sábado, abril 19, 2008

Reflexões Autobiográficas

Eric Voegelin

Segundo seu editor, este livro pode ser encarado como uma introdução à gigantesca obra do filósofo alemão, naturalizado americano, Eric Voegelin. E realmente é. Voegelin conta as principais passagens de sua vida e o surgimento de suas idéias nos mais diversos campos.

Só posso ficar sinceramente admirado pelo esforço deste homem em busca da sabedoria, no sentido descrito pelos clássicos. Voegelin dedicou-se durante toda sua vida para estudar, pensar e reformular pensamentos. Sua erudição é espantosa, suas análises profundas. Morreu em 1985, aos 84 anos.

Estados Unidos

Voegelin emigrou para os Estados Unidos em 1938 fugindo do nazismo na Áustria. Admirado pelo espírito de liberdade que vigorava nas Universidades Americanas, terminou por naturalizar-se. Comparando o estudante americano com o europeu, considerava que este possuía formação intelectual mais sólida, com domínio de vários idiomas. O americano possuía o espírito mais aberto para as idéias e uma ligação mais forte com a realidade dos fatos.

Afirmava que um estudante alemão diante de um fato que contrariasse suas próprias idéias, tornava-se agressivo e não admitia a discussão. Mesmos os ideólogos americanos reconheciam a veracidade de um fato, mesmo que contrariados.

A principal qualidade filosófica americana, herdada dos ingleses, era o senso comum, que se traduzia por uma compreensão concreta da realidade, o que muitas vezes é confundido com o pragmatismo. Este bom senso fugia à compreensão clássica de que só seria possível pela elaboração técnica e analítica do homem.

Ideologias

Voegelin foi talvez a principal voz contrária às ideologias, como apresentei neste post. Considerava que uma ideologia só se sustentava pelo divórcio com a realidade através da construção de uma segunda realidade.

A ideologia e seus males ainda seria uma característica dos dias de hoje e sua principal crítica estava na total supressão da relação do homem com o plano divino em suas formulações. Desta forma elas ficavam moralmente livres de qualquer sanção e origem das mais variadas formas de violência. Era o eclipse da dignidade humana em proveito de uma "causa".

Considerava a ideologia incompatível coma a ciência entendida no sentido racional de análise crítica. "Até hoje sustento que não se pode, em hipótese nenhuma, ser ao mesmo tempo um ideólogo e um cientista social competente".

Consciência

Voegelin investigou também quais seriam as experiências formadoras da consciência humana, o que fez através de uma anamnese, uma recordação das experiências da infância. Considerava que a consciência do homem se formava através da participação em diversas áreas da realidade que formariam a existência no mundo. Através do mergulho no próprio passado o homem se abriria para o plano divino da existência.

A experiência não estaria nem no sujeito nem nos objetos, mas no que chamou de Intermediário, um lugar entre a psique e a realidade que circula o homem.

Filosofia da História

Voegelin rejeitava a linearidade da história que a coloca como uma sucessão de eventos lineares entre o surgimento das idéias na antiguidade clássica e o mundo contemporâneo. Rejeitava a comparação da história com um grande rio de idéias, conforme defendido por Hegel. O que se constituía em uma crítica não só a Hegel, mas também à Marx com seu materialismo histórico e a descrição da sociedade como uma luta de classes constante.

O mundo atual era produto de uma série de acontecimentos e idéias que surgiram em diversos pontos do globo simultaneamente e que mantinha paralelos e diferenças.

Refutava também a idéia de que as civilizações eram unidades fundamentais do estudo da história. Estas seriam produtos de processos históricos.

Escreveu sobre a chamada Era Ecumênica, um período da história que se estenderia da época de Zoroastro até a queda do Império Romano. Foi um período em que a compreensão cosmológica da realidade foi substituída por um novo modelo de compreensão, centrado na diferenciação da verdade da existência, por meio da filosofia helênica e, posteriormente, das experiências ligadas à revelação cristã. Esta era caracterizava-se por três fenômenos: (1) arroubos espirituais; (2) arroubos imperiais de concupiscência; e (3) começo da atividade historiográfica.

Entender este período seria essencial para entender o próprio mundo contemporâneo , assim como o período que veio depois, o dos impérios ortodoxos.

Podemos descrever a deformação moderna como uma ortodoxia da alienação que exclui da consciência a esfera mais importante da realidade __ a relação do homem com o plano divino.


Voegelin faz uma descrição do mecanismo psicológico e intelectual da idéia que infesta o meio intelectual: a do Governo Internacional. As ONGs, a Globalização e principalmente a ONU seriam terminologias que escondem o eclipse da realidade; a idéia do ecumenismo é apenas mais uma maneira do homem exercer o domínio sobre o seu semelhante sem se preocupar com as conseqüências morais de seus atos. Motivados pelo desejo altruísta de "um mundo melhor", os mensageiros de ecumenismo vivem somente de uma distração que oculta o terror da existência diante da morte.

Seja por Alexandre, César, Robespierre, Napoleão, Hitler, ou mesmo a ONU, a era ecumênica é uma máscara para solidificação de um Império e para o ilusório poder que o ser humano acredita ter para salvar sua própria alma. Apesar das mudanças nas instituições e regimes políticos existe uma linha constante na história: o Poder sempre aumentou sua força e sofisticou seus meios para escravizar o espírito humano.

Revolução e antiamericanismo

Afirmava que o antiamericanismo dos intelectuais franceses e alemães tinha origem no sucesso da Revolução Americana. Esta tinha caráter conservador e procurou preservar a estrutura cultural da civilização ocidental. Foi uma revolução que trouxe uma sociedade mais aberta, lançando mão do mínimo de violência. Os intelectuais europeus desejam empreender uma revolução própria, inserida na tradição francesa da destruição da ordem cultural.

Voegelin descreve como a maioria dos intelectuais americanos são na verdade antiamericanos, o que não pode ser confundido por comunismo pois em sua grande maioria seriam incapazes de ler e entender pensadores da estatura de Hegel e Marx.

O que de fato houve foi o surgimento de um movimento intelectual desorientado, em parte iletrado, que criou inadvertidamente uma polarização alheia à realidade social americana, e agora deve pagar o preço por sua indiferença às coisas como são.


Argumenta como a grande mídia e os intelectuais americanos influenciaram decisivamente no conflito do Vietnã. Segundo ele, uma vez iniciada a guerra teria que ter um algum desfecho; "abandoná-la simplesmente não era a solução".

Chama a atenção que o principal problema do conflito foi que era uma guerra contra um país totalitário, um grupo firme em suas convicções e disposto a sacrificar até a última gota de sangue em benefício de sua dominação, o que só pode acabar em horrores de destruição física (...)
O governo do Vietnã do Norte não hesitou por um momento sequer em expor o povo vietnamita à destruição da guerra; e, do lado americano, especialmente por meio dos noticiários televisivos, a destruição chegou ao povo como uma destruição perpetrada pelo exército americano.


Voegelin lembra dos bombardeios às cidades alemãs na segunda guerra e foto de serem encaradas com tranqüilidade. A mesma destruição, se perpetrada em um país subdesenvolvido, ainda que em menor escala, despertava horror. "Que esses horrores fosse praticados por ideólogos sectários, e não pelo governo americano, era objeto de indiferença".

Como último pensamento desta resenha deixo este, bastante atual:

Seguramente, hoje nos confrontamos com o poder social arrasador da desonestidade intelectual, que permeia o mundo acadêmico e outros setores da sociedade.

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