sexta-feira, maio 23, 2008

Lendo Rumo à Estação Finlândia (III)

Marx e Engels não acreditavam em almejar a glória filosófica ou literária. Acreditavam ter descoberto as alavancas que regulam os processos da sociedade humana, que liberam e canalizam suas forças; e, embora nem um nem outro tivessem talento de orador ou de político, eles tentavam fazer com que suas capacidades intelectuais atuassem o mais diretamente possível na realização de objetivo revolucionários.


Karl Marx entregou-se de corpo e alma ao sonho revolucionário. Liderou a primeira socialista, participou dos eventos da revolução de 1848, exilou-se na Inglaterra. Lá recusou-se a exercer qualquer atividade burguesa, mesmo que isso implicasse em viver na mais absoluta miséria. Sua única fonte de renda era Engels, que obrigou-se a trabalhar como industrial para conseguir dinheiro para os dois.

A relação entre os dois é muito interessante. Ao longo da vida Marx indispôs-se de todos os líderes trabalhistas ou socialistas que conheceu. Era um homem extremamente vaidoso e que não aceitava dividir o papel de pensador socialista.

Com Engels era diferente. Embora tenham quase chegado ao rompimento quando este perdeu a companheira de muitos anos, Mary Burn. A indiferença de Marx atingiu Engels pela primeira e única vez. No entanto, ele realmente admirava Marx e por ter um bom gênio, incapaz de guardar qualquer rancor pelo amigo por muito tempo, acabou retomando a correspondência entre eles.

É através desta correspondência que Wilson vai nos mostrando seu retrato de Karl Marx e todo o processo de gestação que levou-o a escrever O Capital. Foi realmente o trabalho de uma vida, um trabalho que causou imensos sacrifícios à sua própria família. Viu filhos morrerem de fome e falta de cuidados porque não admitia fazer concessões ao mundo capitalista, não poderia receber salário e misturar seus interesses com os da classe que odiava. Acima de tudos estava o orgulha de estar certo.

Marx construiu um modelo de mundo, uma ideologia. A partir deste ponto nada poderia destruí-lo. A verdade tinha que caber dentro de suas construção ideológica. A verdade passava a ser suas próprias idéias, que encontraram sua versão final em sua maior obra.

Em 1883 Marx morreu sentado à sua mesa de trabalho. Engels ainda viveu mais 12 anos.

Aparentemente os últimos anos de vida de Engels foram felizes. Ele ainda caminhava ereto e esbelto, quase com a energia de um jovem, pelas ruas daquela Londres cuja população atomizada o chocara tanto quando ele lá chegara, ainda moço (...) Quando a influência de Marx não estava presente, a bonomia natural de Engels tendia a reafirmar-se (...) os conselhos que dava a diversos grupos, apenas quando lhe pediam, eram cheios de bom senso e moderação.


Por mais que Engels admirasse o colega, após a morte deste passou por um período de libertação, como se eliminasse um fardo que teve que carregar. Defendeu até a morte os ideais socialistas e o nome de Marx, mas era enfim um homem livre.

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