quinta-feira, agosto 28, 2008

Ética e contos de fada

Já expliquei que os contos de fadas sedimentam em mim duas convicções: primeiro, de que o mundo é um lugar fantástico e surpreendente; segundo, de que diante dessa loucura e prazer nós deveríamos ser modestos e submeter-nos às estranhas limitações de uma bondade tão estranha.


Chesternton defendia que uma fonte valiosa para a ética seria justamente os contos de fadas. Por serem uma criação coletiva que sobrevivia ao passar do tempo, teria mais valor em termos de sabedoria do que os imensos tratados de homens isolados.

Nos contos de fadas o mundo é descrito como algo maravilhoso, o que corresponde à realidade. No entanto, este mundo possui limites, muitas vezes inexplicáveis, que precisamos nos ater a fim de evitar destruí-lo.

Em Cinderela, por exemplo, a jovem recebe de uma fada madrinha cavalos, roupas, carruagem; recebe também uma advertência, deveria retornar até a meia noite. Cinderela não pergunto por que, nem a Fada acha necessário explicar. Quantas vezes presenciamos esta cena em nossas vidas? O benefício vem com um alerta, um limite.

Outro exemplo é o sapatinho de cristal. Na verdade o cristal em si. Quantas vezes nos deparamos com o cristal em contos de fadas? Sapatinhos, castelos, palácios. O cristal é um objeto de grande duração, capazes de atravessar séculos, desde que não seja mexido pois é facilmente quebrável. Quantas vezes nos deparamos com situações maravilhosas mas sabemos que não podemos cair na tentação de experimentar seus limites? Que a mágica poderá ser desfeita em um simples gesto impensado?

A bela adormecida recebe quando nasce várias dádivas, assim como nós; recebe também a certeza da morte. Em a Bela e a Fera aprendemos que devemos amar antes que o objeto de nosso amor se torne amável.

Os contos de fadas nos aproximam da mágica da existência e ao percebemos sua criação passamos a entender que existe um criador. Não podemos explicar o mundo, mas devemos reverência a ele. Compreendendo que a mágica possui um sentido, compreendemos que deve existir alguém que lhe dê origem.

Os contos de fadas nos ensinam limites. Nossa vida está recheada deles e é justamente as pessoas que não aceitam estes limites que pavimentam o seu caminho para a infelicidade. Acredito que seja isso que Chesterton tenha tentado dizer e concordo inteiramente com ele. Não acredito em ética dissociada da idéia da divindade, é isso que tento ensinar aos meus filhos. Descobri que existe um motivo para gostar tanto dos contos de fadas; é bom refletir seriamente sobre todos eles.

Um comentário:

Anônimo disse...

No começo pensei que voce iria criticar os contos de fada! é uma idéia interessane mas poderia ser mais aprofundada pra valer a pena a leitura

abraço!