quarta-feira, outubro 08, 2008

Contos de Machado de Assis

Volume 1: Música e Literatura
Organizado por João Cezar de Castro Rocha

Confesso que nunca tinha lido um conto do Machado. Sempre esteve claro para mim que tratava-se de um romancista, o que evidentemente, vejo agora, estava errado. Machado era também um gênio como contista e este livro é uma boa amostra de seu talento.

Castro Rocha organizou os contos por afinidade de temas e em ordem cronológica. Esta ordem é de fundamental importância neste primeiro volume, que apresenta contos tendo em comum a visão de Machado sobre as artes. Esta importância se deve à visão que o autor tinha das artes, o que fica bem evidente em alguns contos deste livro.

Em "Habilidoso", Machado conta a estória de João Maria, um pintor que desde criança experimentou o sonho de ser reconhecido por sua arte. Sempre escutara dos parentes e amigos a frase que marcaria sua vida: João Marinho é muito habilidoso. E aqui o autor faz uma importante distinção:

Toda arte tem alguma técnica; ele aborrecia técnica, era avesso à aprendizagem, aos rudimentos das coisas. (...) A cor apropriada era uma questão dos olhos, que Deus deu a todos os homens; assim também a exação dos contornos e das atitudes dependiam da atenção, nada mais. O resto cabia ao gênio do artista, e João Maria supunha tê-lo.


Machado estabelece aqui o paradoxo entre o habilidoso e o artista. Não basta o talento, o artista tem que ser também um operário, tem que estudar muito para produzir arte. Trata-se de ponto de vista semelhante ao que li há algum tempo de Mario Vargas Llosa em Cartas a um Jovem Escritor. É preciso muita dedicação para ser efetivamente um artista.

Outra questão tratada aqui foi da confiança em si mesmo. João Maria era avesso à aprendizagem porque julgava conhecer tudo, tinha confiança em sim mesmo. Chesterton sustentava que esta era uma atitude fatal em um homem, todos os maus escritores, maus poetas, maus pintores a tinham; todos confiavam em si mesmos.

João Maria atravessa a vida tentando expor sua "arte" mas termina reproduzindo incessantemente uma pintura da Virgem Maria. No fim, termina a estória pintando em um pequeno apartamento em um beco observado com atenção por quatro meninos que passabam. O fecho do conto é uma obra de arte:

Que este é o último e derradeiro horizonte de suas ambições: um beco e quatro meninos.


Por isso a ordem cronológica é importante neste volume. Podemos acompanhar como Machado foi ao longo da vida polindo seu estilo para ser o grande escritor brasileiros, soube aliar seu talento com a técnica para produzir arte.

No primeiro conto do volume, Aurora sem Dia, temos a estória de um jovem que julgava-se talentoso na poesia. Mais um habilidoso. Confiando inteiramente em sua inspiração produzia versos em série. Um amigo de seu pai, o Dr Lemos tentou alertá-lo:

O Dr. Lemos disse-lhe com franqueza, que a poesia era uma arte difícil e que pedia longo estudo; mas que, a querer cultivá-la a todo o transe, devia ouvir alguns conselhos necessários.

A resposta do jovem foi clássica: Poesia não se aprende; traz-se do berço.

Como João Maria, fracassa como artista. Termina sua vida com uma roça quando desperta anos depois ao confrontar-se com seus próprios versos em um debate político. Nas próprias palavras do jovem:

Descobri que não era fadado para grandes destinos. Um dia leram-me na assembléia alguns versos meus. Reconheci então quanto eram pífios os tais versos; e podendo vir mais tarde a olhar com a mesma lástima e igual arrependimento para as minhas obras políticas, arrepiei carreira e deixei a vida pública. Uma noite de reflexão e nada mais.


Outra conflito interessante em alguns contos é entre os sonhos de grandeza e a realidade. Em O Programa Romualdo, inspirado por um professor, estabelece para ele um projeto de vida, um projeto de grandeza. Este projeto o leva a desprezar as chances que teve ao longo da vida para agarrar-se à espectativa de um dia ser um homem famoso. No fim compreende que seu programa atrapalhou seus sonhos por ter pretendido demais.

Mas achou os filhos à porta da casa; viu-os correr e abraçá-lo e à mãe, sentiu os olhos úmidos, e contentou-se com o que lhe coubera.
Genial, não?

Em Um Homem Célebre temos a estória de um homem que conseguiu sucesso e fama; uma crítica mordaz à cultura popular. Pestana sonhava em compor uma grande ópera, um clássico como Bach, Mozart. Noite após noite ficava à frente do piano mas não conseguia transformar em arte o imenso talento que tinha e frustava-se. Ao mesmo tempo compunha polcas que eram sucesso absoluto na cidade tornando-o reconhecido. Machado já previa a invasão da cultura popular; troque a polca por algo mais moderno, digamos o aché, e temos o retrato de nossos dias.

Um dos motivos que Machado foi um grande escritor está justamente na sua capacidade de ser superior ao seu próprio tempo e suas fronteiras. Todos os contos deste livro poderiam se passar em Londres, em Madrid, em Los Angeles. Poderiam ser situados no início do século, nos dias de hoje, não importa. Os conflitos explorados por Machado são atuais por serem eternos, por serem próprios da natureza humana.

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