quarta-feira, maio 28, 2008

Supremo dividido

Oito ministros do STF votaram até agora no julgamento da pesquisa com células-tronco. Quatro se posicionaram a favor, sem restrições e 4 colocaram restrições à liberação. Nenhum rejeitou por completo a pesquisa.

Parece-me que os ministros estão mostrando que não se trata de uma questão tão simples de se decidir como alguns argumentam. Eu mesmo tenho sérias dúvidas e não consigo assumir uma posição. Mas estão exagerando demais na importância desta definição. Países com pesquisa científica muito mais fortes que o Brasil já estão pesquisando, ao que parece sem sucesso até agora. A decisão do STF, portanto, não vai ter tanta influência assim no avanço científico na área.

O que acho mais significativo é a colocação da questão como um confronto entre religião e ciência. Acho um grande exagero. Não vejo a religião contra o progresso científico, particularmente a Igreja Católica, mas tentando estabelecer limites morais para a pesquisa científica. O que me leva a uma pergunta: é necessário limites éticos para a pesquisa?

Parece-me que sim. Quem poderia estabelecer estes limites? A própria ciência? Não acho possível, achar cientista preocupado com questões éticas é meio que procurar uma agulha no palheiro. Só falam de ética para liberar seus próprios projetos. A razão? É o que muitos filósofos tentam fazer desde Descartes. E até agora só produziu contradições insuperáveis. Resta a religião. Pode ela fazê-lo?

Aí eu acho que depende do que se entende como religião. Não estou falando aqui da estrutura organizada e dogmática das igrejas, mas do entendimento que cada um tem do cosmos, da existência, do sentido da vida. Para mim isto é religião. Por isso aqueles que acreditam no big bang, na vida puramente corpórea que se estingue na hora da morte, são para mim tão religiosos como os cristãos mais fervorosos ao erguer seu altar para a deusa ciência.

Quando Carlos Alberto Direito pediu vistas para elaborar seu voto já foi patrulhado de cara, trata-se de um ministro católico. Por que evidenciar esta ligação? É preciso agora mostrar a religião de cada ministro? Mostrar suas crenças pessoais? Outros três ministros colocaram restrições à pesquisa. E eles? Também foram influenciados por suas crenças religiosas? E os que são a favor? Por que suas ligações não são explicitadas? Será que só se pode ter restrições à pesquisa movido por crenças religiosas?

Acho que há argumentos válidos para os dois lados. Como chegar à verdade? Ao meu ver através do debate, da dialética conforme defendida por Aristóteles. A discussão entre pessoas igualmente interessadas em se aproximar da verdade. Para isso não podem estar abraçados a suas causas, devem estar dispostas a mudar suas opiniões diante de argumentos que lhe pareçam mais lógico.

Chego então a última pergunta: é possível, neste mundo moderno em que vivemos, tomado por ideologias, ter esta discussão?

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