sexta-feira, maio 02, 2008

Lendo Rumo à estação Finlândia

Como judeu, Marx de certa forma permanecia à margem da sociedade; como homem de gênio, pairava acima dela. Sem ter nenhuma das deficiências do proletário em termos de formação intelectual nem de conhecimento do mundo, tampouco era um homem da classe média __ nem sequer um membro daquela elite de classe média na qual acreditavam homens como Renan e Flaubert; e seu caráter não podia ser pressionado pelas ameaças nem pelas seduções da sociedade burguesa. É bem verdade que tinha um caráter dominador, uma personalidade arrogante, anormalmente desconfiada e ciumenta; é bem verdade que era vingativo e demonstrava uma malignidade que nos parece gratuira. Mas, se essas características de Marx nos repelem, devemos lembrar que dificilmente uma pessoa polida e simpática poderia ter realizado a tarefa que ele esta destinado a cumprir: uma tarefa que exigia a fortuidade necessária para repelir ou romper com aqueles vínculos que, por nos envolverem na vida geral da sociedade, limitam a nossa visão e nos desviam de nossos objetivos.


Estou achando muito interessante o livro de Edmundo Wilson; trata-se da história do surgimento do socialismo, desde as idéias de Michelet e a revolução francesa até o desembarque de Lenin na estação Finlândia em 1917 para iniciar os eventos que culminaram na revolução bolchevique.

Wilson centra sua narrativa não nas idéias, mas nos homens que construíram o socialismo, sua influências, os acontecimentos que os marcaram, sua influência. Depois de ler sobre Michelet, Renan, Taine, Fourier, Owen e outros, estou na parte relativa a Marx e Engels. É interessante ter a dimensão humana dos homens que com a força de suas idéias e da escrita conseguiram influenciar a vida de milhões de pessoas no século que se aproximava.

Você começa a colocar o pensamento destes homens dentro de um contexto histórico, compreender suas motivações, tentar penetrar em seus espíritos. O quadro que Wilson pinta de Karl Marx é de um homem totalmente obstinado, resoluto em promover suas idéias, sem fazer concessões. Mais do que isso, queria sair do campo abstrato e influenciar ativamente no destino da humanidade.

Outro ponto interessante é que Marx não era capaz de repetir no plano pessoal a defesa que fazia do ser humano. O trabalhador, o proletário, para ele era uma figura abstrata, um modelo ideal que não encontrava na realidade. Esta teria sido a grande contribuição de Engels, mostrá-lo uma face real para o homem que Marx tanto descrevia. Marx colocou-se como um defensor da humanidade, mas era indiferente ao homem que estava ao seu lado.



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