sábado, julho 19, 2008

Betto, Veríssimo e... Sócrates!?

Minha esposa me chamou a atenção para este texto que recebeu para a internet. Pesquisando rapidamente pela internet percebi que está reproduzido por toda parte. Em geral referem-se ao texto como lindo, espiritualizado, etc.

O problema é que não se pode dissociar o que foi escrito de quem escreveu. Neste caso trata-se de Frei Betto em parceria com Luiz Fernando Veríssimo. Conhecendo um pouco da parceria destes dois as contradições tornam-se evidentes.

O primeiro faz parte de uma excrecência da Igreja Católica que recebeu o nome de Teologia da Libertação. É uma tentativa de comungar duas coisas absolutamente incompatíveis: o cristianismo e o comunismo. Daí surgiram coisas ainda pior como a tal pastoral da terra que incentiva a invasão de terras e outros atos que podem até ser classificados de terroristas.

Luis Fernando Veríssimo, para quem já tive sincera admiração, é um intelectual socialista, se é que isso é possível. Recusou-se a compreender que o comunismo foi um sonoro fracasso e hoje vive a bradar sua fúria contra seus maiores inimigos, o livre mercado e a classe média. Esta a raiz dos males brasileiros. Esse vagabundo disse ano passado que os que apoiavam o movimento Cansei lembravam os que colocavam Hitler no poder. Não gosto de ser chamado de nazista, muito mais por um comunista, algo do mesmo nível.

Com estas lentes vejamos o que escreveu a dupla Betto-Veríssimo. Em vermelho, é lógico. Eu prefiro escrever em azul.

Do mundo virtual ao espiritual

Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais.

Betto acabou de se descrever. Sua luta é justamente pela virtualização dos valores, que também responde pelo nome de relativismo. Quando ele fala de místico virtual, religioso virtual e cidadão virtual está falando de si mesmo. Como pode um religioso dar seu apoio a gente como Fidel Castro e Che? Betto vai mais longe, é amigo íntimo do moribundo cubano, aquele que foi recusado até pelo capeta.


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: “Qual dos dois modelos produz felicidade?”.

Isso é pura balela de Betto. Seus gurus não são os monges orientais. Vejam que é um "frei" que não fala em Cristo. Não poderia ter dito que existem padres franciscanos serenos e comedidos "em paz em seus mantos cor de açafrão". Betto está tentando usar o fascínio que a cultura oriental causa em muitos para angariar simpatias. Seus verdadeiros gurus são Lenin, Mao, Castro, Marx. A religião é uma arma para fazer chegar sua mensagem. Só. Para ele o modelo que produz felicidade é o cubano.

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não, tenho aula à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde”. “Não”, retrucou ela, “tenho tanta coisa de manhã…”. “Que tanta coisa?”, perguntei. “Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse ‘tenho aula de meditação’!”.

Aula de meditação? Uma menina de 10 anos? Essa menina a deveria estar correndo e brincando com os amigos. Talvez Betto se refira às aulas de meditação nos presídios cubanos. Ou na pregação religiosa de Fidel pela televisão. Isso sim ensina a pensar.

Estamos construindo super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso, as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um superexecutivo se não consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

O que os currículos escolares deveriam fazer é trazer de volta a velha cultura geral que se perdeu em função das disciplinas "sociais". Só assim aprenderão a pensar, e por si próprios. Hoje se ensina nas escolas uma ideologia marxista bem vagabunda pois a imensa maioria dos nossos professores são incapazes de entender uma página do que Marx escreveu.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!”. Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Uma "progressista" cidade? Que diabos é isso? As livrarias diminuíram no mundo todo. Afinal, em 1960 o livro estava isolado como forma de transmitir conhecimento. Hoje existe a televisão, o e-book, a internet. Além disso os livros são encontrados com facilidades pela internet, até mesmo em sebos virtuais. Existe sim uma fixação com o corpo, mais em adultos na faixa dos 30 anos do que em adolescentes. Isso se deve a inversão de valores que gente como Betto ajudou a construir.

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela Internet: não se pega AIDS, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra!

Amiga íntima? Sim, pode-se fazer sexo virtual pela internet. Ao invés de ir para um prostíbulo tem gente que se contenta com uma webcam, evita alguns desprazeres e é mais seguro. Não pega AIDS. Não entendi direito o que Betto, ou Veríssimo, estão querendo. Envolvimento emocional e AIDS?

Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais.

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções – é um problema: a cada semana que passa temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é ‘entretenimento’; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!”. O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede, desenvolve de tal maneira o desejo que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

A televisão não é um problema, é uma conseqüência. Conseqüência do desastroso nível educacional do brasileiro. Não foi a televisão que imbecilizou o brasileiro, foi justamente o contrário. O brasileiro imbecilizou a televisão. Baste ter uma tv a cabo, um pouco de cérebro e mudar o canal. Existe muita porcaria sendo produzida lá fora, mas muita coisa boa também. Porcaria se produz para quem deseja porcaria, cultura para quem deseja cultura. O dia que o brasileiro se interessar por cultura poderemos assistir uma encenação de Hamlet em horário nobre na Globo. Hoje preferem ver novelas.

Não é função da publicidade vender felicidade, e sim produtos. Novamente vale o parágrafo anterior, para um povo sem cultura, e que não dá valor a ela, o estímulo visual é muito mais eficaz.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los aonde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque para fora ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Virar o desejo para dentro? Que diabos é isso? Betto quer que sejamos livres da Globalização, do neoliberalismo e do consumo. Ganha uma bala de coco com a imagem de Lenin quem intuir o que ele está defendendo. Um detalhe, todo bom nazista tinha amizade, auto-estima, elevadíssima por sinal, e ausência de estresse. Desde que os deixassem em paz queimado seus judeus. Querem requisitos indispensáveis para boa saúde mental? Que tal paciência, amor, compreensão, humildade, fé...
Aliás, religioso que não fala em fé me deixa com um cheiro de enxofre...

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Betto pega um exemplo e generaliza; não se enganem é prática corrente do comunismo. Conheço vários shoppings, em sua maioria seguem a arquitetura mais moderna possível. Roupa de missa? O que sabe Betto de missa? Qual a proposta dele? Sujar o shopping e encher de mendigos e crianças de rua? Perguntem ao pessoal das antigas. Antes se ia nas missas na manhã de domingo e passeava-se nas praças da cidade na parte da tarde. Trocou-se praças por shoppings. Não tem nada de religião nisso.


Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s…

Sim, a sociedade moderna caiu no vício do consumismo. Até certo ponto o consumo faz bem para a sociedade, gera empregos, faz a economia girar. O tão mal falado McDonald's é o maior empregador privado do Brasil, o verdadeiro primeiro emprego. O problema é se entregar ao consumo e deixar de cuidar da própria alma. É possível fazer os dois. Eu sou consumista de livros. Qual o mal?

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático”. Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: ‘Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz’”.

Frei Betto citando Sócrates... não podeira realmente morrer sem essa. Sócrates foi uma das maiores almas que surgiu na humanidade e dedicou sua vida a ensinar as pessoas a pensar. Morreu com esta convicção e na defesa de suas idéias. Nunca ensinou a ninguém o que pensar, justamente o que os comunistas, como Betto e Veríssimo, tentam fazer todos os dias.

* Frei Betto é escritor; autor, em parceria com Luis Fernando Veríssimo e outros, de “O desafio ético” (Garamond), entre outros livros.

Ética e Frei Betto? Para mim chega. Melhor ficar por aqui.

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