sexta-feira, março 14, 2008

Navegar é preciso, Viver não é preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espirito desta frase, transformada
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não
É necessario; o que é necessario é criar.

Nao conto gozar a minha vida; nem em goza-la penso.
Só quero torna-la grande, ainda que para isso
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torna-la de toda a humanidade; ainda que para isso
Tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho
Na essencia animica do meu sangue o propósito
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
Para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.



Fernando Pessoa



Até hoje nunca se chegou, e nunca se chegará, a um consenso sobre o significado que Fernando Pessoa deu a esta antiga frase que inicia seu poema. Basicamente existem duas linhas: uma com precisão no sentido de necessidade e outra no sentido de precisão, exatidão.

A frase original é atribuída à Pompeu, que teria afirmado "Navigare necesse; vivere non est necesse". Uma argumentação é recorrer ao original para mostrar que Pessoa se referia à necessidade, o que parece ser confirmado quando afirma no poema que viver não é necessário.

Pois é justamente nestes pontos que me pego para interpretá-la diferentemente. Por que Pessoa não usou a tradução mais fiel da frase em latim "Navegar é necessário; viver não é necessário"? Por que usou de forma ambígua a palavra "preciso"?

Quando alguém afirma que viver não é preciso, está diminuindo a importância da vida, algo difícil de imaginar em um cristão como Pessoa. A confusão é proposital, logo depois afirma "viver não é necessário; o que é necessário é criar". Há uma contradição aparente neste verso: como criar se não estiver vivo? Parece-me que Pessoa quis ressaltar que a vida ia além de uma simples sobrevivência, era preciso ter uma atitude ativa diante dela, o que se manifesta pela criação.

Portanto o sentido do verso inicial seria de que a navegação se tornava uma ciência precisa, no sentido de exata, graças ao avanço tecnológico da Escola de Sagres. A vida não tinha, e nunca terá, esta exatidão. Quando Pessoa se refere ao fogo, está se referindo à criação; o homem participa de corpo e alma do viver. A vida se torna grande quando se cria, quando se participa de ideais grandiosos, quando se integra à humanidade.

Pelo menos esta é minha visão. E você? O que pensa?

2 comentários:

Anônimo disse...

Engraçado...rsrsrsr...sempre me identifiquei muito com td isso...mas acho que esa interpretando de uma forma racional e metódica....acho que só se entende o significado desta frase quando se deixa de criar...a satisfação no sentido de criar é muito significativa....quanto a viver é só um meio para criar....bem...mas isso não dá para conversar assim...quem sabe na próxima encarnação....
Bjs

Raíssa disse...

Atendendo a seu pedidoo . . .Alôô =]

Estava procurando esse poema de Pessoa e encontrei seu blog. Parabéns por ele, pois oferece muita coisa produtiva (y)

Bjiinhuus !