalhar. Voltou a noite com dores, foi dormir. De manhã já não aguentava mais, enfim aceitou ir ao hospital.
Estou melhorando neste aspecto. A qualquer sinal de dor no abdome me mando. Não gosto nem um pouco desta estória de dor.
Elas estavam nesta conversa quando a mãe fez um sinal e as duas sentaram segurando o riso. Ele estava chegando.

Meu maior companheiro do dia foi A Retirada da Laguna. Ficava distraído, acompanhando a narração de Taunay sobre a longa caminhada das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai. Não conseguia deixar de notar o contraste entre o atendimento médico proporcionado pelos dois médicos militares na campanha com os recursos que via agora no hospital.
Armando e Denise apareceram. Ele me trouxe um livro para ler, sobre o Dalai Lama. Mostrei-lhe o livro que estava lendo. Ele riu.
__ Retirada da Laguna?
__ Claro. Só por que vou entrar na faca vou ler um livro religioso? É mau agouro. Parece que já estou preparando minha alma! Não tem um padre aí pelo corredor?
__ Não é religioso. É sobre a vida, é filosofia.
__ Pois é, um dia eu leio. Por hora prefiro A Retirada. É bom para conhecer um pouco das origens do Exército Brasileiro.
__ Desconfio de todo livro escrito por um nobre.
__ Taunay não era nobre na época da guerra, era Major. __ na verdade uma incorreção, ele era segundo tenente engenheiro.
__ Mas ele já não tinha o título?
__ Não sei, mas ele serviu como oficial regular das forças no Mato Grosso. Era o secretário da expedição.
__ hummm.
Fizemos algumas piadas, rimos bastante, e foram almoçar. A Eliene aproveitou e foi também. Fiquei com meu livro. A expedição brasileira encerrara a rápida invasão e iniciara a retirada. Os paraguaios iniciaram uma estratégia de incêndios para futigar a coluna. Era uma arte deles, pois além de saber onde iniciar o fogo, tinham um conhecimento dos ventos, fundamentais para levá-lo em direção aos brasileiros. O guia Lopes, conhecedor da região, foi fundamental para evitar maiores baixas na tropa ao conduzi-los para locais de abrigo.

Começando a ficar entediado, fiquei sabendo algo mais sobre meu vizinho. Ele agora dormia. Tinha chegado ao nível máximo de medicação contra dor: a morfina. Eliene voltou. Já eram duas da tarde. Minha mãe liga novamente. Quer uma solução, que tire logo o apêndice já que não faz falta. É uma opinião bem comum, mas toda cirurgia tem seus riscos e um pós-operatório. Pelo que tinha me dito o cirurgião o corte não iria ser do mais simples, o lateral. Teria que abrir de frente. Explicou alguns termos técnicos, não entendi muito bem. Mas o gesto dele, de cima a baixo da barriga, este ficou muito claro.

__ Quero ver o que acontecerá antes.
__ Como?
__ Se o fim da retirada da Laguna ou um diagnóstico.
__ Retirada?
__ É, a do livro. Eles estão andando igual aos hobbitts. Dá agonia. Estou cansando só de pensar.

Quando estavam no fim da retirada, com os paraguaios afrouxando um pouco a perseguição, começou a epidemia de cólera. Vitimou o guia da expedição, o comandante e o sub-comandante. O quadro descrito por Taunay é estarrecedor. No meio do pantanal, dois médicos, sem alimentos, com muito pouca água, faziam de tudo para trazer algum alívio aos doentes. Tiveram que abandoná-los, não havia mais forças para carregá-los. Foram massacrados pelos paraguaios. É uma decisão terrível, para qualquer comandante, abandonar feridos. Talvez tenha sido a mais difícil do Coronel Camisão. Tomou-a um dia antes dele próprio ter sido acometido pela moléstia.

As 18:00 houve a troca do plantão. O novo cirurgião, este mais experiente, foi ter comigo. Expliquei tudo de novo. Ele apertou, apertou, nada de dor.
__ Deixa eu te explicar uma coisa. Um exame é só um exame. Ele acompanha a clínica, esta é a mais importante. Não posso me basear apenas nele. Se fosse assim, não precisava de médico. O mais importante é o que o paciente sente e o que o clínico percebe. Eu não percebo nada que justifique uma cirurgia. Vou repetir alguns exames e vamos fazer uma nova avaliação.
Ele foi para a sala das enfermeiras. Pediu que chamassem o sobreaviso da radiologia, queria um ultrassom.
__ Estou com um laudo de apendicite mas o paciente vai "muito bem, obrigado". Quero mandar o cara para casa.
O sobreaviso já tinha sido chamado, o paciente do meu lado também iria fazer o mesmo exame.
Um enfermeiro me trouxe um remédio, o luftal, era necessário para o ultra-som. Dois minutos depois, uma enfermeira trouxe o mesmo remédio. Disse que já tinha tomado. Éramos dois pacientes para 4 enfermeiros que batiam papo animadamente. Olhei para o lado. Era bom meu companheiro tomar cuidado, ainda saía dali sem o apêndice.

Era só o que faltava para me sentir no seriado do House. Tinha feito exame de sangue, urina, raio-x, tomografia. Não, não me refiro ao ultra-som, embora faça parte de meu dia de ator de seriado médico americano, refiro-me ao passeio de cadeira de rodas. Minha esposa teve que me empurrar, a enfermeira estava com problema de coluna. Haviam mais dois enfermeiros sentados batendo papo. Vai entender.

O médico radilogista estava num casamento e de excelente humor. Disse que tinha falado com o cirurgião, e concordava que o exame não poderia ser definitivo. Perguntei se tinha olhado a tomografia, disse que sim, mas que não vira a apendicite. Passou gel na minha barriga e começou. Claro que houveram as piadas sobre o sexo do bebê, mas no que importa ele foi claro: não via o apêndice, o que era um bom sinal. Só dava para vê-lo se estivesse inchado.
Voltei para minha cama, eram 8 da noite.

Depois de um pouco mais de espera, o cirurgião voltou. Leucocitose normal, ultra-som não indicou nada. Resultado: receberia alta. Lógico que com observações: dieta moderada, qualquer sinal de anormalidade voltar correndo para o hospital. Agradeci, me despedi dos familiares do meu companheiro, que já estava partindo para a endoscopia, e voltei para casa. Liguei para todo mundo, contei a mesma estória.
Segunda volto ao hospital onde tudo começou e converso com minha médica. Se ela tinha uma pulga atrás da orelha quando solicitou a tomografia, agora quem a tem sou eu. Vamos refazer esta tomografia, não quero ficar aqui na expectativa que a qualquer momento tenha um apêndice estourado na minha barriga. Só fico lembrando do primeiro filme da série Alien. Cruzes.

Ah, sim. Terminei a Retirada da Laguna. Muito me ajudou neste dia. O contraste com pessoas que estão em situação infinitamente pior que a nossa nos ajuda a entender um pouco nossa própria situação. E ser paciente.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

No soro

Andei sumido mesmo. Na verdade passei os últimos dois dias no hospital, tomando buscopan na veia e soro. Ao que parece tenho o que se chama Síndrome do Intestino Irritável. O dito cujo não gosta de trabalhar direito, e vai acumulando gases e fezes. O resultado é uma dor violenta, daquelas de mudar até a cor do indivíduo.

Engraçado que no meio de exames de emergência, tirando sangue, raio-x, coletando urina, senti-me no meio do seriado House. Era a procura pelo diagnóstico. O mais difícil foi colocar o avental para andar na ala do raio-x, não me dei muito bem com o "sistema" de amarração. He he he.

Amanhã tenho uma tomografia para afastar a possibilidade de ser algo cirúrgico. O mais provável é que tenha que entrar em uma dieta com muita fibra e tomar alguns reguladores de intestino.

É uma sensação indescritível ficar sem dor após passar por horas em que ela foi intensa. Só entendemos a importância de não ter dor diante de sua realidade; talvez esteja aí um dos sentidos para sua existência. Segundo Yepes, a dor existe para lembrar-nos de nossa finitude, de nossos limites. Somos humanos, não temos poderes absolutos como alguns tentam acreditar.

Alguns defendem que a dor é prova da inexistência de Deus. Argumentam que se ele existisse e fosse perfeito não deixaria que nós sofrêssemos. Tenho uma filha de 4 anos, quando aprendeu a andar levou vários tombos, alguns doeram bastante. Deveria eu deixá-la eternamente sem andar para evitar a dor? Seria meu amor menor por causa disso?

Acredito que o amor de Deus não é enfraquecido por nossas dores. Tudo na vida existe um sentido, nem sempre compreensível para nós. Tentar analisar tudo que acontece pelos limites da razão me parece temerário, a razão não é absoluta. Existem coisas que lhe são fora do campo de ação, coisas além desse mundo.

Não existe homem sem a dor, ela é uma realidade de nossa existência. Não quer dizer que tenhamos que sofrê-la o tempo todo, mas que devemos sempre encará-la como um aviso: nossa vida tem limites.

domingo, fevereiro 17, 2008

Flamengo 2 x 1 Vasco

Mais uma final de Taça Guanabara

O Flamengo conseguiu mais uma vez a vaga para uma final de Taça Guanabara, uma constante na história do clube. O jogo foi duríssimo. O Flamengo começou melhor e quando parecia que o gol era uma questão de tempo, o Vasco cresceu bastante e fez o primeiro gol. Fábio Luciano empatou no fim do primeiro tempo e o jogo foi para o intervalo indefinido.

Como todo clássico, a decisão é nos detalhes. No primeiro deles, em um lance de extrema inocência de Ibson, o Vasco teve penalti a seu favor. Edmundo chutou fraco e Bruno defendeu. A partir daí só deu Flamengo, que chegou perto de fazer o gol da vitória por diversas vezes, até que Angelim fez, de cabeça, o gol da vitória.

Os destaques do jogão de hoje:

  • Os goleiros. Tiago fez excepcionais defesas, as mais vistosas. Mas as saídas de gol de Bruno em cruzamentos garantiram a vitória. Foi impressionante, não perdeu uma. Faz muito tempo que não via, em um jogo, um goleiro acertar tanto neste tipo de lance.
  • Edmundo, mesmo com a idade que tem, ainda faz a diferença. O gol do Vasco iniciou em lance seu. No penalti parece que ainda padece da maldição do Evair. Explico. Na época do grande time do Palmeiras em associação com a Parmalat, Edmundo e Evair disputavam a artilharia do time, com o segundo em vantagem. Edmundo, em entrevista, disse que era muito fácil ser o artilheiro cobrando os penaltis. Evair não fez por menos, disse que não bateria mais. No jogo seguinte Edmundo perdeu dois penaltis. Evair voltou a ser o batedor e não se falou mais nisso.
  • O preparo físico do Flamengo fez a diferença no segundo tempo, fruto de uma preparação correta. O Vasco teve que ir jogar nas Arábias. Pagou o preço.
  • Os dois técnicos fizeram alterações corretas. São, inegavelmente, bons treinadores. O gol da vitória do Flamengo destruiu os planos de Alfredo Sampaio, que ficou com um time muito defensivo no fim do jogo.
  • A arbitragem foi muito boa e não alterou o resultado do jogo. Edmundo merecia ter sido expulso por uma violenta falta por trás.
  • Parece que foi de propósito. Foi só Andrade entrar em campo que o time do Flamengo começou a fazer faltas na entrada da área. Ainda bem que só o deixaram bater uma falta.
Agora é mais uma final com o Botafogo. Ano passado foram quatro empates. Mais igual do que isso, impossível. De diferente o fato de que o alvinegro agora não poder ser considerado favorito. Dessa vez não há. Exceto se o Botafogo ficar sem Zé Carlos e Jorge Henrique. O time de Cuca não tem banco para substituí-los.

A vitória de Tropa de Elite

Esta semana muito vai se falar do Urso de Ouro conquistado pelo filme de José Padilha em Berlim. É uma vitória e tanto, e um baita sopapo na burocracia cultural brasileira que esnobou o filme para a disputa do Oscar. Tudo porque o filme ia na direção contrária ao que sempre se mostrou nas telas brasileiras; foi um desafio ao "progressismo" que impera na elite cultural brasilera. Pela primeira vez o bandido foi mostrado como bandido, sem justificativas, sem uma estória triste para mostrar seu lado "humano". Mas isto é estória velha, o importante é que o seu reconhecimento internacional pode levar a duas boas conseqüências.

O primeiro é forçar esta elite, principalmente a burocrática, a debater seus princípios. Nas últimas décadas se manteve intocável, donos da verdade. Olavo de Carvalho ousou desafiá-la em "O Imbecil Coletivo", e foi o que se viu na não escolha de "Tropa de Elite" para representar o Brasil no Oscar. Está mais do que na hora de se debater as teses do progressismo, do politicamente correto.

O segundo é estimular que surjam outras produções que rompam com a mesmice do cinema nacional, não só falando de violência urbana, mas tratando de outros temas semelhantes. Que tal um filme sobre o período militar sem cair no romantismo socialista que não existiu? Que tal falar de nossa história sem se basear na teoria da dependência? Que tal mostrar um sujeito rico e honesto? Tem muito campo aí, e público também.

Que essa caminhada do filme seja um divisor de águas, um início de uma nova era, que longe de implantar uma nova forma de ver as coisas, provoque um debate verdadeiro entre várias formas de ver o mundo. O público só teria a ganhar com uma verdadeira pluralidade e o questionamento dos lugares comuns frutos da mediocridade da maior parte dos pensadores brasileiros.

sábado, fevereiro 16, 2008

Madame Bovary


Madame Bovary
Costumes de Província
Gustave Flaubert, 1857

A obra

Flaubert foi educado dentro da estética romântica do século XIX; no entanto foi um dos que a reformaram, dando início ao denominado “romance moderno”. Esta obra possui elementos do romantismo, mas este enfrenta o realismo e a arte, em uma mistura que iria influenciar toda uma geração de grandes escritores.

Os personagens principais

Madame Bovary apresenta uma interessante e constante mudança do foco narrativo. Vemos os fatos sob o ponto de vista de diferentes personagens, e o fato da transição passar de forma natural, quase que despercebida, é uma das inovações do autor. “Estávamos na sala de estudo, quando o Diretor entrou, seguido de um novato vestido à paisana...”. O romance é iniciado por um dos alunos da escola onde Charles Bovary nos é apresentado. Duas páginas depois, temos um narrador onipresente e o foco passa para o personagem de Charles. É um rapaz que se forma em medicina e passa a ser médico rural, passa por um rápido casamento, com uma mulher mais velha mas que o ama de verdade e passa a visitar uma casa onde trava contato com aquela que seria sua segunda esposa, Emma Bovary. A esposa morre, logo casa-se novamente. O retrato pintado por Flaubert é de um homem inseguro, medíocre, culturalmente limitado, mas correto e de bom coração.

É só depois do casamento que Emma fala pela primeira vez, e um pouco adiante nos é apresentada. Trata-se de uma moça sem muitas posses, educada em um pensionato onde passa a travar contato com a literatura clássica que a introduz no mundo dos heróis e suas heroínas. Com este modelo em mente, nunca seria capaz de aceitar sua realidade, passando a desenvolver o desprezo a um homem acomodado, que limita-se em amá-la, mas sem o ímpeto dos românticos.

A queda

Esta incompatibilidade entre a vida real da Sra Bovary, agora assentada em uma pequena vila francesa, com seus ideais românticos acaba conduzindo-a para o adultério. Primeiro um longo flerte com um jovem rapaz da vila, que um dia parte para estudar em Rouen deixando-a com a lembrança de um amor que não se consumou. Logo surge um homem experiente, que percebendo as inclinações dela, logo a seduz, tornando-se seu amante. A descrição da queda de Emma é um espetáculo a parte de Flaubert, nunca uma sedução, uma entrega, foi narrada com tamanha economia de palavras, mas ao mesmo tempo com muita riqueza artística.

A fazenda de seu vestido agarrava-se ao veludo da casaca, ela inclinou para trás seu pescoço branco que um suspiro vinha inchar e, desfalecendo, em prantos, com um longo frêmito e escondendo o rosto, ela se abandonou. (...) Havia silêncio por toda parte; algo de doce parecia sair das árvores; ela sentia o coração, cujas batidas recomeçavam e sentia o sangue circular em sua carne como um rio de leite. Então, ouviu ao longe, além do bosque, sobre as outras colinas, um grito vago e prolongado, uma voz que se arrastava e ela a ouvia silenciosamente ao misturar-se como uma música às últimas vibrações de seus nervos alvoroçados.

A queda de Emma é em três direções. Primeiro à luxúria em si, a entrega total ao amante. Segundo no plano financeiro. Diante de um fornecedor inescrupuloso, que perceba a natureza da jovem, se coloca como fornecedor de artigos de luxo e outros serviços, tornando-a, pouco a pouco, dependente e endividada. Por fim, no próprio lar, onde a indiferença por tudo que se refere à realidade que tanto despreza chega até sua própria filha recém-nascida.

Quando a pressão por uma fuga definitiva fica insustentável, Rodolphe a abandona, levando-a ao desespero e quase a morte. Inicia um breve período em que Emma se apega ao religioso, tentando de todas as maneiras conseguir na fé uma razão para sua existência. O esforço termina quando Leon retorna à sua vida, agora mais experiente, e a segunda queda se configura em uma cena memorável de passeio de coche. Os papéis se inverte, agora é Emma que conduz o romance e assume o papel que outrora fora de Rodolphe.

Porém a entrega total da Sra. Bovary ao adultério não se configura na felicidade que esperava; com o tempo o romance proibido, fantástico, excitante, se transforma em um “casamento”, tão bem narrado por Flaubert: “Ela estava tão enfastiada dele quanto ele estava dela. Emma encontrava no adultério toda a insipidez do casamento”.

Desfecho (aqui comento o final, leia por sua conta e risco!)

E é assim que a obra chega ao seu desfecho. E que desfecho! Quando seu devedor percebe que a capacidade de Emma Bovary em pagar dívidas se esgotou, inicia o processo de cobrança. Ela se desespera, tenta de todas as maneiras conseguir dinheiro. Todas as portas são fechadas. Resta-lhe apenas uma solução, retornar à sua casa, contar a verdade para Charles, e recomeçar. Ela sabe que o marido a ama tanto que a perdoaria, mas este pensamento lhe é demasiadamente cruel. A simples idéia de que aquele marido medíocre tivesse sobre ela uma superioridade moral lhe era inadmissível. Resolve fugir da realidade uma última vez, comete o suicídio.

Sua morte é horrenda, Flauber coloca no envenenamento por arsênico um destino cruel para Madame Bovary. Charles é deixado, com a filha, em uma situação de penúria. Afasta-se da sociedade e acaba por descobrir, através de cartas, que a esposa o traía. Nem assim consegue odiá-la, pelo contrário, saber que a esposa fora amada aumenta ainda mais seu amor. É um homem com muita força de caráter, de bondade, e acaba por encontrar a morte em uma cena tocante. À filha resta-lhe a pobreza, e todos os “vilões” da estória, os amantes, o agiota, o farmacêutico aproveitador, são recompensados.

A última pincelada de Flaubert é das terríveis conseqüências que uma vida dissociada da realidade, em uma jovem cuja educação foi superior à sua condição, e a fraqueza moral, levam. Em nenhum momento do livro Emma Bovary encontra a felicidade que tanto sonhava, seu amor transformava-se em vício, e cada vez mais era necessário mais intensidade para menos prazer. Flaubert mostra que a sexualidade pela sexualidade leva ao fastio, à negação do próprio amor, à falta de um sentido para a existência. Emma mostrou os germes da corscupiência moderna, onde a entrega total aos prazeres leva ao um círculo que se forma em torno do vazio existencial, levando o homem a uma profunda infelicidade. Charles é o oposto. Mesmo em sua mediocridade, em sua falta de ambição, consegue ser feliz pela intensidade do seu amor pela esposa, tão forte que nem diante de sua ruína financeira e da traição consegue ser abalado.

Legado

E foi assim que Flaubert nos deixou este primeiro romance moderno. O mais interessante é que o efeito provocado pelo livro é mais forte à medida que nos afastamos dele, diante das reflexões que desperta. É mais do que uma estória de amor e traição, é uma representação da vida como só os grandes autores conseguem mostrar.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Em breve: Madame Bovary

Terminei esta semana de ler o romance de Flaubert. É desses que merece um post para lá de caprichado; preciso de tempo, agora não o tenho. Fica para a primeira oportunidade em que tiver pelo menos uma hora para esse fim. Aguardem.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Despedidas

Ontem finalmente caiu a ficha. Terminou meu curso de mestrado; estes dois anos agora fazem parte da minha história pessoal.

Já era mais de cinco horas quando coloquei meus últimos pertences da minha bolsa. O corredor da PG estava vazio, os poucos que andaram por lã naquele dia já haviam partido. Olhei para minha mesa, companheira do último ano, e me toquei que não mais sentaria naquela cadeira, que aquela baia __ como chamamos nossas saletas de estudo __ já não era minha.

É interessante como o fato de ser o último a sair aumenta ainda mais o sentimento de adeus. Apaguei as luzes, fechei as portas e quando passei a chave na do corredor dei uma última olhada para a PG de transportes. Terminara. Não digo enfim porque nunca foi um tormento, um suplício; pelo contrário, aproveitei cada instante do curso.

Os dois anos que passei ali foram dos melhores de minha vida. Cresci muito ali dentro, não me reconheço mais na pessoa que iniciou o curso. Muita coisa aconteceu neste período, principalmente no minha intimidade. E é nela que reside nossa maior transformação, sempre.

Ficará sempre as saudades de tudo que vivi neste corredor: o convívio com meus colegas; as conversas com os professores; a rotina de estudo; nossos pequenos conflitos. A todos estes personagens, e ao próprio IME, a quem chamo de minha casa, sempre, fica minha eterna gratidão. Aprendi muito com todos eles, amadureci com eles.

Ao fechar as portas, já com as luzes apagadas só me resta sorrir, dizer adeus, e ir em frente. Afinal, como cantava Freddy Mercury, the show must go on....

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Flamengo 2 x 1 Volta Redonda

O problema agora do Flamengo é o ânimo. Depois de boas partidas no início de temporada, o ritmo caiu bastante. Espero que estejam guardando para os jogos decisivos, e parece ser esta a realidade. O time viu que estava acelerando muito e tratou de dosar, jogar a meia marcha, o suficiente para vencer os treinos de luxo. E foi assim que o time jogou esta Taça Guanabara. Pena que os dirigentes tenham estragado um FLA x FLU ao marcá-lo para a última rodada. Um desperdício. Com a classificação do grupo já definida, virou um jogo de reservas. Pelo menos serve para ver quem não está jogando.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

4 jogos, 4 vitórias

O Flamengo iniciou a temporada com um trunfo na mão, a manutenção do time do ano anterior. Tanto que se deu ao luxo de escalar na partida de estréia os mesmos jogadores que fizeram a última partida de 2007, um fato raro no futebol. A contusão de Renato Augusto provocou a primeira mudança, a entrada de Marcinho. Posteriormente foi a vez de Jonathas, que voltou à Gávea pegando o lugar de Cristian.

Ok, os adversários foram fracos, mas o time também fez por onde. Basta lembrar que em anos nem tão distantes assim, o Flamengo passou o diabo nas mãos destes mesmos pequenos no início da temporada. Todos os outros times cariocas já perderam pontos, assim como os paulistas.

É bom abrir o olho, ainda é início de temporada, tudo tem que ser bem dosado para que os jogadores cheguem em forma para o objetivo principal do primeiro semestre: a Libertadores. O ideal é ir ganhando força com o desenrolar do campeonato, esta sempre foi a tônica das competições com jogos eliminatórios. Basta ver o exemplo dos argentinos, que normalmente colocam a primeira fase em segunda prioridade em relação ao Clausura, e depois, na hora da verdade, colocam a força máxima. Ano passado o Boca jogou apenas para o gasto na fase de grupo.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Livro: Fundamentos de Antropologia




Este não é um livro que li, é mais do que isso. É um livro que estudei ao longo de quase um ano. Enfim, de maneira nenhuma finalmente, cheguei ao final. O destino dele agora é uma prateleira especial onde guardo livros para consulta, aqueles que são minha muleta; obras que estou a todo tempo consultando em busca do entendimento do nosso mundo.

Trata-se de uma obra escrita por Ricardo Yepes e modificada posteriormente por seu colega e colaborador Javier Echevarría. Yepes era doutor em filosofia, professor de Fundamentos de Antropologia da Universidade de Navarra e faleceu em acidente de montanhismo. Echevarría também é doutor em filosofia. O livro que escreveram pode ser classificado como antropologia filosófica.

O sub-título entrega a grande finalidade da obra, apresentar as bases para um ideal de excelência humana. As fontes para o estudo são a filosofia clássica, principalmente, e o cristianismo completando as limitações da primeira. As citações de Aristóteles, Platão e Tomás de Aquino são uma constante, assim como de vários autores modernos que resgatam as obras destes pioneiros.

Yepes apresenta o homem e o modo como se relaciona com tudo a sua volta. Explica o que é a pessoa, o mundo humano, a técnica, a ciência, os valores, a verdade, a liberdade, as relações interpessoais, a felicidade, o sentido da vida, o casamento, a família, a sexualidade, a violência, a cultura, a vida econômica, a política, o tempo, a dor e a morte. Tudo centrado na figura do homem; é ele o personagem principal.

É o tipo de livro que transforma o leitor, pois mostra-lhe um mundo que nem imaginava existir; além de mostrar a si mesmo. Diante da obra destes espanhóis não dá para não pensar na frase de Sócrates: “só sei que nada sei”. E mais, que o caminho a percorrer é árduo, exigente, muitas vezes tortuoso, mas no fim a recompensa vale todo este esforço. Ser uma pessoa melhor, buscar a excelência como ser humano, eis a proposta desta obra.

Pretendo comentar vários pontos discutidos no livro neste blog, aos poucos, não é coisa para se fazer com pressa, como bem indica sua leitura. Passar batido pelo texto sem procurar absorver sua mensagem é quase que um crime, um desperdício. Indico para qualquer um que sinta que não é perfeito, muito pelo contrário. É para aqueles, como eu, que sabem que estão longe de um ideal, que admitem suas imperfeições, mas que desejam progredir. Para os que acham que sua vida lhes basta, que são perfeitamente felizes, que estão esperando apenas a recompensa por sua perfeição, nem tentem ler; não vão entender.

Este é para os que entendem o que Sócrates quis dizer ao afirmar sua ignorância.

Columbo

Sempre adorei estórias policiais, minha iniciação no mundo da literatura foi através de Agatha Christie. Um dos aspectos que acho fascinante é a psicologia dos detetives, seus métodos. A força da criação dos autores estão justamente na força de seus protagonistas; falar de Connan Doyle é falar de Sherlock Holmes; de Christie é falar de Poirot (meu favorito) e Miss Marple. Esta escritora chegou a colocar o detetive belga competindo com Holmes (na figura de Giraud em "Assassinato no Campo de Golfe", chegando a ironicamente emprestar o Capitão Hastings para fazer o papel de Watson).

Na televisão surgiram um profusão de detetives , normalmente em séries televisionadas. Nos dias de hoje temos dois protótipos, Monk e House. Sim, este último também é um detetive pois também investiga um medo mais real para o americano, as doenças.

De modo geral são pessoas inteligentíssimas, que resolvem casos, que nós mortais consideramos quase impossíveis, em deduçõs magníficas. Ultimamente me deparei com dois investigadores que fogem a esta regra. São pessoas comuns, que resolvem crimes comuns, muitas vezes óbvios. A seu favor a determinação de investigar cada aspecto do problema, afastar as hipóteses inconsistentes e chegar, com muito esforço à verdade. O primeiro é a criação de George Simenon, o inspetor Maigret; o segundo é o assunto deste post, o Tenente Columbo da polícia de Los Angeles.

Nos episódios do seriado, sabe-se de início quem é o assassino, uma inovação no gênero. Detalhadamente é mostrado o crime, tenta-se passar para o espectador a idéia de que sua realização foi um sucesso. O criminoso prepara um alibi perfeito, ou uma encenação, para desviar a atenção dos investigadores para outro caminho. Então chega Columbo. E o criminoso agradece aos céus...

Sim, porque a primeira imagem de Columbo é péssima. É atrapalhado, parece ter dificuldade para entender o que está acontecendo, mostra uma reverência exagerada para o criminoso, muitas vezes declara-se um fã. Estabelece-se uma oposição, pois o assassino é uma pessoa metódica,fina, uma personalidade. Diante de Columbo, não pode deixar de escapar um sorriso, será mais fácil do que imaginava. Então o detetive, já de saída, solta sua última frase "just one more thing..."

Pronto. É uma pergunta simples, muitas vezes um breve comentário, que mostra que Columbo percebeu algo de errado. Uma pequena falha do plano. O assassino não chega a ficar com medo, mas começa a ficar alerta. Percebe que talvez tenha substimado demais, mas fica tranqüilo, aquilo ainda não é nada. Mas para Columbo é o fio de uma investigação, e a ele se agarra. Aos poucos vai desenrolando o novelo, contando para isso com a própria soberba do criminoso. Nessa altura já sabe quem é o culpado, falta-lhe provar. Seu método é deixá-lo falar. Estimulá-lo, levá-lo a falar sobre questões triviais, e então vem de novo "one more thing..."

O criminoso começa a se sentir cercado. É uma perseguição. Onde quer que vá, lá está Columbo, cada vez mais perto. Então vem o erro fatal, a improvisação. E ele se perde completamente. Foi vencido por um detetive cujo grande mérito está na atenção aos pequenos detalhes, no julgamento de caráter, e na compreensão da personalidade humana. O criminoso é um vaidoso, tem orgulho de seu plano, e acaba por se trair.

Columbo foi uma série fascinante, estrelada por Peter Falk, que deu vida a um personagem bastante original, contrário a tudo que se via na época. Entre os criminosos, participações mais do que especiais. O médico vivido por Leonard Nimoy ou os gêmios por Martin Landau, por exemplo, são impagáveis. Pode-se ver o DNA de Columbo em personagens como Monk. Ah, Columbo também tinha um problema, uma dificuldade absurda para se concentrar. Hoje seria diagnosticado como hiperativo. Na mesma conversa mudava de assunto, para as maiores banalidades, deixando o seu interlocutor, geralmente o criminoso, totalmente perdido e irritado.

A série está disponível em DVD no Brasil. Vale cada centavo.

Carnaval

Há tempos que meu programa ideal de carnaval é fugir de qualquer coisa que lembre carnaval. Simplesmente aproveito o feriado para ficar com a família, a festa em si fica quase que totalmente para escanteio. O quase é por conta das crianças... e assim fui numa matinê hoje em Brasília.

Foi bom rever velhos amigos e ver a Lorena brincar. Vou a uma festa destas para cumprir uma obrigação contratual quando se resolve ter filhos. Confesso que me é uma tortura. Não suporto as músicas, as marchinhas, as músicas baianas e a aglomeração de gente. Fico doido para cair fora o mais rápido possível.

Sempre achei que o carnaval é uma festa para solteiro; um bom motivo para cair na farra. O casamento é uma libertação da festa. Não tenho mais nada para fazer lá. Beber e jogar conversa fora eu faço em qualquer outro lugar e com um som bem mais agradável.

O Brasil que me perdoe, mas esta festa não me significa nada. É vendida como uma expressão cultural do brasileiro. Se um desfile de escolas de samba é nossa maior expressão cultural, muita coisa se explica. Segundo a constituição, é. Ela define a cultura como qualquer manifestação que trate do brasil, da nacionalidade. Curioso que se um autor brasileiro fizer um tratado sobre uma questão universal e fizer uma contribuição para o avanço do pensamento da humanidade, não será, por aqui, considerado como cultura. Aristóteles não seria cultura na Grécia!

O que temos é um motivo para esquecer os problemas e dissabores da vida e cair na folia. Com muita cerveja, é claro. Sempre há efeitos colaterais, como acidentes de trânsito e gravidez indesejada, mas são ossos do ofício. O ministro Temporão está preocupado com este último e já tem a solução: a pílula do dia seguinte. Mais incentivo à folia irresponsável, impossível.

O governo também está preocupado com o primeiro, está proibindo a venda de bebida alcóolica nas estradas. Se o motorista levar sua cerveja no banco do lado não há problema. O fato de uma série de países ter índices de acidentes bem menores do que o Brasil, sem proibir a prática não é significativo. O de criminalizar o motorista que coloca a vida, sua e dos outros, em risco nem pensar. Assim temos uma Paris Hilton cumprindo pena por dirigir embrigada, mesmo sem provocar um acidente, nos EUA. No Brasil? Temos gente condenada, com três mortes nas costas, jogando futebol após passar 1 dia na prisão.

Mas viva o carnaval!

sábado, fevereiro 02, 2008

Voltando

Ainda não é uma volta definitiva, pelo menos não na velocidade habitual, mas já encontro um tempo para escrever algumas linhas. Já estava sentindo falta.

Aos poucos vamos conhecendo Brasília, suas qualidades e seus problemas. Me agrada viver em uma cidade planejada e organizada, com uma lógica na sua concepção. Em alguns aspectos os habitantes são mais civilizados, mas não chega a ser uma diferença notável, como em Curitiba, por exemplo. Sim, os motoristas param na faixa de pedestre, respeitam os limites de velocidade, evitam buzinar. No entanto, longe dos pardais __ que por uma resolução estúpida devem ser anunciados com antecedência __ correm sem cerimônia e mostram a mal educação típica do condutor brasileiro.

O problema é que a cidade cresceu bastante, pelo que ouvi o ex-governador Roriz tem uma grande responsabilidade neste crescimento. Como a cidade é inteiramente tombada como patrimônio histórico, não há muita opção para resolver os problemas decorrentes.

De Brasília para o particular, já estamos instalados. A mudança chegou praticamente sem problemas, e já temos o aspecto de um lar. Ainda faltam muitas pequenas coisas para arrumar e organizar, mas o grosso já está feito. Estamos esperando as cortinas que compramos e com elas ficamos 90% resolvidos.

Tenho que voltar ao batente, o final é sempre mais devagar.

Ahh! Posts que estão sendo preparados para este blog: Columbo, A Rebelião das Massas, Fundamentos de Antropologia, Top 5 livros lidos em 2007 e outros.

Até breve!