quarta-feira, setembro 17, 2008

O Império da Lei

Uma das melhores séries que já assisti foi Everwood. Contava a estória de um médico famoso que ao perder a esposa percebeu que nada mais o ligava aos próprios filhos, que era um estranho em sua própria casa. Tentando achar um sentido para sua vida, muda-se para uma pequena cidade gelada em busca de um recomeço.

Não assisti todos os episódios, mas comprei-os recentemente e tornou-se um programa familiar para nós. É um momento que juntos assistimos os episódios e refletimos um pouco sobre nossas próprias vidas. Eu e minha esposa nos vemos em vários dramas que são retratados mas é especialmente meu filho que fica mais empolgado com a série. Funciona como uma terapia para todos nós.

Hoje assistimos um episódio em que o outro médico de Everwood é impedido de continuar clinicando. Durante um tempo dividiu seu consultório com a irmã, também médica, que estava com AIDS. Esconderam dos pacientes esta situação mas eventualmente a situação ficou conhecida e os pacientes se revoltaram. Ela abandonou a clínica e acabou indo embora da cidade.

Quando tudo parecia resolvido veio a surpreza. A seguradora do médico não iria continuar com ele pois temiam que se um paciente contraisse a doença poderia processá-lo. Logo ficou evidente que nenhuma outra seguradora o cobriria; sem seguro foi obrigado a parar de clinicar.

O Estados Unidos tornou-se um prisioneiro do Império da Lei. Praticamente toda ação humana pode resultar em um processo. Um médico pode salvar a vida de um paciente em uma operação de risco e mesmo assim ser processado por ter arriscado um procedimento qualquer. Cliente que derramou café em si mesmo pode processar o estabelecimento pela bebida estar quente demais.

A lei deixou de ser um proteção ao indivíduo e a sociedade para tornar-se um meio de conseguir algum objetivo. Não precisamos ir longe, conheci gente que ficou feliz em ter um vôo cancelado porque ganhou uma oportunidade de abrir um processo e ganhar uma indenização. Esta mesma pessoa se gabava de ter mais dois processos em andamento.

Direito? Pode até ser. Mas até onde estes direitos não acabam por prejudicar toda uma coletividade? Até onde este direito vai além de uma reparação e torna-se uma forma de obter ganhos?

O aperto de mão e o compromisso de boca estão desaparencendo. Alguns defendem que trata-se de uma evolução da sociedade. Não sei. Parece-me mais que estamos recuando no tempo. Não vejo com bons olhos uma sociedade onde o que vale é uma assinatura com mais duas testemunhas.

Advogados ativistas, não raro espertalhões, passeiam por hospitais e funerais distribuindo cartões procurando clientes e causas. Uma vez vi um filme que um advogado pulava de um taxi diante de um acidente de carro para oferecer seus serviços. Parece que nada é mais importante na sociedade comtemporânea do que os códigos legais.

O grande problema, a meu ver, é que esta sociedade trata as leis como código moral, o que absolutamente não é. Estamos abandonando as tradições, as verdadeiras fontes de moralidade, por acordos estabelecidos por nossos representantes. Não vejo evolução nisso, vejo exatamente o contrário, vejo a queda.

3 comentários:

guerson disse...

Isso é mais uma das consequências do triunfo do individualismo, que quando levado ao extremo como é levado nos EUA, acaba ferindo o próprio indivíduo.

é a lei do cada um por sí...

guerson disse...

PS: eu e o Alan éramos fãs do Everwood também.

Marcos Guerson Jr disse...

Triunfo do individualismo? Onde? Vejo exatamente o contrário, o indivíduo como prisioneiro das estruturas que foram criadas na sociedade.

O que vejo no mundo, e nos Estados Unidos também, é a submissão do indivíduo. O poder do estado e dar organizações civis (ONG, entidades de classe, sindicatos) aumenta cada vez mais em detrimento da individualidade. Isso começa pela submissão do pensamento, conforme descrito por Ortega em "A Rebelião das Massas" e Olavo de Carvalho em "O Imbecil Coletivo".

A expansão do "politicamente correto" é um grande exemplo de mordaça de pensamento através do controle da linguagem.

Condeno o individualismo como forma de pensamento em que as outras pessoas tornam-se sem importância, mas defendo a liberdade individual para acertar e, principalmente, para errar. Em qualquer caso deverá arcar com as conseqüências do seus atos.

Veja o caso que citei. O médico tornou-se refém de uma estrutura em que o legalismo o tornou dependente das seguradoras. Sem seguro, sem profissão. Onde está o triunfo do individualismo?

O grande problema continua sendo a falta de valores morais de boa parte da sociedade, e vejo esta situação piorando cada vez mais. Quando pessoas entram na justiça para conseguir ganhos estão demonstrando justamente esta falta de valores o que no fim acaba prejudicando pessoas como o Dr Abbott da estória.