quinta-feira, outubro 30, 2008

O Mercador de Veneza

Eu levo o mundo como o mundo é, Graciano; um palco, onde cada homem tem o seu papel, e o meu é triste.


O Mercador de Veneza é uma das comédias do grande dramaturgo inglês e mais um painel das características humanas. Retrata amor, discórdia, disputa, justiça, vingança, misericórdia, amizade e tantos outros temas tão caros a Shakespeare.

No meio da comédia, um personagem trágico. Shylock é o estereótipo do judeu de sua época, um homem que vivia de emprestar dinheiro e cobrar juros, algo que na época, e até mesmo nos dias de hoje, causava repulsa. Em determinado momento, ele procura justificar a cobrança de juros utilizando passagens da Bíblia. Antônio, um mercador, avisa.

Note bem, Bassânio, o seguinte: o diabo sabe citar as Escrituras para os seus próprios fins. Uma alma perniciosa que apresenta testemunho sabrado é o mesmo que um cafajeste com um sorriso na cara, uma maça bonita podre por dentro. Ah, que bela fachada tem a falsidade!


Vejam que atualidade! Quantos não usam o texto sagrado para justificar o injustificável? Edir Macedo não conseguiu citar Eclesiastes para justificar o aborto? Por vezes nos deparamos com pessoas sem caráter, mas que nos dizem coisas que nos parece coerentes. Agora é Bassânio que nos adverte:

Não gosto nem um pouco de palavras justas na mente de um canalha.


Novamente Shakespeare aborda o romance, com um heroína clássica que para ser conquistada, seu pretendente tem que resolver um enigma. A forma como Pórcia se refere a seus pretendentes é de uma ironia sem igual. Acaba arrebatada por Bassânio e revela seu amor nas com estas lindas palavras:

Detesto seus olhos! Porque me enfeitiçaram e me dividiram: uma metade minha é sua, e a outra metade é sua... quero dizer, minha. Mas, se é minha, é sua e, portanto, sou inteira sua.


Outro tema que Shakespeare explora é a vingança e seu oposto, a misericórdia. Shylock é um homem maltratado pelo mundo, uma vítima de preconceito. No entanto sua pessoa corresponde ao esteriótipo que fazem dele. É um judeu mesquinho, que considera o dinheiro mais importante que a própria filha, incapaz de ser tocado por qualquer sentimento de amor que não seja por suas posses. É além de tudo um vingativo e tenta levar até o fim o desejo de vingança em relação a Antônio.

Pórcia, disfarçada de um doutor da lei, ainda o adverte:

A misericórdia é uma virtude que não se pode fazer passar à força por uma peneira, mas pinga como a chuva mansa cai dos céus na terra. É duplamente abençoada: abençoa quem tem compaixão para dar e quem a recebe. (...) Portanto, judeu, embora o cumprimento da justiça seja a tua argumentação, considere o seguinte: no cumprimento da justiça, nenhum de nós vai encontrar a salvação. Nós lhe suplicamos por misericórdia, e essa mesma súplica ensina-nos a todos que devemos praticar a misericórdia.


Há muito mais neste texto do bardo. É uma comédia, mas também um convite à reflexão. É para ser lido com carinho e sem pressa, meditando em cada palavra, em cada pensamento. Mais uma coleção de retratos da alma humana.

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