domingo, fevereiro 24, 2008

Quase entrei na faca

Por muito pouco não entrei na faca ontem, muito pouco mesmo. Fiz a tomografia do abdome pela manhã e, para minha completa surpresa, o laudo apontou para apendicite. Uma hora depois dava entrada na emergência do hospital com um quadro bastante atípico. Clinicamente estava bem, mas havia a leucocitose de um exame de sangue do dia anterior e a tomografia. O cirurgião me internou, iniciou o preparo para a cirurgia e pediu para fazer novo exame de sangue.
Assim estava eu, de uma hora para outra, deitado na enfermaria da emergência, novamente no soro, aguardando para subir para o terceiro andar, o da cirurgia. O pânico instalado na família, as ansiedades naturais de um acontecimento destes. Naquele momento estava sozinho. A minha esposa tinha subido para fazer a internação. Ao meu lado o outro paciente da emergência, um senhor com dores abdominais horrendas. Várias vezes falou que só queria morrer para a dor parar. A esposa, ao lado, pedia que não blasfemasse.
As pessoas reagem de forma diferente. Quando na quinta feira entrei com um quadro semelhante, no mesmo hospital, só pedia que Deus olhasse por mim, o que me era sempre reconfortante. A crença de que existe algo superior, zelando por nós, ajuda a enfrentar as piores crises.
Enfim, estava perdido nestas divagações quando o cirurgião voltou.
__ Esta sentindo dor?
__ Não.
__ Nenhuma?
__ Não.
Em seguida ele apalpou meu abdome em vários lugares, a resposta sempre a mesma. Nenhuma dor.
__ Vômito?
__ Não.
__ Mal estar?
__ Não.
Jogou um papel sobre minha barriga.
__ Dê uma olhada.
Era o resultado do laboratório para o novo exame de sangue. Os leucócitos estavam normais. Aliás, aproveito para explicar. Nem todo mundo sabe, mas o nível alto dos leucócitos mostra uma infecção no organismo. Um dos aprendizados destes três dias de hospital.
__ Esta sua tomografia só veio atrapalhar. Sem ela, eu nunca, em hipótese nenhuma, pensaria em te operar. Nem mesmo em pedi-la! Não vou te cortar sem necessidade, já que está aqui, vou mantê-lo em observação. A tarde repetimos o exame de sangue, fazemos outros, e reavalio a situação.
Eram 11 horas. Assim começou meu dia no hospital.

Levaram meu vizinho para fazer uma radiografia. A mãe e a filha permaneceram conversando na enfermaria. Fiquei observando os detalhes práticos que as mulheres, sempre elas, tomam neste momento. Trocar de roupa, organizar o almoço, filhos, etc. A esposa, uma senhora de aspecto muito distinto, parecia extremamente calma.
__ Seu pai é muito manhoso.
Ela assentiu.
Fiquei sabendo que ele estava com dores desde o dia anterior, mas como a maioria dos homens, eu inclusive, ignorou-a e foi trabalhar. Voltou a noite com dores, foi dormir. De manhã já não aguentava mais, enfim aceitou ir ao hospital.
Estou melhorando neste aspecto. A qualquer sinal de dor no abdome me mando. Não gosto nem um pouco desta estória de dor.
Elas estavam nesta conversa quando a mãe fez um sinal e as duas sentaram segurando o riso. Ele estava chegando.

Meu maior companheiro do dia foi A Retirada da Laguna. Ficava distraído, acompanhando a narração de Taunay sobre a longa caminhada das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai. Não conseguia deixar de notar o contraste entre o atendimento médico proporcionado pelos dois médicos militares na campanha com os recursos que via agora no hospital.
Armando e Denise apareceram. Ele me trouxe um livro para ler, sobre o Dalai Lama. Mostrei-lhe o livro que estava lendo. Ele riu.
__ Retirada da Laguna?
__ Claro. Só por que vou entrar na faca vou ler um livro religioso? É mau agouro. Parece que já estou preparando minha alma! Não tem um padre aí pelo corredor?
__ Não é religioso. É sobre a vida, é filosofia.
__ Pois é, um dia eu leio. Por hora prefiro A Retirada. É bom para conhecer um pouco das origens do Exército Brasileiro.
__ Desconfio de todo livro escrito por um nobre.
__ Taunay não era nobre na época da guerra, era Major. __ na verdade uma incorreção, ele era segundo tenente engenheiro.
__ Mas ele já não tinha o título?
__ Não sei, mas ele serviu como oficial regular das forças no Mato Grosso. Era o secretário da expedição.
__ hummm.
Fizemos algumas piadas, rimos bastante, e foram almoçar. A Eliene aproveitou e foi também. Fiquei com meu livro. A expedição brasileira encerrara a rápida invasão e iniciara a retirada. Os paraguaios iniciaram uma estratégia de incêndios para futigar a coluna. Era uma arte deles, pois além de saber onde iniciar o fogo, tinham um conhecimento dos ventos, fundamentais para levá-lo em direção aos brasileiros. O guia Lopes, conhecedor da região, foi fundamental para evitar maiores baixas na tropa ao conduzi-los para locais de abrigo.

Começando a ficar entediado, fiquei sabendo algo mais sobre meu vizinho. Ele agora dormia. Tinha chegado ao nível máximo de medicação contra dor: a morfina. Eliene voltou. Já eram duas da tarde. Minha mãe liga novamente. Quer uma solução, que tire logo o apêndice já que não faz falta. É uma opinião bem comum, mas toda cirurgia tem seus riscos e um pós-operatório. Pelo que tinha me dito o cirurgião o corte não iria ser do mais simples, o lateral. Teria que abrir de frente. Explicou alguns termos técnicos, não entendi muito bem. Mas o gesto dele, de cima a baixo da barriga, este ficou muito claro.

__ Quero ver o que acontecerá antes.
__ Como?
__ Se o fim da retirada da Laguna ou um diagnóstico.
__ Retirada?
__ É, a do livro. Eles estão andando igual aos hobbitts. Dá agonia. Estou cansando só de pensar.

Quando estavam no fim da retirada, com os paraguaios afrouxando um pouco a perseguição, começou a epidemia de cólera. Vitimou o guia da expedição, o comandante e o sub-comandante. O quadro descrito por Taunay é estarrecedor. No meio do pantanal, dois médicos, sem alimentos, com muito pouca água, faziam de tudo para trazer algum alívio aos doentes. Tiveram que abandoná-los, não havia mais forças para carregá-los. Foram massacrados pelos paraguaios. É uma decisão terrível, para qualquer comandante, abandonar feridos. Talvez tenha sido a mais difícil do Coronel Camisão. Tomou-a um dia antes dele próprio ter sido acometido pela moléstia.

As 18:00 houve a troca do plantão. O novo cirurgião, este mais experiente, foi ter comigo. Expliquei tudo de novo. Ele apertou, apertou, nada de dor.
__ Deixa eu te explicar uma coisa. Um exame é só um exame. Ele acompanha a clínica, esta é a mais importante. Não posso me basear apenas nele. Se fosse assim, não precisava de médico. O mais importante é o que o paciente sente e o que o clínico percebe. Eu não percebo nada que justifique uma cirurgia. Vou repetir alguns exames e vamos fazer uma nova avaliação.
Ele foi para a sala das enfermeiras. Pediu que chamassem o sobreaviso da radiologia, queria um ultrassom.
__ Estou com um laudo de apendicite mas o paciente vai "muito bem, obrigado". Quero mandar o cara para casa.
O sobreaviso já tinha sido chamado, o paciente do meu lado também iria fazer o mesmo exame.
Um enfermeiro me trouxe um remédio, o luftal, era necessário para o ultra-som. Dois minutos depois, uma enfermeira trouxe o mesmo remédio. Disse que já tinha tomado. Éramos dois pacientes para 4 enfermeiros que batiam papo animadamente. Olhei para o lado. Era bom meu companheiro tomar cuidado, ainda saía dali sem o apêndice.

Era só o que faltava para me sentir no seriado do House. Tinha feito exame de sangue, urina, raio-x, tomografia. Não, não me refiro ao ultra-som, embora faça parte de meu dia de ator de seriado médico americano, refiro-me ao passeio de cadeira de rodas. Minha esposa teve que me empurrar, a enfermeira estava com problema de coluna. Haviam mais dois enfermeiros sentados batendo papo. Vai entender.

O médico radilogista estava num casamento e de excelente humor. Disse que tinha falado com o cirurgião, e concordava que o exame não poderia ser definitivo. Perguntei se tinha olhado a tomografia, disse que sim, mas que não vira a apendicite. Passou gel na minha barriga e começou. Claro que houveram as piadas sobre o sexo do bebê, mas no que importa ele foi claro: não via o apêndice, o que era um bom sinal. Só dava para vê-lo se estivesse inchado.
Voltei para minha cama, eram 8 da noite.

Depois de um pouco mais de espera, o cirurgião voltou. Leucocitose normal, ultra-som não indicou nada. Resultado: receberia alta. Lógico que com observações: dieta moderada, qualquer sinal de anormalidade voltar correndo para o hospital. Agradeci, me despedi dos familiares do meu companheiro, que já estava partindo para a endoscopia, e voltei para casa. Liguei para todo mundo, contei a mesma estória.
Segunda volto ao hospital onde tudo começou e converso com minha médica. Se ela tinha uma pulga atrás da orelha quando solicitou a tomografia, agora quem a tem sou eu. Vamos refazer esta tomografia, não quero ficar aqui na expectativa que a qualquer momento tenha um apêndice estourado na minha barriga. Só fico lembrando do primeiro filme da série Alien. Cruzes.

Ah, sim. Terminei a Retirada da Laguna. Muito me ajudou neste dia. O contraste com pessoas que estão em situação infinitamente pior que a nossa nos ajuda a entender um pouco nossa própria situação. E ser paciente.

2 comentários:

Anônimo disse...

Acho que seria um excelente tema para um episódio de House. Por falar nisso, será que tinha um quadro na sala dos médicos onde os mesmos iam anotando os sintomas para decidir sobre o seu tratamento? Dad

Juliana disse...

Eu opereri de apendicite aguda há dezoito dias e me recupero bem. Graças ao exame clínico muito bem feito de um experiente médico gastro. Tudo ocorreu em meia hora, entre a consulta médica e a cirurgia. Fiquei com muito medo de morrer porque não sabia se o apêndice havia supurado ou não. Durante o pré-operatório aprendi a respeitar muito a profissão de enfermeiro. Acho o máximo quem gosta de cuidar dos outros.