terça-feira, fevereiro 26, 2008

A Retirada da Laguna

Visconde de Taunay

Lá ainda ocupávamos a fronteira do Paraguai, embora batidos pelo pungente pesar de a deixar. Tão recentemente a havíamos atravessado, certos de realizar importante diversão, talvez até indispensável à causa da pátria!
Nós nos sentíamos como corridos de vergonha, vendo nossas esperanças de glória tão cedo desvanecidas. Escapara-nos a presa e não queríamos ainda aceitar a absoluta necessidade de a abandonar.


Taunay participou da rápida, e breve, invasão do Paraguai pelo norte como segundo tenente das tropas comandada pelo Coronel Carlos Camisão. Foi uma operação que se deparou com a falta de logística para prosseguir e rapidamente foi obrigada a realizar uma retirada; aí começou o suplício da expedição.

O autor mostra um grande poder descritivo conseguindo formar na mente do leitor as paisagens que a coluna percorreu em sua longa marcha. Sem cavalos e perseguido por inimigo que os tinha, a coluna foi constantemente fustigada e enfrentou um cruel inimigo: o incêndio provocado pelos paraguaios.

Os chefes brasileiros são mostrados por Taunay em sua dimensão mais humana, suas dúvidas, seus acertos, seus erros. Não há heróis na acepção clássica da palavra, mas homens com qualidades e defeitos, que fizeram o possível para conseguir manter a ordem em uma situação em que até a água era escassa. Muitos possuíam profundo sentimento do dever e uma moralidade que a cada dia se perde mais. Apegavam-se à honra como força interior para se manter em frente.

Os últimos dias da expedição foram marcadas pela uma rápida e devastadora epidemia de cólera. Não havia amparo para aqueles pobres coitados; dois médicos, praticamente sem recursos, faziam o possível e o impossível para dar-lhes algum alento. A medicina deixava um pouco o campo técnico e assumia sua dimensão mais humana.

Existe uma angústia e uma sensação de profunda injustiça na morte do comandante e do guia da expedição, José Francisco Lopez. Este queria resgatar a esposa e filhos, capturados pelos paraguaios na invasão do Mato Grosso. Dentro do Paraguai conseguiu re-encontrar um filho, fugido do cativeiro. Sem conseguir avançar mais, assumiu o triste encargo de trazê-los de volta. Morreu ao entrar em sua amada fazenda e lá foi enterrado.

Uma vida dura em uma época dura. Mas eram homens que cultuavam virtudes morais sólidas que hoje parecem cada vez mais perdidas em um mundo onde o relativismo e o niilismo tomou conta. São lições do passado que ficam cada vez mais distante em uma humanidade que glorifica o novo e despreza sua própria herança cultural.

Um comentário:

Cap Mattos disse...

..."Dentro do Paraguai conseguiu re-encontrar um filho, fugido do cativeiro"...
Comentário:o encontro de pai ev filho se deu a 11/04/1867 - dez dias antes de adentrarem o Paraguai (21/04/1867)- Vide Retirada da Laguna Cap V.
Parabéns p/teor do BloG - Sou o Cap Mattos e meu Bog é (https://retiradalaguna@blogspot.com