terça-feira, outubro 14, 2008

A imitação do Amanhecer II.11

E a História é isso, um recobrar-se à contraluz,
uma aquarela de perfil, retroativa,
tendenciosa e surpreendente porque viva
ainda, ou talvez ainda mais, no avestruz
que liberta a cabeça do areal e conduz
o instante que passou à cena remissiva.
Nesse voltar-se atrás para existir eu pus,
como tu, minha fé também, que a sempre-viva
do amor também é história, Alexandria, e são
duas breves metades o que foi e o que é.
O palmeiral do ser vai secando de pé,
olhando para trás seus leques secos vão
resumindo a avenida atravessada, e até
que o tempo vire espaço e a vida é essa atenção.



Este poema faz parte do livro A Imitação de Amanhecer, do poeta Bruno Tolentino.

Confesso que estou apanhando bastante, mas persistindo no esforço de entender o pensamento de Tolentino. Por que este esforço? Por que, noite após noite, insistir em ler algo que não consigo entender direito? Ora, justamente para ampliar minha capacidade de interpretação, para superar minhas próprias limitações.

Este poema foi um que consegui pelo menos chegar no nível de refletir sobre ele e chegar a algumas conclusões. Trata da história e tem sua idéia central na existência sobreposta do passado com o presente.

Na história temos acesso ao nosso passado, mas nossos olhos estão no presente, em nossa realidade, nossa vivência. Por isso logo de cara o poeta fala em 'tendenciosa'. Quem descreve a história está sujeito a seu próprio pensamento, a suas próprias crenças, por isso acaba produzindo um texto tendencioso. Pode ser em maior ou menor grau, mas mesmo assim tendencioso. O historiador conduz "o instante que passou à cena remissiva", depois de ter levantado a cabeça de seu areal que pode muito bem ser seu estudo, seus livros, suas fontes.

Por isso a história tem duas metades, o que foi e o que é. Estamos permanentemente reescrevendo nosso passado, seja através de novas descobertas ou simplesmente pela mudança de pensamento dos historiadores.

Com o passar do tempo as folhas vão secando. Seria o conhecimento histórico se solidificando? Seria o consenso chegando? Não estaria Tolentino defendendo que existiria sim um momento em que conheceríamos a verdade nos acontecimentos históricos e nessa hora o tempo se transformaria em espaço.

Ou seria nossa própria vida e nosso própria velhice mostrando nosso passado, as marcas da nossa existência.?

O último verso termina com "a vida é esta atenção". O que quis dizer? Talvez nossa vida seja a assimilação e entendimento de nosso próprio passado através de nosso viver no presente, nossa busca pelo conhecimento e pelo entendimento. Estaria ele dizendo que é através da busca da verdade no presente que chegaríamos à verdade no passado?

Vejam quantas reflexões e dúvidas 14 versos de um soneto conseguem despertar? Volto a pergunta inicial: por que me esforçar tanto para ler um livro que pouco compreendo? Por que no breve instante que julgo penetrar nos mistérios de Tolentino sinto uma emoção genuinamente humana, a de estar crescendo em sabedoria.

Ao contrário do que nos querem fazer crer, o saber é uma razão bela para se viver, uma razão bela para viver a vida. Em O Banquete, Sócrates através de Platão, ou vice versa, nos faz ver que nem toda sabedoria nos é possível, pois ela pertence aos Deuses, mas temos o suficiente para trabalhar.

Este poema já valeu todo o esforço de semanas. Este é Bruno Tolentino.

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