terça-feira, abril 08, 2008

1984 (2a parte)

Compreendo COMO: não compreendo por quê.


Assim Winston se posiciona sobre o mundo de 1984. Ele compreende como foi organizado aquela realidade, o que não consegue compreender é por que foi construída daquela forma. Começa a questionar sua própria sanidade; seu diário é seu escape. Nele escreve seus pensamentos e imagina que um dia poderia passar sua mensagem, seu grito por socorro, para alguém que pense como ele.

Estava escrevendo um diário para O'Brien _ a O'Brien; era uma espécie de carta interminável, que ninguém leria, mas que era dirigida a uma certa pessoa e por isso adquiria vibração.


Diante da falta de respostas dentro do partido, não lhe é permitido perguntar, volta-se para as proles. Busca nela as respostas mas sua jornada pelos subúrbios de Londres não o levam a lugar nenhum. As pessoas mais velhas já não conseguem recordar o passado, perderam suas memórias.

O que Orwell sugere é que a memória deve ser constantemente alimentada por fatos do dia a dia que nos remetem a acontecimentos do passado. A referências nos jornais, nas artes, na mídia. Como o partido controlava toda manifestação escrita, visual, a memória era desintegrada junto. Não era apenas os integrantes do partido que perdiam o contato com a história, mas a própria prole, mesmo não sendo submetido ao mesmo controle. A constatação mais assustadoras é que em breve não haveriam mais remanescentes da época antes da revolução, o último elo possível se perderia. Seria o fim da tradição e da cultura.

Julia

Um dia esbarra em uma fanática da liga anti-sexo, uma mulher por quem tinha verdadeira aversão. Ela coloca em suas mãos uma nota que mudaria sua vida, estava escrita simplesmente "Eu te amo".

No mundo de 1984 o amor é condenado. As relações sexuais são toleradas como uma forma de perpetuar a espécie, mas não pode haver prazer envolvidos. Os casamentos são autorizados baseados na total incompatibilidade do casal. Os laços de família são constantemente desencorajados e o amor um mal a ser combatido.

Com Júlia Winston encontra não o amor, mas um relacionamento honesto. Passa a ter uma pessoa para conversar, expor suas idéias, suas angústias. Júlia não quer mudar o mundo, na verdade não se importa. Quer apenas sobreviver como pessoa fugindo da vigilância do partido. Quer ser mulher, quer ser humana.

Em certo momento ela lhe diz:

__ Quando amas, gastas energia; depois, ficas contente, satisfeito, e não te importas com coisa alguma. Eles não gostam que te sintas assim. Querem que estoures de energia o tempo todo. (...) Se estás contente contigo mesmo, por que havias de admirar o Grande Irmão, os Planos Trienais e os Dois Minutos de Ódio e todo o resto da maldita burrice?


A Fraternidade

Winston toma coragem e se aproxima de O'Brien. Leva Júlia consigo. Ele os recebe como conspiradores e pergunta até que ponto estariam dispostos a ir pela fraternidade. Fariam de tudo, assassinatos, seqüestros, de inocentes ou culpados, tudo, menos a separação.

O'Brien conta que pouco saberão da fraternidade, serão células independentes que receberão tarefas de tempos e tempos. Receberiam um livro que esclareceria o mundo em que vivem e mostraria o caminho a seguir.

O Livro

O livro denominado "Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico" é o cerne da utopia imaginada por Orwell. Explica o lema do partido e sua própria representação.

Guerra é Paz

O mundo era composta por três superpotências que estavam em guerra constante. Esta guerra tinha algumas características básicas, era impossível de vencer e fazia um número de baixas muito reduzidos, periféricas ao centro das potências. Foi a forma como se conseguir eliminar o consumo advindo do avanço da civilização. Desta forma tudo que era produzido era destinado à destruição e não haveria nunca a elevação do nível histórico das nações.

Sem a melhoria das condições da civilização não surgiam conflitos históricos e a paz era mantida. Neste sentido, guerra é paz.

Ignorância é Força

Depois dos conflitos que ocorreram no mundo nas décadas de 30 e 40 ascenderam ao controle do mundo uma nova classe formada por burocratas, cientistas, técnicos, líderes sindicais, peritos em publicidade, sociólogos, professores, jornalistas e políticos profissionais. Era gente cuja origem estava na classe média assalariada e nos escalões superiores do sindicalismo. Gente moldada pelo mundo estéril da indústria monopolista e do governo centralizado. Imaginaram uma tirania perfeita, com a eliminação total de qualquer possibilidade de oposição.

Haviam muito tempo se perceberam que a única base segura da oligarquia é o coletivismo. A riqueza e o privilégio são mais fáceis de defender quando possuídos em conjunto (...) Individualmente nenhum membro do Partido possui coisa alguma, exceto ninharias pessoais. Coletivamente, o Partido é dono de tudo na Oceania, porque tudo controla(...)


O mais fascinante da utopia de Orwell, assim como a de Huxley, é que a base que trabalha é real e de uma atualidade desconcertante. Os elementos que usa para construir 1984 estão presentes nos dias de hoje. A censura, a novalíngua, o esquecimento do passado. É assustador.

O fim

Winston nunca chegou a ler o fim do livro. Estava com Júlia, lendo para ela, quando a censura os alcançou. Não havia possibilidade de resistência, foram capturados. Agora conheceriam o Ministério do Amor...

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