segunda-feira, junho 16, 2008

Filhos

Reportagem na Veja da semana passada tratou de um assunto que me interessa profundamente, a tendência de muitos casais, particularmente bem sucedidos, em não terem filhos.

São muitas as justificativas para esta decisão: a quantidade cada vez maior de mulheres com emprego integral, o desejo por ter uma vida mais livre para viajar, os diversos problemas com os amigos que possuem filhos, o interesse em manter o padrão financeiro.

Todos estes me parecem investidos em maior ou menor grau de um fator em comum, o egoísmo. Uma vez uma amiga me disse que não desejava ter filhos e, com muita honestidade, reconheceu que com isto estava sendo egoísta. De fato penso assim.

Todas as razões estão corretíssimas. Ter filhos significa que a mulher terá limitações sérias para continuar a trabalhar, pelo menos em tempo integral, que viajar quando quiser ficará mais difícil, que haverá problemas diversos com o crescimento da criança e que obviamente cairá o padrão financeiro, afinal o recém nascido levará anos até ser capaz de ter uma renda.

No entanto, um dia nossos pais fizeram justamente este sacrifício para que estivéssemos vivos hoje. Nunca nos pediram nada em troca, nem poderiam. Podemos negar a dar continuidade á vida mesmo sabendo que estamos aqui hoje porque duas pessoas procederam de forma oposta aos nossos interesses atuais? Será que não devemos a nossos pais, á natureza, a Deus, o dever de continuar com nossa espécie?

Se este princípio, de não ter filhos, fosse generalizado teríamos a extinção da humanidade. Argumentam, mas há pessoas que querem ter filhos! Mas é justo deixar para os outros o que considera uma carga, mesmo que esta pessoa assim o deseje?

Analisando sobre a ótica individual, acredito que ter filhos, mesmo que sejam adotados, é da natureza do homem, é parte da razão de existir. Exceto quando este homem se dedica a uma tarefa em pró da humanidade, com intenso sacrifício pessoal, como Francisco de Assis ou Agostinho. Neste caso haveria um motivo para não ter filhos que é obviamente de natureza diversa do egoísmo.

Um casal á uma família? Acredito que não. Não vejo a família sem a existência dos filhos. Eles são o que de mais nobre se constrói em um relacionamento justamente porque representa a abnegação, a dedicação, o sacrifício pessoal para o bem de nossos passageiros que embarcaram na experiência da existência.

Não esto dizendo com isso que ter filho seja um sacrifício, considero a maior bensão que podemos receber. Mas com certeza envolve sacrifícios, pequenos ou grandes, dependendo de nosso plano de vida. Vale a pena? Afinal serão noites insones, apertos no orçamento, doenças, decisões erradas dos filhos, talvez sofrimento. Vale realmente a pena?

Basta um sorriso de um dos meus filhos, um abraço deles, para dizer com todas as letras: vale. Vale cada segundo que fiquei acordado, que fiquei preocupado, que sofri. Vejo em cada criança o maior motivo para tudo que fazemos nesta vida, para que o mundo continue apesar de todas as nossas mazelas. Vejo em cada criança a certeza da existência de Deus.

2 comentários:

guerson disse...

Durante muito tempo, eu me torturei sobre essa questão (e de certa forma ainda o faço) mas por fim concluí que a questão de ter ou não ter filhos não pode se resumir a esse tipo de julgamento superficial. Existem inúmeros motivos para um casal ter ou não ter filhos - nem todo casal decide ter filhos porque o considera um ato de amor ou dedicação assim como nem todo mundo que decide não ter filhos o faz por motivos egoístas como os selecionados pela reportagem. E não precisa ser St Agostinho ou Francisco de Assis para se qualificar como não-egoísta. Existem muitos pais que não abrem mão de nada ou negligenciam seus filhos e só os têm por pressão social ou até por orgulho mesmo. E existem também casais que decidem não ter filhos por não poderem, ou por não se sentirem preparados, ou simplesmente pq não querem contribuir para a super-população do planeta. Independente do motivo, muitos acabam tendo um impacto maior na vida de amigos, parentes, bairro, e comunidade maior onde vivem justamente por não ter filhos.

É difícil generalizar ou julgar.

Eu acho que ser generoso ou egoísta vai muito além do ato de trazer uma criança ao mundo. Vc é generoso ou egoísta de acordo como vive sua vida e como trata as pessoas ao seu redor. Afinal, existe também o egoísmo da família, como bem avisa o comentário espírita à lei do amor, conforme pregada por Jesus:

"Há algumas pessoas a quem repugna a prova da reencarnação, pela idéia de que outros participarão das simpatias afetivas de que são ciosas. Pobres irmãos! O vosso afeto vos torna egoísta. Vosso amor se restringe a um círculo estreito de parentes ou de amigos, e todos os demais vos são indiferentes. Pois bem: para praticar a lei do amor, como Deus a quer, é necessário que chegueis a amar, pouco a pouco, e indistintamente, a todos os vossos irmãos. A tarefa é longa e difícil, mas será realizada. Deus o quer, e a lei do amor é o primeiro e o mais importante preceito da vossa nova doutrina, porque é ela que deve um dia matar o egoísmo, sob qualquer aspecto em que se apresente, pois além do egoísmo pessoal, há ainda o egoísmo de família, de casta, de nacionalidade. Jesus disse: “Amai ao vosso próximo como a vós mesmos”; ora, qual é o limite do próximo? Será a família, a seita, a nação? Não: é toda a humanidade! Nos mundos superiores, é o amor recíproco que harmoniza e dirige os Espíritos adiantados que os habitam. E o vosso planeta, destinado a um progresso que se aproxima, para a sua transformação social, verá seus habitantes praticarem essa lei sublime, reflexo da própria Divindade."
[O Evangelho segundo o Espiritismo]

Cada um tem a sua missão e para alguns essa missão inclui constituir uma família enquanto que pra outros, não é o caso.

Marcos Guerson Jr disse...

Vejo que considerou minha análise superficial, talvez não tenha me expressado direito mas garanto que é um assunto que pensei com muito carinho e por muito tempo. Não estou julgando ninguém, nem posso. Uma das coisas que Jesus nos ensinou é justamente não condenar.
Não condenar, no entanto, é bem diferente de não opinar. O que fiz neste post foi expor minha opinião sobre a decisão cada vez mais freqüente de casais em não terem filhos. Ao longo dos anos tenho observado este comportamento e tentado levantar as causas desta decisão e os fatores comuns para a maioria dos casos. Nem vou dizer que não sou dono da verdade, ninguém neste mundo é, mas não me abstenho de tentar entender o mundo e emitir a minha opinião sobre o que vejo a minha volta. Acredito que ao opinar estamos trilhando um caminho que pode levar a um entendimento mais seguro da realidade.
Pelo visto temos muitas opiniões divergentes nestes dias o que é bom, teremos sempre pontos de vista distintos e do confronto entre eles podemos melhorar nossas próprias idéias. Uma coisa posso dizer de coração aberto, não sou escravo de minhas opiniões, muito pelo contrário. Estou pronto a abandoná-las ou modificá-las diante de argumentos convincentes.
Uma coisa que precisa ficar bem clara, é que sou um cristão, e isto passa por toda minha visão da existência. Não tenho como dissociar minha fé da realidade do mundo, como se fossem duas coisas distintas, não são. Acredito que a felicidade, pelo menos a completa, não é deste mundo. Estamos aqui cumprindo nossas missões em busca da purificação espiritual; trata-se de um longo caminho e que envolve muitas vidas.
Acredito que criar uma família seja a missão mais importante que temos na Terra, pelo menos para a grande maioria de nós. E esta família passa pela existência dos filhos. Sempre pergunto sobre a decisão de casais em não terem filhos, e na maioria das vezes escuto argumentos que contém em sua origem o egoísmo. Foi isto que discuti neste post.
Acredito sinceramente que a maioria destes casais um dia descobrirá um vazio que não conseguirá explicar. Como se faltasse algo em sua existência, algo que lhe dê mais sentido para a vida. O amor que se sente por um filho é poderoso, insubstituível. É o amor incondicional.
Não defendo aqui que se tenha filhos para atender a pressões da sociedade ou por motivo frívolos. Defendo que as pessoas queiram ter filhos, o que é muito diferente. Se não quer, é melhor que realmente não os tenha.
Nem estou dizendo que a família será feliz por causa da existência dos filhos. Pode acontecer de tudo, até verdadeiras tragédias, mas isso acontece pelas falhas dos próprios membros da família. Acredito que a família é a maior escola que poderemos ter no mundo e nosso maior bem. Acho que sua desvalorização, sua depredação é um exemplo de retrocesso da humanidade.
O argumento da super-população não me convence mais. Não acredito em aquecimento global, em destruição do meio ambiente. Acredito que temos recursos na Terra para comportar todas estas almas, apenas precisam ser melhor utilizados, o que é a razão da existência da economia. Nos anos 70 surgiu com força no mundo a idéia do controle populacional, principalmente nos países pobres, dirigidas por grandes corporações mundiais como Ford e Rockfeller. Utilizavam a pregação Malthusiana para atingir seus próprios objetivos, mas isto é outra estória.
Se o problema em ter filhos é a super-população, por que não adotá-los? Existem muitas crianças abandonadas neste mundo.
No pano de fundo de tudo isso vejo as infinitas possibilidades que a modernidade nos dá. Nunca o homem teve tantas possibilidades para desenvolver sua vida, tantos caminhos diferentes para trilhar. Não há como fazer tudo o que quer, é preciso fazer escolhas. Não é possível trabalhar intensamente, praticar esporte, malhar, fazer curso de pintura, usar internet, ler, assistir televisão, praticar esportes radicais, viajar uma vez por ano, reunir-se com amigos, fazer terapia, participar de grupos de discussão, ter um hobby; enfim, tudo ao mesmo tempo.
A família exige bastante tempo e diminui radicalmente a disponibilidade para tantas coisas maravilhosas que a modernidade nos presenteia. Por isso vejo a decisão de eliminar a família desta equação motivada principalmente pelo egoísmo, pelo desejo de aproveitar melhor este mundo.
Esquecem que com esta decisão estão fechando as portas para que outros possam vir a este mesmo mundo para continuar no processo de purificação. Uma decisão que felizmente nossos pais não tomaram.