segunda-feira, maio 26, 2008

Lendo Deus Caritas Est

I Parte
A unidade do amor na criação e na história da salvação

O amor de Deus por nós é questão fundamental para a vida e coloca questões decisivas sobre quem é Deus e quem somos nós.


Na primeira parte de sua primeira encíclica, Bento XVI retoma à antiguidade clássica para falar do amor, retomando as concepções de Platão e Aristóteles, principalmente sobre a diferença e unidade entre o eros e o agape.

O primeiro refere-se ao amor entre o homem e mulher que não nasce da vontade ou da inteligência, mas de certa forma se impõe ao ser humano. Já o agape é a forma de amor que é privilegiada no novo testamento e que na filosofia grega foi posta quase de lado.

Os gregos consideravam o eros como um inebriamento, a subjugação da razão por parte de uma espécie de loucura divina que o levava ao divino. Muitas religiões produziram cultos da fertilidade como uma forma de união com o divino.

O cristianismo opôs-se não ao eros, mas à sua divinização, pois aí se verificaria a privação de sua dignidade, a desumanização. O eros inebriante e descontrolado não é uma subida ao divino mas uma degradação do homem. Desta forma o eros precisa ser disciplinado e purificado para dar ao homem não um prazer momentâneo, mas uma amostra da beatitude de nosso próprio ser.

Respondendo à Nietzsche que afirmava que o cristianismo tinha envenenado eros, Bento XVI diz: "Isto não é a rejeição do eros, não é seu envenenamento, mas a cura em ordem à sua verdadeira grandeza".

O cristianismo surge com a afirmação do agape, que supera a indeterminação e procura do eros como uma experiência ligada à descoberta do outro, superando um caráter egoístico que existia. Não se trata de buscar a si próprio, a imersão na felicidade inebriante; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renuncia e está disposto ao sacrifício.

Na realidade, eros e agape __ amor ascendente e amor descendente __ nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral.


O eros leva ao agape mas não pode ser abandonado. Não se pode limitar-se sempre a dar, é preciso saber também receber. O amor é uma realidade única, embora envolva distintas dimensões. Quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva de amor.