sexta-feira, junho 27, 2008

Em defesa do indivíduo

Do blog Liberdade de Pensamento:



Uma das coisas que me incomoda é o constante avanço do estado sobre o individuo. A cada dia vejo mais uma lei sendo votada, mais um passo nesta direção. Infelizmente é uma tendência mundial.

O Brasil decidiu criminalizar o ato de dirigir após ingerir bebida alcoólica. Li o depoimento de uma médica, em defesa da nova lei, dizendo que como é impossível definir para cada pessoa a partir de que momento o álcool altera sua percepção não há outra saída que não seja proibir qualquer quantidade.

Já dirigir muitas vezes após consumir um pouco de álcool. É claro que beber em excesso altera completamente o motorista, mas até um certo nível tem outras coisas que são muito mais perigosas. O sono é um grande exemplo. Quantos acidentes não são provocados por motoristas que apagam no volante? Ou que simplesmente dão um cochilo, uma “piscada” rápida, o suficiente para provocar um grande acidente?

Estes casos não recebem a mesma exposição do álcool, até porque fica difícil demonstrar que o motorista tinha “apagado” ao volante. Li em algum lugar que uma grande parcela dos acidentes de trânsito ocorrem entre o trabalho e o lar; parece que a rotina, o stress, a pressa para chegar em casa são mais perigosos ainda do que o álcool. Vamos proibir que se utilize o carro para fazer o trajeto entre o escritório e a moradia?

O Brasil é seguramente campeão mundial em acidentes de trânsito. Por que? Que tal um estudo sério comparativo sobre o assunto? O que me chama atenção, no país, é um motorista alcoolizado provocar um acidente com vítimas fatais, ser condenado e até hoje ter cumprido apenas uma noite de prisão. Não, este cidadão não está foragido, está na televisão todas as semanas jogando futebol.

Mais um exemplo de como a constituição de 88 protegeu demais os criminosos e colocou em risco as pessoas de bem. Tivessem mais motoristas presos, seguramente teríamos menos mortos na estradas. Sem falar na irresponsabilidade do estado na conservação das rodovias.

Outro ponto interessante é que combinada com as leis sobre drogas, que descriminalizou o consumo de drogas, temos uma situação que afronta o bom senso. Posso dirigir depois de explodir meu nariz de tanto cheirar pó? Pode. E depois de fritar meu cérebro de tanto fumar baseado? Pode. E depois de uma taça de vinho? Deixa de ser irresponsável rapaz, vai acabar matando alguém!

Nesta semana também ganhou destaque uma lei supostamente em defesa dos homossexuais. Claro que uma lei que têm dois petistas na origem não pode ser boa coisa. A constituição já proíbe a discriminação não só de homossexuais, mas de negros, minorias religiosas, etc. A democracia, como sabemos, é a única forma de organização que consegue conviver com minorias e desigualdades.

A nova lei quer estabelecer o que podemos pensar. Estão indo longe demais. O pensamento é o último refúgio de liberdade de um homem, não pode ser tomado pelo estado. Qualquer pessoa tem o direito de ser homossexual. Eu tenho o direito de ter minha opinião a respeito e mesmo expressá-la, respeitados determinados limites. Não posso incitar um grupo a agredir um homossexual, não posso xingá-lo, mas posso sim dizer o que penso. A constituição me garante esse direito.

Não sou fumante, nunca fui. Mas a lei brasileira sobre o fumo passou de todos os limites. Acho um absurdo aquelas fotos no maço de cigarro. Duvido que exista um fumante que não saiba os malefícios do fumo, não vejo razão para ficar informando o que já sabe. E as crianças? A educação das crianças é dever dos pais em um processo em que participa também a escola e a religião. Pais falham? Falham. Mas o estado não falha também?

Quer dizer que se uma pessoa quiser abrir um restaurante só para fumantes não pode? Por que? É uma organização particular abrindo uma relação com particulares, por que o estado tem que se meter no meio? Por que este ímpeto de tratar o fumante como uma espécie de escória da sociedade?

No fundo destas questões está a crença que o indivíduo não consegue pensar por si próprio, que deve ser o tempo todo conduzido pelas mãos invisíveis do estado. Como o estado não existe de maneira concreta, na verdade existem pessoas estabelecendo esses padrões. Burocratas tentando guiar nossas vidas, mostrar o “caminho da salvação” através das leis e padrões que nos são impostos todos os dias.

Todo ser humano deveria ler duas obras básicas: 1984 e Admirável Mundo Novo. Neste último existe um diálogo genial entre um selvagem __ um homem que foi criado fora do mundo perfeito criado na fábula de Huxley __ e o dirigente deste mundo novo. O dirigente mostra que o mundo é perfeito, que todos trabalham sem se queixar, com um papel definido na sociedade. O selvagem retruca que neste mundo não há amor, não há sonhos a se realizar, não há espaço para a individualidade. Seu interlocutor argumenta que estas coisas, amor, religião, família, são fontes de infelicidade, que desejar a volta delas seria desejar ser infeliz. É quando o selvagem diz uma das melhores frases do livro:

__ Pois eu reivindico o direito de ser infeliz!

Estão tentando tirar do homem o livre arbítrio, o direito de fazer suas escolhas e de errar também. Isso me assusta profundamente. Mais uma vez estamos diante da utopia de construir uma sociedade perfeita sobre a Terra, o que nunca acontecerá, não da maneira que os utopistas sociais sonham.

O caminho para tornar a sociedade melhor está no interior de cada um de nós e só será trilhado pelo auto-conhecimento, e não por imposição de supostos “iluminados”.

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