terça-feira, abril 29, 2008

O Niilismo, raiz dos males do homem de hoje

Niilismo, falta o fim; falta a resposta ao "por quê?"; o que significa niilismo? __ que os valores supremos se desvalorizam.


F. Nietzsche

Retomo aqui o prólogo do livro de Giovanni Reale, Saber dos Antigos.

Nietzsche, profeta e teórico do niilismo

Reale defende que os males espirituais que afligem o homem de hoje possuem uma raiz comum: "a cultura contemporânea perdeu o sentido daqueles grandes valores que, na era antiga e medieval e também nos primeiros séculos da era moderna, constituíam pontos de referência essenciais, e em ampla medida irrenunciáveis, no pensamento e na vida."

Nietzsche foi o primeiro filósofo que compreendeu a fundo este ponto e o sintetizou com o termo "niilismo", posteriormente procurou um resultado positivo para esta constatação com sua doutrina da "vontade de potência" mas chegou a um beco sem saída.

O filósofo o fez na forma de um profeta que antevia um futuro próximo que já se mostrava no presente.

Descrevo aquilo que virá: o advento do niilismo (...) O homem moderno crê experimentalmente ora neste, ora naquele valor, para depois abandoná-lo; o círculo de valores superados e abandonados está sempre se ampliando; cada vez mais é possível perceber o vazio e a pobreza de valores; o movimento é irrefreável (...) A história que estou relatando é a dos dois próximos séculos..."


A essência do niilismo

Os pressupostos do niilismo são: "Que não exista uma verdade; que não exista uma constituição absoluta das coisas, uma 'coisa em si'". O niilismo leva à desvalorização e negação dos seguintes princípios:
  1. princípio primeiro, Deus;
  2. fim último;
  3. ser;
  4. bem;
  5. verdade.
A morte de Deus

No livro A Gaia Ciência, Nietzsche traz uma de suas passagens mais eloqüentes sob o título "O insensato".


Não ouviste falar desse louco que acendia uma lanterna em pleno dia e se punha a correr pela praça pública a gritar sem parar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ Mas, como havia ali muitos daqueles que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou uma imensa gargalhada. Perdeu-se como uma criança?, disse um. Esconde-se? Tem medo de nós? Embarcou? Emigrou? Assim gritavam e riam confusamente. O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. ‘Onde foi Deus? – gritou. – Vou dizer-vos. Nós o matamos... vocês e eu! Somos nós, todos nós, que somos os seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando separámos a cadeia que ligava esta terra ao sol? Onde vai ela, agora? Nós próprios, onde vamos? Para longe de todos os sóis? não caimos sem parar? Para a frente, para trás, de lado, de todos os lados? Ainda existe um em cima, um em baixo? Não seremos errantes, como que um nada infinito? Não sentimos o sopro vazio sobre o nosso rosto? Não faz mais frio? Não virão sempre noites, cada vez mais noites? Não é preciso acender lanternas desde manhã? Ainda não ouvimos nada do barulho que fazem os coveiros ao enterrar Deus? Ainda não sentimos nada da decomposição divina?... Os deuses também se decompõem! Deus está morto! Deus continua morto! E fomos nós que o matamos! (...) Nunca houve ação mais grandiosa e, quaisquer que sejam, aqueles que vieram a nascer depois de nós pertencerão, por causa dela, a uma história mais alta que, até aqui, nunca foi história alguma!’ O insensato calou-se com estas palavras e olhou outra vez para os seus interlocutores: também eles se calavam, como ele, e olhavam-no com espanto. Por fim, atirou a sua lanterna ao chão, de maneira que ela se partiu em pedaços e se apagou. ‘Chego demasiado cedo’, disse então, ‘o meu tempo ainda não chegou. Esse acontecimento enorme ainda está a caminho, caminha, e ainda não chegou ao ouvido dos homens. É preciso tempo para o relâmpago e para a tempestade, é preciso tempo para a luz dos astros, é preciso tempo para as acções, mesmo quando são cumpridas, para serem vistas e ouvidas. Esta acção continua--lhes ainda a mais longínqua das constelações; e, no entanto, foram eles que a realizaram!’ Conta-se ainda que este louco entrou, no mesmo dia, em diversas igrejas e aí entoou o seu Requiem ‘Aeternam Deo’. Expulso e interrogado, ele não teria deixado de responder a mesma coisa: ‘O que são, pois, as igrejas senão os túmulos e os monumentos fúnebres de Deus?»


É preciso ter em mente que a expressão Deus é usado pelo filósofo para indicar o mundo supra-sensível em geral. Significa que o mundo supra-sensível não tem força real, não envolve nenhum tipo de vida.

Segundo Heidegger, o niilismo é um pensamento fundamental na história do ocidente, "que seu desenvolvimento só poderá determinar catástrofes mundiais". Não começa só onde o Deus cristão é negado, o cristianismo é combatido, ou onde se prega um ateísmo vulgar baseado no livre-pensamento. A "morte de Deus" significa o desaparecimento da dimensão da transcendência, a anulação total dos valores ligados a ela, a perda de todos os ideais.

A vontade de potência

Para solucionar o problema do desaparecimento dos valores e do mundo transcendente, Nietzsche elaborou a doutrina da vontade de potência.

Os valores passavam a estar relacionados com o aumento da potência daquele que os defende. Deve haver uma transvaloração dos valores, através da sua inversão e o deslocamento dos antigos valores da esfera da transcedência para a esfera da vontade de potência.

A metafísica, a moral, a religião e a ciência são diferentes formas de mentira. O super-homem de Nietzsche renega a todas e coloca em sua própria vontade a base para as estruturas de sua moralidade. A verdade é aquela que o homem consegue impor por sua vontade de potência.

Assim, perdem-se os valores supremos que são transvalorados da esfera transcedente para a esfera imanente da vontade de poder.

O niilismo incompleto

Com a morte de Deus, o lugar que ocupava fica vazio, mas o lugar continua existindo, apenas fica vazio. Esta região do mundo supra-sensível e do mundo ideal pode ser mantida. Desta forma novos ideais são instituídos. Segundo Nietzsche, "isso acontece com as doutrinas da felicidade universal e com o socialismo, com a música wagneriana, ou seja, onde quer que o 'cristianismo dogmático' seja reduzido aos extremos".

Segundo Reale, o estado intermediário do niilismo caracteriza o mal estar de nossa civilização.

Os valores são substituídos pelas máscaras do niilismo assim descritas por Nietzsche: "em nada diferem dos disfarces niilistas dos antigos valores substituídos por novas máscaras multicoloridas, os quais, bem mais do que com o fugaz brilho dourado do ventre da serpente vida, se apresentam como sereias que encantam, e que, vangloriando-se de ser portadoras da salvação ou pelo menos de segurança, representam o perigo de arrastar de forma irreversível para o abismo do nada."

As causas profundas dos males do homem de hoje seriam justamente estes disfarces niilistas dos valores supremos que caíram no esquecimento, que podem ser resumidos nos seguintes itens:
  1. o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;
  2. o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal verdadeiro;
  3. o praxismo, com sua exaltação da ação pela ação e o esquecimento do ideal de contemplação;
  4. a proclamação do bem-estar material como sucedâneo da felicidade;
  5. a difusão da violência;
  6. a perda do sentido da forma;
  7. a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da "escala do amor" platônica (e do verdadeiro amor);
  8. a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;
  9. a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;
  10. o materialismo em todas as suas formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado.


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Now playing: Blood, Sweat & Tears - God Bless The Child
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Um comentário:

Anônimo disse...

É um blog muito interessante,apesar de ser a primeira vez a visitar, mas gostei dos diversos temas que me vão ajudar nas minhas análises.
Obrigado