sábado, fevereiro 16, 2008

Madame Bovary


Madame Bovary
Costumes de Província
Gustave Flaubert, 1857

A obra

Flaubert foi educado dentro da estética romântica do século XIX; no entanto foi um dos que a reformaram, dando início ao denominado “romance moderno”. Esta obra possui elementos do romantismo, mas este enfrenta o realismo e a arte, em uma mistura que iria influenciar toda uma geração de grandes escritores.

Os personagens principais

Madame Bovary apresenta uma interessante e constante mudança do foco narrativo. Vemos os fatos sob o ponto de vista de diferentes personagens, e o fato da transição passar de forma natural, quase que despercebida, é uma das inovações do autor. “Estávamos na sala de estudo, quando o Diretor entrou, seguido de um novato vestido à paisana...”. O romance é iniciado por um dos alunos da escola onde Charles Bovary nos é apresentado. Duas páginas depois, temos um narrador onipresente e o foco passa para o personagem de Charles. É um rapaz que se forma em medicina e passa a ser médico rural, passa por um rápido casamento, com uma mulher mais velha mas que o ama de verdade e passa a visitar uma casa onde trava contato com aquela que seria sua segunda esposa, Emma Bovary. A esposa morre, logo casa-se novamente. O retrato pintado por Flaubert é de um homem inseguro, medíocre, culturalmente limitado, mas correto e de bom coração.

É só depois do casamento que Emma fala pela primeira vez, e um pouco adiante nos é apresentada. Trata-se de uma moça sem muitas posses, educada em um pensionato onde passa a travar contato com a literatura clássica que a introduz no mundo dos heróis e suas heroínas. Com este modelo em mente, nunca seria capaz de aceitar sua realidade, passando a desenvolver o desprezo a um homem acomodado, que limita-se em amá-la, mas sem o ímpeto dos românticos.

A queda

Esta incompatibilidade entre a vida real da Sra Bovary, agora assentada em uma pequena vila francesa, com seus ideais românticos acaba conduzindo-a para o adultério. Primeiro um longo flerte com um jovem rapaz da vila, que um dia parte para estudar em Rouen deixando-a com a lembrança de um amor que não se consumou. Logo surge um homem experiente, que percebendo as inclinações dela, logo a seduz, tornando-se seu amante. A descrição da queda de Emma é um espetáculo a parte de Flaubert, nunca uma sedução, uma entrega, foi narrada com tamanha economia de palavras, mas ao mesmo tempo com muita riqueza artística.

A fazenda de seu vestido agarrava-se ao veludo da casaca, ela inclinou para trás seu pescoço branco que um suspiro vinha inchar e, desfalecendo, em prantos, com um longo frêmito e escondendo o rosto, ela se abandonou. (...) Havia silêncio por toda parte; algo de doce parecia sair das árvores; ela sentia o coração, cujas batidas recomeçavam e sentia o sangue circular em sua carne como um rio de leite. Então, ouviu ao longe, além do bosque, sobre as outras colinas, um grito vago e prolongado, uma voz que se arrastava e ela a ouvia silenciosamente ao misturar-se como uma música às últimas vibrações de seus nervos alvoroçados.

A queda de Emma é em três direções. Primeiro à luxúria em si, a entrega total ao amante. Segundo no plano financeiro. Diante de um fornecedor inescrupuloso, que perceba a natureza da jovem, se coloca como fornecedor de artigos de luxo e outros serviços, tornando-a, pouco a pouco, dependente e endividada. Por fim, no próprio lar, onde a indiferença por tudo que se refere à realidade que tanto despreza chega até sua própria filha recém-nascida.

Quando a pressão por uma fuga definitiva fica insustentável, Rodolphe a abandona, levando-a ao desespero e quase a morte. Inicia um breve período em que Emma se apega ao religioso, tentando de todas as maneiras conseguir na fé uma razão para sua existência. O esforço termina quando Leon retorna à sua vida, agora mais experiente, e a segunda queda se configura em uma cena memorável de passeio de coche. Os papéis se inverte, agora é Emma que conduz o romance e assume o papel que outrora fora de Rodolphe.

Porém a entrega total da Sra. Bovary ao adultério não se configura na felicidade que esperava; com o tempo o romance proibido, fantástico, excitante, se transforma em um “casamento”, tão bem narrado por Flaubert: “Ela estava tão enfastiada dele quanto ele estava dela. Emma encontrava no adultério toda a insipidez do casamento”.

Desfecho (aqui comento o final, leia por sua conta e risco!)

E é assim que a obra chega ao seu desfecho. E que desfecho! Quando seu devedor percebe que a capacidade de Emma Bovary em pagar dívidas se esgotou, inicia o processo de cobrança. Ela se desespera, tenta de todas as maneiras conseguir dinheiro. Todas as portas são fechadas. Resta-lhe apenas uma solução, retornar à sua casa, contar a verdade para Charles, e recomeçar. Ela sabe que o marido a ama tanto que a perdoaria, mas este pensamento lhe é demasiadamente cruel. A simples idéia de que aquele marido medíocre tivesse sobre ela uma superioridade moral lhe era inadmissível. Resolve fugir da realidade uma última vez, comete o suicídio.

Sua morte é horrenda, Flauber coloca no envenenamento por arsênico um destino cruel para Madame Bovary. Charles é deixado, com a filha, em uma situação de penúria. Afasta-se da sociedade e acaba por descobrir, através de cartas, que a esposa o traía. Nem assim consegue odiá-la, pelo contrário, saber que a esposa fora amada aumenta ainda mais seu amor. É um homem com muita força de caráter, de bondade, e acaba por encontrar a morte em uma cena tocante. À filha resta-lhe a pobreza, e todos os “vilões” da estória, os amantes, o agiota, o farmacêutico aproveitador, são recompensados.

A última pincelada de Flaubert é das terríveis conseqüências que uma vida dissociada da realidade, em uma jovem cuja educação foi superior à sua condição, e a fraqueza moral, levam. Em nenhum momento do livro Emma Bovary encontra a felicidade que tanto sonhava, seu amor transformava-se em vício, e cada vez mais era necessário mais intensidade para menos prazer. Flaubert mostra que a sexualidade pela sexualidade leva ao fastio, à negação do próprio amor, à falta de um sentido para a existência. Emma mostrou os germes da corscupiência moderna, onde a entrega total aos prazeres leva ao um círculo que se forma em torno do vazio existencial, levando o homem a uma profunda infelicidade. Charles é o oposto. Mesmo em sua mediocridade, em sua falta de ambição, consegue ser feliz pela intensidade do seu amor pela esposa, tão forte que nem diante de sua ruína financeira e da traição consegue ser abalado.

Legado

E foi assim que Flaubert nos deixou este primeiro romance moderno. O mais interessante é que o efeito provocado pelo livro é mais forte à medida que nos afastamos dele, diante das reflexões que desperta. É mais do que uma estória de amor e traição, é uma representação da vida como só os grandes autores conseguem mostrar.

4 comentários:

Rafaelnhoque disse...

Alö!!! Aqui é o Rafael, de Resende.Gostei muito do blog! Como estão as coisas em Brasíla? ve se me adiciona no msn, rcal90@hotmail.com.
Gde abc!

Marcela Perroni disse...

Olá!
Você não me conhece, mas ao buscar uma salvação para um trabalho de Literatura sobre o filme 'Madame Bovary' encontrei-me aqui.
Muito bom o que você escreveu, gostei. Ajudará muito! (obrigada)
Beijos :)

Katy disse...

Olá, gostei muito do seu artigo sobre o romance de Flaubert, só não me ficou muito claro se foi analisado pela obra ou pelo filme, apesar de que apesar de singelo, ficou muito bom e interessante e eu recomendo a quem estiver perdido em como iniciar uma analise da obra. Parabens e obrigada!

Marcos Guerson Jr disse...

Katy,

Não vi o filme, portanto foi pela obra mesmo.

Abraços.