quinta-feira, abril 10, 2008

1984 (final)

Começava, por fim, começava! Nada podiam fazer, exceto se olhar, olhos nos olhos. Correr, fugir da casa antes que fosse tarde demais __ essa idéia não lhes ocorreu. Impossível desobedecer à voz de ferro da parede. Houve um estalido, como se tivesse corrido um ferrolho e um tilintar de vidro quebrado. O quadro caíra ao chão, revelando um televisor.


Prisão

A prisão de Winston e Júlia mostra todo o horror de um estado totalitário. Não há acusação, não precisa pois não existem leis. Não há direitos individuais pois o estado não reconhece o indivíduo. Não há limites para a tortura, física ou psicológica.

Os dois são separados e é através de Winston que se descobre o verdadeiro terror do Ministério do amor. Para grande surpresa dele é O'Brien que faz o papel de inquisitor. Estava sendo observado há 7 anos, pequenos gestos dele haviam despertado no Partido a desconfiança sobre sua lealdade, tudo não passara de uma armadilha para testá-lo.

Os métodos clássicos de tortura estão todos lá. A quebra da dignidade do indivíduo, a privação de alimentação e noção do tempo, as confissões verdadeiras, as falsas. Winston não sabia nada sobre qualquer movimento de contestação, nem mesmo se existiam, mas a tortura continuava, por que? O que poderiam ainda querer saber?

O'Brien

Não te preocupes, Winston; estás sob minha guarda. Há sete anos te vigio. Agora chegou o grande momento. Eu te salvarei, eu te farei perfeito.


Com estas palavras O'Brien deixa claro qual é o objetivo do Partido. Reformá-lo. Tomar posse de sua mente e curá-lo da doença que é a contestação ao regime. Na verdade é mais do que isso, fazê-lo entender que deve acreditar em tudo que o Partido diz, mas não da boca para fora, intimamente, mentalmente.

O inquisitor lembra ao preso: "quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado".

O que O'Brien deixa claro que é um erro querer controlar o futuro olhando para ele, é preciso controlar o passado, o que é feito através do presente. O passado não existe como realidade objetiva, ele já passou, não é mais concreto. Permanece nos registros e na memória dos homens. "Nós, o Partido controlamos todos os registros e controlamos todas as memórias. Nesse caso, controlamos o passado, não é verdade?"

A realidade só existe no espírito, e em nenhuma outra parte. Não na mente do indivíduo, que pode se enganar, e que logo perece. Só na mente do Partido, que é coletivo e imortal. O que quer que o Partido afirme que é verdade é verdade. É impossível ver a realidade exceto pelos olhos do Partido.


Enfim O'Brien explica por que Winston está ali. Não é pela confissão, o Parido não se interessa pelos crimes cometidos, pelos atos físicos. A preocupação é com os pensamentos. "Não destruímos os nossos inimigos; nós os modificamos." Deixa claro que Winston não se salvará, mesmo que se submeta completamente:

Vão te acontecer coisas das quais não poderás te recuperar nem que vivesses mil anos. Nunca mais poderás sentir sensações humanas comuns. Tudo estará morto dentro de ti. Nunca mais serás capaz de amor, ou amizade, ou alegria de viver, riso, curiosidade, coragem, ou integridade. Serás oco. Havemos de te espremer, te deixar vazio, e então saberemos como te encher.

O poder

A primeira etapa da reintegração é aprender. Depois seguem compreender e aceitar. No início da segunda etapa o inquisitor deixa claro. O Partido não quer o bem comum, não se importa com isso. O Partido quer o poder pelo amor ao poder, o poder puro. Isto seria a grande diferença para as oligarquias do passado, não havia interesse em riqueza, luxo, prazeres, apenas no exercício do poder. "O poder não é um meio, é um fim em si".

É a manifestação da vontade de poder descrita por Nietzche. Uma vontade que exige a destruição de todos os valores morais de uma sociedade, só assim o homem seria livre para perseguir o poder absoluto. A sociedade de 1984 não possuem valores, estes são combatidos pelo Partido com toda a energia possível. Só assim é possível a sobrevivência do Partido.

Aceitação

Por fim Winston cede completamente e aceita o Partido. Ao trair Júlia anula-se completamente como indivíduo e passa a fazer parte do Partido, a entidade coletiva que rege o destino da Oceania.

A narração de Orwell da vida de Winston após sair da prisão é desalentador. É a angústia de ver a derrota completa da individualidade diante do coletivo. Não há liberdade, inclusive de pensar. Este é o principal alvo do estado de 1984, o pensamento.

Winston se torna uma célula da nova ordem e deixa de existir como pessoa.

Orwell mostra em sua fábula futurista a anulação do indivíduo diante de uma nova ordem onde o que vigora é o coletivo. Podemos estar distantes do nível de violência e domínio descritos na obra, mas de maneira nenhuma estamos em caminho oposto.

A cada dia vejo os governos tomando mais medidas para vigiar os cidadãos. Câmeras em lugares públicos são cada vez mais comuns, existe uma idéia de que a vigilância é necessária para garantir a segurança. Quanto tempo se levará para estendê-la ao particular? O pensamento individual é cada vez mais combatido por grupos organizados, basta ver a ferocidade como que os cientistas céticos em relação ao aquecimento global são combativos.

Não vejo a remoção de leis que diminuam o poder do estado sobre o indivíduo, mas estão sempre em votação leis que os aprofundam. Onde isto nos levará?

Este é um dos motivos da minha total desconfiança dos partidos sociais-democratas. Estão sempre colocando mais responsabilidades no estado na condução de nossos destinos. O homem, o indivíduo, é imperfeito, isto é inegável. Mas não vejo com bons olhos trocar sua liberdade pela solução de seus problemas.

Prefiro um mundo injusto com liberdade a um justo sem liberdade. Até porque não acredito em justiça sem liberdade. É uma utopia, talvez a mais perigosa que já tenha surgido na humanidade.

Termino com uma significativa frase de O'Brien:

Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano, para sempre.

5 comentários:

guerson disse...

eu já acho que não existe liberdade sem justiça... assim como não existe liberdade absoluta...

Marcos Guerson Jr disse...

Eu discordo de ambas as afirmações. Explico o porque.

A liberdade envolve várias concepções, desde a liberdade física até a liberdade de pensamento. Esta última, para mim, é fundamental. Acho sim que é possível para uma pessoa ser livre, mesmo no meio da injustiça. Um exemplo foi Jesus. Não vejo como não vê-lo como livre. Houveram outros e voltando no tempo cito Sócrates.

Sócrates foi julgado e condenado por corromper a juventude. Segundo a lei de sua época poderia escolher uma pena alternativa, abandonar Atenas e se comprometer a nunca mais filosofar. Recusou-se. Permaneceu fiel a seus princípios e perdeu a vida. Quando leio sua defesa em Apologia de Sócrates vejo um homem livre e sua maior expressão de liberdade era seu pensamento, que nunca foi controlado.

Penso também nos mártires do Cristianismo. Poderiam ter negado sua fé e serem salvos. Permaneceriam vivos, mas a que preço? Negar a sua fé seria uma prova de falta de liberdade do mesmo modo que o contrário seria ser livre.

Também acho que existe uma liberdade absoluta, mas não ao alcance dos homens. Pelo menos não no nível em que estamos de imperfeições morais de toda a espécie. Jesus veio para nos dar a prova do que seria a perfeição moral, o que seria ser livre. Quando se começa a afirmar que não existem valores absolutas é inevitável que se chegue ao relativismo, para mim a raiz de todos os males de nossa sociedade.

guerson disse...

É claro que no nosso íntimo podemos atingir a liberdade absoluta; há muitas pessoas livres na nossa sociedade. Em inglês se usa o termo "free spirit"; alguém que não se limita pelas conevenções à sua volta e é capaz de sempre pensar por si próprio.

O que eu reagi foi à sua percepção de que um estado social democrata é incompatível com a liberdade. Eu não acho. Eu acho que depende dos princípios nos quais esse estado se apóia. Eu vejo o caso aqui no Canada. Os princípios da liberdade (seja ela de pensamento, de locomoção, de religião, etc) estão todos protegidos pela nossa carta de direitos humanos, que é quase como a nossa constituição e está acima das outras leis.

O estado trabalha em prol da justiça social, com programas de iserção social, saúde e educação de qualidade para todos, segurança pública, etc. Nada disso é utopia. Eles funcionam no dia-a-dia.Isso cria uma país mais justo, onde todos, independente da classe social, têm as mesmas chances. Quem quer ser bem sucedido conseque pois em geral tem acesso às mesmas oportunidades.

A justiça leva à paz social. E isso leva a uma liberdade mais completa. A liberdade de realmente ter uma escolha nessa vida, de ir e vir sem se preocupar, a liberdade de não ter que sentir medo...

Eu acho que o segredo está num balanço e na flexibilidade. Não é nem nos Estado inchado e burocrático dos países europeus e nem na cultura anti-Estado que se vê nos EUA. É uma mistura dos melhores elementos de cada um.

O Canadá não é perfeito, mas dos sistemas que eu conheço é o que dá mais resultados. E eu acho que isso vem da combinação de elementos dos dois lados...

Marcos Guerson Jr disse...

Vivo em um país em que a social democracia dá as cartas há mais de 10 anos, tanto com FHC quanto com Lula. E vejo constante ameaças a liberdade, principalmente quando se fala em pensamento.

Alguns exemplos.

Eu odeio cigarro, sempre odiei. Mas acho que a campanha contra o fumo passou em muito dos limites do tolerável. Você alertar o usuário, por todos os meios possíveis, que o fumo faz mal é uma coisa. Mas tratá-lo quase como um criminoso, colocar as imagens que se coloca no maço de cigarro por aqui para chocar não só o fumante, mas quem está do lado, já é demais. O homem deve ter a liberdade de decidir se quer fumar ou não.

Não sei como é no Canadá, mas existem escolas nos Estados Unidos onde é proibido colocar em uma sala de aula um crucifixo. Por que? Por que ofende aos não católicos? Mas isto deve ser resolvido entre pais e a escola, não cabe ao estado interferir.

Outro exemplo, questão do meio ambiente. Vejo hoje uma intolerância completa contra qualquer um que não tenha a opinião de acordo com que PARTE dos cientistas estabeleceram como fato consumado. Ir contra esta opinião leva a um ataque ao indivíduo e não contra seus argumentos. Querem que aceitemos como verdade o que não é consenso.

Está em tramitação no Brasil uma lei que impede religiosos de citar trechos da Bíblia que sejam ofensivos aos homossexuais. Ninguém é católico, evangélico ou mesmo espírita se não quiser, e estas religiões possuem sim uma opinião contrária ao homossexualismo. Sou livre para discordar dela e seguir vivendo, mas não posso impô-la o que acho correto. Era só o que faltava uma lei ordinária cortar trechos da Bíblia.

Eu tenho verdadeiro horror ao termo justiça social. O que aliás é outro exemplo de falta de liberdade, desta vez na linguagem. Uma afirmação destas nos dias de hoje é confundida com aquele que não está nem aí para os problemas dos mais pobres. Não é verdade, só não aceito este termo como conceito que hoje é uma imenso guarda chuvas para dizer que uma pessoa tem boas intenções. Estamos matando alguns milhares, mas é para obter justiça social!

Cada vez confio acredito menos na social democracia, justamente por colocar mais peso ainda nas funções do estado. Vejo a social democracia como o primeiro passo para a anulação do indivíduo diante do coletivo. Percebo que onde há social democracia está sempre sendo imposto uma lei a mais para regular alguma coisa. Sempre no sentido de mais poder para o estado, a cada dia um pequeno avanço. Sociais democratas querem controlar as pessoas, não acreditam em sua capacidade de tomar decisões e construir a própria vida. Querem impedi-los de errar (pelo menos segundo seus critérios), e não ensiná-los a tomar suas decisões baseado em seus próprios méritos.

Alexandra disse...

Eu tenho que sair agora mas depois volto pra responder. Só digo uma coisa: o Brasil não é um bom exemplo, infelizmente.

E foi só vivendo em uma sociedade justa onde o cidadão comum acredita na justiça social, que eu aprendi a dar valor....