terça-feira, agosto 12, 2008

Investir em esportes? Quem? Por que?


Sempre que se fala em Olimpíadas surge o consenso que o Brasil precisa investir mais em esportes, que ganhamos poucas medalhas, que Cuba com uma população bem inferior ganha mais medalhas que a gente, etc. Aliás o país caribenho é uma espécie de modelo para muitos, o exemplo de como um governo deve investir no esporte.

Para começo de conversa temos que definir bem que esporte estamos falando. No Brasil se pratica muito esporte, basta ver a quantidade de campinhos de futebol que existe pelo país a fora. Já andei por tudo quanto é canto, mas não vi ainda um vila ou mesmo uma aldeia indígena que não tenha o seu. Se o assunto são as modalidades olímpicas, aí a questão muda de figura.

Grande parte das modalidades olímpicas exigem uma razoável infra-estrutura e recursos para serem praticas. Ciclismo, vela, natação, hipismo, ginástica e outras. A primeira coisa que se precisa definir é o modelo de investimento. Sempre que se fala que o Brasil precisa investir, está implícito quem fará o investimento: o governo. Por governo entenda o nosso dinheiro.

Uma das leis básicas da economia diz que os recursos são escassos e as necessidades são infinitas, o que significa que sempre que se utiliza recursos está se fazendo uma escolha. Cada real que o governo coloca em esportes está deixando de colocar em outro lugar. Como o dinheiro é nosso, deveríamos nos fazer uma pergunta singela: esta é a melhor aplicação para este dinheiro?

Somos um país carente de estradas, esgoto, água tratada, saúde, educação. Justifica utilizar dinheiro público para financiar, por exemplo, uma equipe de pólo aquático? Existe uma mística de que o esporte resolve os problemas sociais, que praticando ginástica olímpica teremos menos bandidos nas ruas. Nunca vi evidência disso, apenas falácias. Não é por falta de uma atividade esportiva que alguém vira traficante.

Outro argumento é que o esporte é benéfico para saúde. Concordo. Mas como ensinava Aristóteles, a virtude está no justo meio. O esporte em excesso pode fazer muito mal a saúde. Existe esporte em excesso? Existe. Esse papo todo de superar a si mesmo pode levar a lesões sérias, algumas vezes à morte.

Se o objetivo da política de esportes é ganhar medalhas olímpicas, deixa de estar relacionado à saúde. Entramos na área do chamado alto rendimento onde os próprios limites são constantemente superados. Por que o governo deveria investir nosso dinheiro nisso? Apenas uma minoria da população chega a este nível, para inspirar e dar alegrias ao povo? Quantas pessoas, além de mim, ficam horas na frente da televisão assistindo judô? E ginástica? Vela?

Gostam de citar Cuba como exemplo. Quanto os cubanos sofrem para financiar suas equipes olímpicas? Quantas pessoas estão praticando esportes em Cuba por ter seu talento como única forma de sobreviver um pouco mais decentemente do que a maioria? Isto é modelo? Só se for um modelo bastante perverso.

Vejam os atletas chineses. Parecem mais autômatos. São retirados das famílias para treinar desde os cinco anos de idade. Visitas, só nos fins de semana. Estas crianças possuem infância? Treinando 4 horas por dia? 6 horas? É mais uma aplicação da engenharia social; precisa-se de atletas, vamos fabricá-los!

O melhor modelo que vejo ainda é o americano. O grosso do investimento em esportes sai da iniciativa privada; Universidades, clubes (franquias), empresas. Além disso existe uma cultura voltada para o esporte, parte de uma sociedade que valoriza enormemente o mérito, a busca da vitória. Daí vem o espírito competitivo que colocou os Estados Unidos como maior potência do globo.

Cuba ganha medalhas, mas existe um país miserável sustentando o esporte como forma de propaganda do regime marxista da ilha. O indivíduo é apenas uma parte do aparato estatal de projeção de poder. Se um garoto americano com 2 metros de altura resolver jogar futebol, ele vai. Em Cuba não, será colocado em uma equipe de vôlei. É o triunfo do coletivo abstrato sobre o indivíduo concreto.

O esporte de alto nível é uma das atividades mais lucrativas do mundo, basta ver as empresas envolvidas com uma Olimpíadas; não vejo razão para colocar dinheiro público. Argumentam que o esporte no Brasil não consegue sobreviver sem o Estado. Será que não tem alguma coisa a ver com o governo extorquindo metade da riqueza gerada no país? Um país que ainda convive com a dengue não pode estar pensando em ganhar medalhas olímpicas.

4 comentários:

Alexandra disse...

Eu concordo 100% que um país como o Brasil, onde faltam tantas necessidades básicas, talvez investir milhoes em um time olimpico não seja uma boa.

Por outro lado, eu acho que investir em esporte de base não seria uma má escolha. Mesmo que a criança não se torne uma atleta olímpica, a prática de um esporte não só é saudável físicamente mas ensina muitos valores a jovens e crianças como disciplina, auto-superação, e, porque não, a lição de que se vc investir em si mesmo, vc pode chegar lá, que é uma lição que muitas crianças carentes não chegam a aprender. Uma criança como o nosso afilhado Rafael, por exemplo, teria se beneficiado muito de uma prática esportiva competitiva. E quem faz parte do ambiente desportivo acaba fazendo amizades dentro do meio e evitando estilos de vida nocivos. Isso tudo pode reverter num bem pra sociedade em geral e até mesmo em dividendos financeiros já que tendo uma qualidade de vida melhor, essas pessoas custarão menos ao sistema de saúde.

O Alan é um bom exemplo disso - ele começou a nadar competitivamente depois que parou de fumar e aos poucos os amigos passaram a ser todos desse ambiente mais atlético - nas horas vagas, pra relaxar, o passa-tempo preferido dessa turma era andar de bicicleta (e quando saíam era pra um "passeiozinho" de 100-200km), correr, patinar, e no inverno esquiar e outras atividades de inverno. Os amigos que ele tinha antes, sedentarios e de vida mais bohemia, hoje estão todos doentes, com problemas de saúde sérios, tomando mil remedios, e alguns já morreram. Enquanto que nessa turma mais "esportiva", o Alan tem muitos amigos na faixa dos 50, 60, até mesmo 90 anos, com energia, saúde, e que mesmo quando ficam doente, se recuperam mais rápido e portanto custam muito menos ao sistema de saúde.

Eu via isso com crianças e jovens também. Em Pointe-Claire, onde morávamos, haviam inúmeros programas esportivos para crianças de todas as idades, a maioria subsidiados pela prefeitura ou mantido por voluntários, o que os tornavam acessíveis a todos e não só àqueles com dinheiro. Os cidadãos não se importam de ver parte de seus impostos gastos com isso pois acham que é para o benefício da sociedade. Por outro lado, educação, saúde, e necessidades básicas são garantias básicas aqui portanto há menos problemas em fazer escolhas desse tipo.

O problema no Brasil não é nem as escolhas e prioridades. O grande problema é a corrupção e a falta de profissionalismo e solidariedade. Se todo o dinheiro nos cofres públicos chegasse onde deveria chegar e os funcionários públicos fossem mais profissionais, as coisas seriam bem diferentes.

Marcos Guerson Jr disse...

Concordo plenamente com o investimento em esporte de base, apenas mudaria o "mesmo" que usou em sua frase. Usaria a palavra "independente", ou seja, independente de se tornar atleta olímpico. Aliás, acho que o estado nem deveria se preocupar com isso, apenas em dar oportunidade para a prática esportiva como forma de desenvolvimento do caráter e prática da saúde.

Sobre seu último parágrafo eu descordo.Temos corrupção e falta de profissionalismo como disse, mas isso não é tudo. Fazemos escolhas muito ruins na aplicação de recursos e a educação é a área onde o problema é mais gritante. Nenhum país tem a desproporcionalidade de investimento que temos quando comparamos os recursos para o ensino universitário com o básico. Para piorar não existe indicadores de desempenho na educação para orientar a utilização de recursos. É uma combinação que leva a este paradoxo em que a Universidade é gratuita para quem teve boa educação fundamental (os mais ricos). É um modelo de perpetuação da pobreza a concentrador de renda. Quem nasceu pobre tem muito menos chances de melhorar sua situação.

guerson disse...

Pois é, houve um momento, acho que no governo FHC, em que começaram a fazer reformas do ensino básico e medio e eu pensei que haveria uma luz no fim do tunel. Mas nada..

Vc tem toda razão. A desproporcionalidade é gritante. Por essas e outras que eu acho que as universidades públicas tinham que cobrar mensalidade. Todo o sistema - desde o nível de ensino das escolas públicas até o método de seleção nas universidades - propaga a perpetuação da pobreza, como vc disse.

Não adianta nada investir em ensino superior se o básico é insuficiente.

Carlos Eduardo Leandro disse...

Quando tivermos maior transparência na aplicação dos recursos e consequente maior controle da distribuição dos valores investidos em cada esporte, certamente teremos um resultado mais expressivo em termos de crescimento no ranking esportivo mundial. Fisicamente e tecnicamente em boa parte dos esportes olímpicos, temos uma condição de evolução sem igual e matéria prima de elevadíssimo grau de competência, por isso mesmo, posso afirmar que o que falta a nosso país é como em diversas áreas da nossa sociedade, maior controle e acompanhamento do crescente investimento no esporte.Quando conseguirmos chegar a esta realidade, certamente veremos um crescimento significativo em resultados em todos os esportes e com isso um maior interesse da iniciativa privada neste investimento, já que notoriamente, o investimento ao esporte, agrega de forma incomparável a impactação da imagem da empresa patrocinadora, em diversos canais de mídia, superando muitas vezes até mesmo a impactação das mídias tradicionais, como trata o Portal Cotação do Esporte que exemplifica em sua página esta realidade.