quarta-feira, outubro 29, 2008

O Sapato Vermelho

Zé Luís conversava animadamente. Acabara de deixar o Aeroporto do Galeão, agora Tom Jobim, onde fora apanhar a esposa e os sogros. Camila passara duas semanas em Miami junto com os pais, que há anos sonhavam em conhecer a Flórida. Fora uma viagem exaustiva, mas enfim chegaram todos.

Zé estava com um excelente humor. Contava detalhes sobre o período longe da esposa, perguntava sobre Miami, queria ouvir novamente o que já escutara ao telefone. Camila não se fazia de rogada e despejava estórias para o marido.

Já era noite, um belo sábado no Rio de Janeiro. O trânsito fluía, logo estariam em casa. Comeriam uma pizza, abriria os presentes que sabia que receberia. O que poderia ser melhor?

Foi quando Zé Luís percebeu algo batendo em seu calcanhar. Não era um toque incisivo, pelo contrário, era leve, quase imperceptível. Com o pé esquerdo tateava __ seria este o termo correto? Tato também se usa para o pé? __ bem, Zé tentava descobrir o que seria o objeto. Já preparava-se para dizer em voz alta o motivo de sua inquietação quando ao passar por um poste deu uma rápida olhada e vislumbrou horrorizado um sapato vermelho.

__ O que foi querido? Alguma coisa errada?

__ Só uma coceira na perna... __ disse pensando o mais rápido que podia.

Sim, o sapato vermelho não era um sapato qualquer. Tratava-se de um sapato de salto alto, um sapato que estava nos pés de uma colega de trabalho na noite anterior.

Como era fora esquecer o sapato em seu carro? Tentou lembrar, haviam bebido muito e ao se despedirem, já na frente do apartamento dela, ela descera... com os sapatos na mão! Os sapatos ou o sapato? Como iria saber? Bebera tanto quanto ela, talvez um pouco mais. Lembrava de sapatos vermelhos em suas mãos, mas se era um ou eram dois já era querer demais.

Ao seus pés, a dúvida fora desfeita. Fora um sapato. Por que ela não ligara no dia seguinte? Ligara. Foi ele que ao ver o número no identificador de chamada preferiu não atender. O que ela estava pensando em ligar para sua casa? Ela sempre fora bem discreta! Só que um sapato esquecido no carro era um bom motivo para esta ligação, ou não era?

O importante agora era manter o sapato debaixo do banco. Cuidar para que descessem do carro sem notá-lo e arranjar uma desculpa para voltar após entrarem em casa. Isso era fácil. Costumava esquecer coisas o tempo todo, um celular já seria um bom motivo.

A ladeira!

Teria que subir uma ladeira no caminha de casa, uma ladeira que já se aproximava! Lembrou que a sogra estava atrás de si. Pensou no sapata escorregando e chegando nos pés de Dona Rosa. Que situação! Em desespero tentou pensar rapidamente em uma solução.

Com o pé, conseguiu o mais discretamente quanto possível empurrar o sapato até sua mão esquerda que estava ao lado de sua perna. Tinha agora o sapato nas mãos.

__ Nossa! Vejam só como ficou o Bar Alegria!

Realmente acabara a reforma do bar que ficava na calçada da direita. Com tanta atenção olharam, seguindo o entusiasmo de Zé Luís, que Dona Rosa nem percebeu um ponto vermelho passado pela janela ao seu lado.

__ Ficou bonito mesmo. __ disse Camila.

__ E está cheio!

__ Está assim direto Dona Rosa. O movimento começa às 6 e vai até umas duas da manhã.

Cinco minutos depois, um aliviado Zé Luís desligava o motor do carro na garagem do seu prédio. Só não suspirava porque não podia. Por dentro sentia o coração diminuir o batimento.

__ Meu filho?

__ Sim Dona Rosa?

__ Você podia acender a luz interna? Não estou achando meu sapato...





(Este pequeno conto foi baseado em uma estória real. Ou não.)

Um comentário:

Rodrigo disse...

Ótimo!!!
Tive que rir alto aqui na seção!
Sinceramente, eu faria o mesmo...