sábado, maio 31, 2008

Na biblioteca da UNB

Hoje fui com a esposa na biblioteca da UNB; ela para pesquisar bibliografia para sua monografia, eu para conhecê-la.

Na prateleira de literatura brasileira encontrei a primeira obra que estava procurando e dela não mais passei. Trata-se do livro O Século do Nada de Gustavo Corção.

Descobri Corção no curso de Filosofia que fiz ano passado, um curso que foi fruto do esforço de um único professor e com uma caraterística que o difere de quase todos, ou todos, os cursos brasileiros. Não tem orientação marxista, pelo contrário. Está mais ligado ao humanismo integral de Maritain e a volta aos clássicos, principalmente Aristóteles.

Foi um curso livre, montado por este professor de Campinas, e uma das melhores coisas que fiz em minha vida até aqui. Pois fomos apresentados a Corção. Consegui comprar no sebo seu único romance, Lições de Abismo, que já comentei aqui.

Tenho procurado duas obras em particular nos sebos do Brasil afora mas sem muito sucesso. Trata-se de Dois Amores, Duas Cidades e a que encontrei hoje na UNB.

Li a introdução e posso dizer que fiquei embasbacado. Realmente tenho que comer muito arroz com feijão para chegar no patamar de um pensador tão rico, claro e intelectualmente honesto como foi este autor. Pelo menos fiquei contente por um aspecto. Como eu, Corção era Engenheiro, passou a vida ensinando matemática, física, geografia, alheio ao mundo ao seu redor. Aos 42 anos, no fim da década de 30, tomou consciência da humanidade e passou a estudar sobre ela, primeiro por São Tomás e Maritain.

Bem, eu estou com 34! Pelo menos comecei mais cedo que ele, se é que isto é alguma vantagem.

Mas voltando ao que li hoje. Com certeza ei de conseguir este livro. Como visitante não posso pegar o livro na Biblioteca, mas dá para encontrar quem o pegue para mim. Independente disso tenho que tê-lo em minha estante, para consulta constante.

Na introdução ele apresenta o que seria um grande mal de nossos tempos: a infiltração comunista na Igreja Católica provocando o afastamento de Deus. É assombroso. Estou me mordendo para ler o livro propriamente dito.

Para reflexão deixo um trecho que li hoje. Corção marca nele o momento em que o mundo começou a se perder e este momento foi a vitória na II Guerra Mundial. Ele narra o momento em que foi acordado com a notícia que a guerra terminara:

Fiquei em silêncio. E ela repetia com estridência: _ os russos estão entrando em Berlim! Inexplicavelmente respondi-lhe: _ Merda! E no quarto, diante de minha mesa de trabalho e do crucifixo, depois de uma breve oração deitei a cabeça nas mãos e repeti para mim mesmo como quem geme: _ Os russos estão entrando em Berlim. Uma certeza medonha e brutal apunhalou-me: perdêramos a guerra. Ou melhor, perdêramos a paz. Eu sentia o punhal: arretara-se a mais hedionda conjuração de traições. E começava naquele dia de festividade monstruosamente equivocada, uma era de inimagináveis imposturas. Incompreensivelmente, depois de tantos sofrimentos, de tão desmedidos esforços, de tão maravilhosos heroísmos, os povos de língua inglesa, derrotados por si mesmos, pelo liberalismo e pelo democratismo, entregavam ao minotauro comunista dez vezes mais do que a parte da Polônia em razão da qual entrara o mundo em guerra. Singular e cínico paradoxo: para cumprir um tratado e para evitar a partilha da Polônia,a Inglaterra e a frança aceitaram finalmente o ônus de uma guerra mundial contra o pacto germano-soviético; agora, depois da vitória sobre o nazi-comunismo, entregava-se a Polônia inteira ao comunismo que também foi vencido, e que só comparece entre os vencedores no quinto ato da comédia de erros graças a um aberrante solecismo histórico, que nem sequer podemos imputar à habilidade e à astúcia do principal beneficiário. A impressão de uma direção invisível nessa comédia de erros impõe-se irresistivelmente.

Eu ouvia os foguetes. Milhares de bons cidadãos, de excelentes pais de família, de fidelíssimos antinazistas, abraçavam-se, congratulavam-se uns com os outros, convencidos de que finalmente as "democracias" alcançavam a vitória. E eu perguntava: que vitória?

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