sábado, outubro 04, 2008

Contra o Consenso


Reinaldo Azevedo
Editora Barracuda, 2005

Este livro é uma reunião de vários artigos do agora blogueiro sobre a cultura brasileira da época em que escrevia nas revistas Bravo! e República. A maior parte do livro trata da opinião de Reinaldo sobre a literatura, principalmente a de língua portuguesa mas sobre ainda espaço para o cinema e a intelectualidade brasileira.

Ao contrário do título, nem sempre o autor vai contra o consenso. Autores como Graciliano Ramos, Machado de Assis, Camões, Fernando Pessoa, Mário Faustino são apresentados sem reparos. Outros como Guimarães Rosa, Drummond, Monteiro Lobato sofrem algumas críticas. Existem ainda os que são tratados como autênticos charlatões como o Marques de Sade.

Achei especialmente interessante os seguintes pontos que levanta:
  1. A importância de Ariano Suassuna na prosa com seu livro Romance d'A Pedra do Reino, de certa forma ignorado pelos professores de literatura no país. Fiquei extremamente curioso em ler o livro.
  2. O Primo Basílio é muito superestimado. Para Reinaldo trata-se de uma obra menor, até mesmo uma obra fraca de conteúdo. Eça teria em Os Maias seu trabalho genial, normalmente ofuscado, injustamente, pelo anterior.
  3. As críticas ao concretismo que tomou conta da poesia brasileira. Os poetas se tornaram preguiçosos e Drummond teria sido um dos exemplos desta atitude. Reinaldo tem particular admiração pelos poetas exigentes que seguem as regras clássicas ao elaborar seus versos.
  4. A crítica ao cinema de autor e ao divórcio do cinema como entretenimento, este particularmente no Brasil. Os autores brasileiros se perderam na fixação de fazer do cinema uma redenção política e social do país. Um dos autores mais criticados é Walter Salles e seus Central do Brasil e Diários de uma Motocicleta, este a apologia a um assassino.
  5. A caracterização brilhanto do anti-americanismo que tomou conta da intelectualidade brasileira a ponto de termos hoje mais comunistas em São Paulo do que em Pequim. O pensamento foi descrito por ele como o recalque do oprimido.
O livro consiste nas opiniões sinceras de um crítico sempre atento aos detalhes e com coragem suficiente para discordar de trabalhos que são objetos de consensos. Mais do que a natureza de suas críticas, o que fica evidente é a pobreza da crítica cultural brasileira que examina com superficialidade as obras produzidas. Lendo Reinaldo Azevedo percebe-se a importância de uma bagagem cultural para poder analisar com honestidade intelectual. Na maioria dos casos temos críticos ignorantes que se limitam a julgar sensações diante de um trabalho.

Uma vez Reinaldo escreveu em seu blog que para cada frase sua existe um livro em sua estante. Nossa intelectualidade possui muitas opiniões, mas embasamento e cultura é outra estória.

Artigos de Paulo Francis civilizam mais do que tudo que a Academia escreveu, a seu tempo, sobre literatura, música, teatro ou cinema.

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