terça-feira, março 04, 2008

Um pouco sobre valores

Assisti hoje um episódio muito interessante da série "Everybody Loves Raymond". Para quem não conhece é um sitcom que fala de uma família típica de classe média e o personagem principal é vizinho dos próprios pais, gerando a maioria das situações abordadas.

Ray possui três filhos e o episódio começou com a família reunindo-se para ir à Igreja no domingo. Todos menos Ray. Os pais e os irmãos aparecem, repreendem-no por sua atitude. Acabam por ir enquanto Ray fica com seus sucrilhos assistindo televisão.

Logo fica claro que o principal conflito que se estabelece é com seu pai, Frank, que em termos enérgicos tenta incitá-lo a ir a Igreja. Os dois discutem, em dado momento Frank pergunta:
__ Por que você não quer ir à missa?
__ Por que não tenho vontade!
__ Esse é o problema com vocês! Por que não tenho vontade! Vocês só querem fazer o que têm vontade! Acha que nós tínhamos vontade na II Guerra mundial? Acha que eu tinha vontade de lutar na Coréia?

Este foi o primeiro ponto que me chamou a atenção. O homem de hoje quer fazer apenas o que lhe dá vontade, o que lhe é prazeroso. Não aceita que existam coisas que é seu dever fazer, gostando ou não. Diminuem as coisas que fazem por obrigação, como algo a ser superado rapidamente para poder voltar ao gozo do aprazível. Não poderiam estar nas obrigações ditadas pelo dever justamente as coisas mais sublimes de nossa existência? Aristóteles dizia que havia virtude em se fazer por obrigação o que achava correto, era um reforço para que com o tempo esta obrigação se tornasse natural e se passasse realmente a desejar o que é bom. Daí a importância em superar suas próprias resistências.

Em seguida teve outro diálogo com a esposa, esta uma conversa e não uma discussão. Ela faz a mesma pergunta de Frank: por que ele não queria ir à Igreja? Ray responde que achava que ao ir à missa deveria pensar em Deus, se concentrar na mensagem. Ao invés disso ficava divagando, pensando no trabalho, nas pessoas que estavam ao seu lado. Ficava apenas repetindo gestos, sua mente estava em todo o lugar.

É algo que acontece com todo mundo; acontece comigo. Por mais que tente me concentrar quando vou à uma reunião espírita acabo, volta e meia, divagando. Seria este um motivo válido para deixar de ir à missa ou qualquer culto?

Ray pergunta à esposa: por que ela ia à missa. Ela fica meio perdida, parece que não tinha pensado nisso ainda, mas por fim encontra seus motivos. Fazia isso para agradecer a Deus e conseguir energia para passar a semana com os filhos e o marido. Ia à Igreja para se sentir parte de algo muito maior do que seus pequenos problemas domésticos. Gostava de fazer parte de uma comunidade e acima de tudo, de uma tradição. Argumenta que talvez estivesse ai o problema com o pai de Raymond, ao se recusar a ir à missa estava virando as costas para algo que ele queria lhe passar, a fé.

Ray acaba por ir à Igreja e se comprometer a fazê-lo todos os domingos. Lá descobre que seu pai ficava o tempo todo em uma sala à prova de som e só entrava para realizar a coleta. Aproveitava para ver e depois criticar as pessoas que assistiam ao culto. Faziam apostas e piadas sobre as oferendas. O pai ia à missa, mas não participava, apenas considerava fazer sua obrigação. Ray condena a atitude do pai, mas ao mesmo tempo pede para participar do grupo. Riem dele, a fila de espera era gigantesca, levava mais de 20 anos.

Este é um retrato de muitas pessoas que vão à Igreja, talvez até a maioria. Fazem uma obrigação, procuram não pensar muito no que estão fazendo e no que significa aquela reunião. A Igreja, que deveria ser uma ponte de contato com a divindade, torna-se uma convenção social. Seria melhor que não fossem? Talvez não, talvez o hábito um dia despertasse para o verdadeiro sentido da fé, mas para isso seria necessário um esforço neste sentido. Eu posso divagar bastante quando estou em uma reunião, mas procuro sempre trazer meu pensamento de volta e tentar me concentrar na mensagem que estou ouvindo.

Vejam a quantidade de reflexões que podem trazer um simples episódio de um seriado cômico americano. Nós brasileiros gostamos de chamá-los de enlatados, de lixo comercial. O bom mesmo são nosso programas de moral torta. Particularmente prefiro ver meus filhos assistindo este "lixo comercial" do que nossa "expressão cultural popular", as novelas.

Acho lamentável que em um sitcom americano, oriundo de uma sociedade que abraçou o pragmatismo utilitarista, saia discussões de valores enquanto toda nossa produção cultural televisiva seja voltada para o tripé sexo, dinheiro e poder.

Qual é o verdadeiro lixo comercial?

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